Ponto de Vista
Vida, comoção geral e sensacionalismo
11/03/2009
Renato Paganini, Diácono da Arquidiocese de Vitória
Células-tronco embrionárias, aborto e eutanásia. O posicionamento da Igreja se sustenta no mesmo fundamento: a proteção da vida humana em qualquer fase desde sua origem e concepção ao natural declínio, porque a vida humana muda de forma e não de ser, isto é, não se é não-humano pelo fato de estar no útero materno ou gravemente enfermo sendo desse modo justificável a interrupção da vida.
Não é necessário buscar justificativas pela racionalidade teológica para sustentar o princípio de direito à vida. Ele é um direito natural, um princípio racional. Ir contra a vida é irracional. Ter a pertinência de julgar quem deve viver é uma atitude mercadológica que avalia a utilidade e possibilidade de produzir, além de colocar a vida humana no rol dos descartáveis.
Definitivamente é um reducionismo incrível minimizar tais questões ao nível de saúde pública. Questão de saúde pública é o dificílimo acesso das camadas mais empobrecidas a um serviço médico de qualidade, saneamento básico, o lixo urbano e o ar poluído por carros e indústrias que somos obrigados a respirar.
Não existe estatística comprovando que onde se legalizou o aborto a morte por causa das interrupções clandestinas tenha diminuído. E por quê? Porque aborto, em princípio, não é tema de saúde pública e sim moral. Mesmo sendo legalizado, jamais será moral. E por não ser moral sempre se buscará a clandestinidade para efetuá-lo.
Parece que se usa um fato específico para justificar um procedimento geral. A regra deve ser a proteção da vida. Olhando de modo específico o caso da menina de nove anos, o procedimento, sob o ponto de vista ético, é acompanhar a gestão até esgotar as possibilidades de salvar as vidas. Por fim, não tendo condições de vida para a mãe e os fetos, a Igreja respeita a opção livre dos responsáveis. Contudo, no presente caso, não será tudo isso um jogo institucional para que o Estado e outros grupos possam usar da comoção pública e trazer novamente à tona a possibilidade de legalizar definitivamente o aborto em nosso país? Por isso a insistência da Igreja: a preocupação de não fazer desse caso específico a “via de regra” abrindo precedentes para a instrumentalização política e interesseira da situação, pois o que não faltam são discursos demagógicos e debates unilaterais.
Todos têm direito de se pronunciar. Não existe debate legítimo escutando apenas os interessados de uma parte. Portanto, a Igreja tem o direito de ser escutada e o dever de se pronunciar em matérias de doutrina e moral, mostrando os fundamentos dos seus posicionamentos, o que não lhe tem sido permitido. Não foi convidado, por exemplo, nenhum representante eclesiástico para os foros de debate sobre o tema promovido pelo governo federal. E nos veículos de comunicação ouvem, mas abafam a opinião da Igreja em manchetes sensacionalistas direcionando o receptor com apelos emocionais.
Se quisermos construir uma sociedade com cultura de paz e respeito à dignidade da pessoa humana, faz-se necessária uma discussão mais séria sobre esses temas e não apenas se descartar vidas e se eximir de qualquer responsabilidade. Onde estava o Estado com suas políticas públicas quando a criança era abusada por mais de três anos pelo padrasto? Para o governo é muito conveniente solucionar tudo com a legalização do aborto.
