Declarações Oficiais

03/04/2010

Homilia de Quinta-Feira Santa 2010

HOMILIA QUINTA-FEIRA SANTA 2010

 

caríssimos irmãos e irmãs, bispos, sacerdotes, seminaristas, religiosos e religiosas, leigos e leigas consagrados, leigos e leigas e ouvintes da rádio América

 

Hoje, Quinta Feira Santa, iniciamos a celebração do Tríduo Pascal. Meditamos e celebramos o Mistério Maior de nossa fé. A Quinta Feira Santa antecipa e vive o Mistério dos três dias de maneira sacramental, como fez Nosso Senhor Jesus Cristo e mandou que fizéssemos o mesmo. É o mistério da tragédia e o mistério da festa, Mistério Pascal! A Imolação do Cordeiro Pascal e a Vitória do Cordeiro sobre o pecado e todo o pecado! Mistério que dá sentido e força à nossa vida, vida de dor, de esperança e de vitória. Vida de dor porque ela é uma realidade dura na história do novo Povo de Deus, quando experimentamos as conseqüências do pecado, ou o próprio pecado a nos levar à tentação do desânimo e desolação. Vida de esperança e de Vitória, quando celebramos o nascimento de uma criança, quando respeitamos a natureza e quando sabemos usar o dinheiro como instrumento da paz, como nos propõe o lema da Campanha da Fraternidade deste ano: “vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24).

 

Ao proclamar este mistério, penso em tudo o que há de positivo em nosso esforço evangelizador, na luta pela justiça, pela verdade, o testemunho de fé dos religiosos e sacerdotes no meio do mundo plural.

 

Penso nos irmãos e irmãs da pastoral carcerária e do menor. Penso nos dolorosos sofrimentos dos que lotam os presídios em nosso Estado. Penso no sofrimento das famílias vítimas de todo o tipo de violência, penso na humilhação que nosso Estado do Espírito Santo vive no presente momento. Penso em nossa juventude desamparada, em constante situação de risco de vida. Penso na infância sedenta de carinho materno e paterno, vítima de uma escola de violência quando deveria aprender a ser humana e a amar. Penso nos enfermos em suas casas, nos leitos dos hospitais e nos sacerdotes enfermos que precisam de nossa atenção.

 

É o mistério da tragédia humana que sofremos no caminhar da história. Porém, no meio de tanta maldade e desilusão há uma forte Luz que ilumina as trevas da história humana, a Páscoa de Jesus Cristo! É a nossa páscoa na Páscoa de Jesus! Somos homens e mulheres de esperança, homens e mulheres de fé, que sabemos em quem acreditamos e porque não perdemos a esperança diante da tragédia, que assistimos quase como que impotentes para mudar esta realidade.

 

Hoje, caríssimos irmãos e irmãs, é dia da Igreja que nasce da Páscoa! É dia de todos os batizados, seres humanos que se tornaram filhos e filhas de Deus, criaturas novas, cristãos! É a Igreja que nasce da Páscoa e que é convidada a unir a tragédia na esperança e certeza da vitória! Não estamos reunidos para chorar, mas para celebrar nossa esperança! Durante o tempo pré-pascal tivemos tempo para chorar os nossos pecados, pedirmos perdão e, assim, sermos mergulhados novamente na Páscoa da Misericórdia do Pai Misericordioso! Igreja santa que nasce do Batismo e Igreja pecadora que renasce através dos Sacramentos do perdão. A dor, a lágrima, a angústia se transformam em esperança, em certeza de vitória, em vitória já na história. Mistério maravilhoso, carregado e vivido, no entanto, em vaso de barro, com aquela constante recomendação paulina “quem está de pé cuidado para que não venha a cair” (1 Cor. 10,12).

 

Como dia da Igreja, hoje, com alegria, também devemos e podemos dizer que é dia de todos os consagrados e consagradas.Os religiosos e religiosas, que entusiasmados com a páscoa em suas vidas, optaram em  viver este Mistério Pascal de uma maneira radical e absoluta, comprometendo-se em fazer com que Deus fosse realmente o Absoluto da vida de cada religioso e cada Comunidade Religiosa, expressando esta disposição nos votos de pobreza castidade e obediência, vivendo em família de consagrados e consagradas a serviço do Reino de Deus, na Igreja de Deus.

 

É dia dos leigos (as) consagrados e das novas comunidades que, também, à sua maneira optaram por uma maneira especial de vivência cristã no mundo a serviço do Reino de Deus.

 

A Igreja celebra este Mistério Pascal suplicando ao Senhor que a converta, que a santifique e que a acolha em Seu Coração de Esposo.

 

O mistério do Verbo que se fez carne e habitou no meio de nós, morreu e ressuscitou, não só nos fez filhos e filhas de Deus. O Mistério do Amor de Deus, Mistério pascal, foi ao extremo da nossa compreensão, melhor, ultrapassou a nossa compreensão, fazendo-se continuamente perto de nós. Assumiu a nossa história, história que se desenrola através do tempo. O Eterno entra no tempo e o redime todas as vezes que o Mistério é celebrado! É o Mistério da Eucaristia e do Sacerdócio! A Eucaristia é Deus remindo a humanidade no tempo! O Sacerdócio é Deus atuando sacramentalmente na humanidade, no tempo, usando o ser humano como expressão e ação salvífica no tempo!

