A MELHOR POLÍTICA

17 agosto, 2022

Teve início nessa segunda-feira passada, dia 15, a campanha eleitoral no Brasil inteiro para a eleição dos executivos federal e estaduais e legislativos federal e estaduais. Nos últimos anos houve um grande desgaste emocional nas campanhas eleitorais, muitas delas pautadas nas mentiras conhecidas como fake News, contudo nem tudo se perdeu. Infelizmente muitas lideranças religiosas cristãs empunharam armas ao invés de empunhar a Palavra de Deus. Esperamos que essas lideranças se convertam ao Evangelho de Jesus Cristo e não apenas usem o nome do Senhor em vista do poder e dos interesses particulares.

Há muitos candidatos empenhados numa campanha limpa, ética, a serviço dos que mais precisam. Essa é a melhor política no sentido empregado pelo Papa Francisco. Nesse artigo gostaríamos de apresentar um pouco essa compreensão da política não como coisa suja e nojenta, mas como parte da vida social e fundamental para o exercício da democracia e a melhoria da sociedade especialmente daqueles que estão sendo beneficiados pelos diversos auxílios emergenciais. Espera-se que não vendam seus votos em troca de benefícios passageiros.

Na Encíclica Fratelli Tutti publicada em outubro de 2020 pelo Papa Francisco, há um reconhecimento triste diante do caminho que está se construindo no mundo todo que demonstra uma forte regressão nos avanços para as diversas formas de integração que estavam sendo construídas. Reconhece também que tantos sonhos foram desfeitos, pois a humanidade caminha sem um projeto para todos. Nesse contexto, a “política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes econômicos transnacionais que aplicam o lema ‘divide e reinarás’”.

Além disso, vai-se desenvolvendo no interior dos países uma “agressividade despudorada”, com verdadeiros “gabinetes do ódio”, com as mais diversas formas de “agressividade, com insultos, impropérios, difamação, afrontas verbais até destroçar a figura do outro, num desregramento tal que se existisse no contato pessoal acabaríamos todos por nos destruir entre nós”. Essa agressividade cresceu muito com a penetração dos dispositivos móveis com suas redes sociais e nos computadores.

Os Bispos do Regional Leste 3 publicaram uma carta no dia 01 de julho alertando sobre os fenômenos turbulentos da política brasileira criando no país um clima de ódio que se converteu em ataque aos direitos humanos e das minorias, fazendo aumentar o fundamentalismo religioso, a intolerância, o racismo, a xenofobia, o machismo, a homofobia e outras formas de preconceito que tantas vezes culminaram em atos de violência, como o feminicídio. E dizem ainda que eles se sentem entristecidos com tudo isso acontecendo sob uma suposta adesão à Palavra de Cristo que pregou o amor, o perdão e a acolhida a todos.

Os Bispos se dirigem ao povo das quatro dioceses (Vitória, Cachoeiro, São Mateus e Colatina) para que busque a melhor política. Convocam todos para um esforço maior de compreensão da conjuntura e engajamento efetivo no processo eleitoral, pois há muitas armadilhas ideológicas e informacionais, notícias falsas e apelos de pseudorregiosos sem nenhum amparo nas Sagradas Escrituras, na Doutrina Social da Igreja, que tentarão cooptar eleitores em nome de interesses eleitoreiros.

Sem querer estender muito, a Doutrina Social da Igreja nos diz que “o compromisso político é uma expressão qualificada e exigente do compromisso cristão ao serviço dos outros”, buscando sempre a persecução do bem comum, desenvolvendo a efetividade da justiça com uma atenção particular com as situações de pobreza e sofrimento, e nesse sentido reafirma doze princípios básicos aos quais todos os crentes, enquanto titulares de direitos e deveres de cidadãos, estão obrigados a respeitar. E aos candidatos que se dispõem a ocupar encargos diretos nas instituições para a gestão das complexas problemáticas da coisa pública estão obrigados a seguir tais orientações. Portanto, um cristão e mais ainda um candidato cristão que adere a movimentos e campanhas que vão contra esses princípios está se colocando na contramão da orientação da Igreja para a construção da melhor política.

O Papa nos alerta que “há interesses econômicos gigantescos que operam no mundo digital, capazes de realizar formas de controle que são tão sutis quanto invasivos, criando mecanismos de manipulação das consciências e do processo democrático”. Muitas plataformas favorecem o encontro entre pessoas com as mesmas ideias, dificultando o confronto entre diferenças, facilitando a “divulgação de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódios”. E confessa que os fanatismos induzem a destruição dos outros e são também protagonizados por pessoas religiosas incluindo cristãos. Mesmo nas mídias católicas é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia sem nenhum juízo ético.

A Encíclica Fratelli Tutti dedica um capítulo inteiro à política melhor, que seja capaz de realizar a fraternidade entre as pessoas e as nações. Indica como urgente e necessária uma política que seja capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos”. Os interesses particulares e corruptos enfraqueceram muitas instituições fundamentais da sociedade. É preciso agora uma política capaz de reformar essas instituições.

A regressão indicada pela Encíclica na política deve-se ao crescimento de formas mesquinhas e fixadas no interesse imediato, particular, em vista do poder. Em momentos difíceis como os que estamos atravessando é preciso investir em candidatos que pautem sua campanha em grandes princípios e que pensem no bem comum a longo prazo, e não num auxílio emergencial efêmero. O poder político instituído não se alinha a pensar um projeto de nação, a longo prazo. Tudo é feito em vista do tempo do mandato, ou do exercício do governo. É preciso construir através da política um projeto comum para a sociedade, sem fins eleitorais, que seja pautado por uma justiça autêntica que é “um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte”.

E conclui esse capítulo dedicado à melhor política mostrando quais questões deveriam servir para os candidatos eleitos ou a serem eleitos. Em vez de perguntar quantos votos se obteve, é preciso perguntar “quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Que laços reais construí? Que forças positivas desencadeei? Quanta paz social semeei? O que produzi no lugar que me foi confiado?” O caminho a ser perseguido nos convoca para a paz, para a justiça e para a fraternidade. É preciso que nos empenhemos na superação das políticas de integralismos e divisão, das tendências ideológicas odiosas e mentirosas que manipulam as ações e os destinos dos homens.

Para concluirmos, a Carta dos Bispos do Regional Leste 3 da CNBB, citada acima, indica alguns critérios para orientação do voto na hora de escolher o/a candidato/a. O texto inicia fundamentando o que constitui a via política e como se deve compreender. E logo elenca os critérios fundamentais definidos pela Igreja. O/a candidato/a deve possuir histórica preocupação com a casa comum, a defesa da vida desde a concepção até o fim natural, a segurança e os direitos humanos, a defesa da democracia, uma economia a serviço da vida, o compromisso permanente com a verdade e a honestidade como pressuposto fundamental. A partir desses critérios cada eleitor deverá proceder uma análise rigorosa de cada candidato que escolherá para que realmente se constitua nesse país o caminho da melhor política.

Edebrande Cavalieri

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