 

Mistério da fé! Mistério Pascal, aqui e agora, na história por todos os séculos dos séculos. O eterno se faz presente constantemente na história da humanidade! Deus conosco, que salva! Deus conosco que caminha conosco! Deus conosco que nos conduz! Deus conosco que nos conduz para o céu, a eternidade feliz!

 

Hoje, é dia da Igreja porque é dia da Eucaristia, quando ela nasce e renasce no caminhar da humanidade, no tempo da fé em Deus que salva, que santifica e governa o seu povo, que caminha nos seus passos!

 

É dia da Igreja que gera o sacerdote no Espírito e que o torna outro Cristo pelo Espírito Santo e Santificador. É, pois, o dia do diácono servidor do povo na Caridade, na Palavra e no Altar! É dia do presbítero que faz as vezes de Cristo, instrumento do Espírito para que a Igreja renasça na Eucaristia. É nosso dia!

 

Esta realidade teológica e espiritual torna-se mais questionadora e desafiadora quando, sob a liderança do Santo Padre, os presbíteros no mundo inteiro celebram o Ano Sacerdotal. É deste Mistério que conseguimos celebrar o Ano Sacerdotal! É desta Fonte que podemos compreender a imensa misericórdia para conosco, queridos irmãos Diáconos, Presbíteros e Bispos. É do Mistério da Eucaristia, Mistério Pascal, na história de todos os dias, que poderemos entender o nosso ser sacerdotal, diaconal ou episcopal.

 

Por isso, todos os leigos e membros do clero, somos convidados nesta Quinta Feia Santa a olharmos para Jesus. Olhando-O desde o Seu Coração poderemos ver o grande e profundo significado de seus gestos na Sagrada Ceia, lavando os pés de seus discípulos e instituindo a Eucaristia como realidade significada no lavar dos pés.

 

Só pode entender O Mistério da Eucaristia ou celebrá-lo quem se dispõe a lavar os pés de seu semelhante. Eucaristia, Lava-pés e Sacerdócio fazem parte de um único Mistério de Amor. Eucaristia é Páscoa! Lavar os pés é Páscoa! Sacerdócio é Páscoa! Um único, grande e profundo Mistério de Amor!

 

A Igreja é Povo Eucarístico, é Povo do lava pés, é Povo Sacerdotal, Povo de Deus! O leigo, o religioso, o diácono, o presbítero e o bispo são pessoas eucarísticas! São pessoas do lava pés, são membros do Povo Sacerdotal. E com muito e maior responsabilidade, o Ministro Ordenado, chamado a fazer as vezes de Cristo esposo da Igreja, Povo de Deus, Corpo Místico de Cristo, é “Homem de Deus”, eucarístico,  homem do lava pés, sacerdote em Cristo!

 

Contemplando e meditando sobre este Mistério de amor, no qual todos estamos envolvidos como agraciados e remidos, tornados criaturas novas, peço licença a todos para dirigir-me com atenção especial aos meus queridos sacerdotes, como tradicionalmente toda a Igreja Católica no mundo inteiro o faz neste dia. Não vou repetir-lhes o que já, modestamente lhes escrevi, há poucas semanas tendo como motivação o Ano Sacerdotal. Porém, dizer-lhes mais uma vez da minha gratidão pelo que os senhores são e significam em nossa Igreja Particular, não é mera repetição.

 

Dirijo-me a você meu caro presbítero: obrigado pelo seu exemplo de fé, de oração, de amor à Igreja, de vida eucarística. Quantas vezes você foi instrumento de Deus para o renascer da Igreja na celebração piedosa da Sagrada Eucaristia! Quantas vezes você foi instrumento do perdão de Deus no serviço dos Sacramentos do perdão! Obrigado meu irmão, a Igreja toda lhe agradece a fidelidade e sua vida de sacrifício ensinando a viver O mistério da paixão e Cruz do Senhor. Por tudo o que você é a serviço da Igreja, o mais profundo e sincero agradecimento da Igreja que você tanto ama! E, digo-lhe com são Paulo: “Tu, porém, ó homem de Deus, procura antes a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a constância, a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado pela bela profissão de fé diante de muitas testemunhas” (2Tim 6,11-12).

 

Não posso terminar esta palavra sem dirigir-me brevemente aos meus queridos seminaristas. Aprendam a viver o Mistério Pascal todos os momentos da vida de vocês.  Este é o Caminho! O único Caminho em que vocês poderão discernir a vocação, alimentá-la e fortificá-la! Este é o caminho da santidade de que tanto lhes tenho falado. A páscoa na Páscoa de Jesus Cristo é a grande motivação de nossa vocação. Deus os abençoe!

 

Deus abençoe a nossa Igreja! Deus nos abençoe e nos fortaleça no anúncio da Boa Nova a todos, sobretudo, aos desesperançados, pois, temos um compromisso como Igreja de Vitória do Espírito Santo “ser sinal de esperança para o povo, anunciando e testemunhando a Boa Nova de Jesus Cristo à luz da evangélica opção pelos pobres, caminhando juntos na acolhida fraterna”!  Amém.

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