A mentira e a sedução

23 julho, 2021

Vania Reis

Muitas  vezes acreditamos que compreendemos uma realidade e, de repente, nos deparamos com novas informações e nos damos conta que estávamos apenas com uma visão parcial dela. Refletindo, integramos essa nova visão e o nosso conhecimento se amplia. Situações mais complexas só podem ser entendidas assim. Um bom exemplo é quando tentamos compreender mais profundamente as bases de nossa fé. É gostoso sentir como Deus se dá a conhecer aos poucos, conforme procuramos, e como em uma cebola, descobrimos a amplitude de Deus em camadas sucessivas.

Eu lembro quando era criança, sempre ouvia as pessoas falando que “Jesus morreu para nos salvar” e confesso não compreendia direito. Por que tanto sofrimento era necessário para nos salvar e salvar de quê? Quando ouvia a explicação do pecado original mais intrigada ficava. O que tenho eu a ver com o erro deles? E se pedia maior explicação, invariavelmente a resposta era que não tínhamos condições de entender  os mistérios de Deus, mas apenas aceitar pela fé.

A catequese tinha me proporcionado uma pequena camada interna da cebola  e eu achava que estava com a cebola completa. Com minha busca pessoal fui ganhando noções mais amplas e outras camadas chegavam. Descobri que  o erro de Adão e Eva  foi  se deixarem seduzir pelas mentiras de Lúcifer, o anjo decaído que criou o pecado e, na forma da serpente, lhes acenava com o poder que poderiam ter ao desobedecer a Deus. Lúcifer era o anjo mais lindo entre todos e a sedução lhe era fácil. Adão e Eva acreditaram nas suas mentiras e desobedeceram a Deus. O demônio soberbo, orgulhoso, que hoje seria descrito como alguém que “se acha”, muito antes da criação do homem desejou ser como Deus. Em seu orgulho, desejo de poder, seduziu muitos e muitos anjos e todos caíram, sendo com eles expulsos do céu. Perderam seu lugar junto a Deus, pela mentira.

Conhecer que a mentira foi (e é) a arma do demônio me mostrou outra “camada da cebola” ao revelar tudo que a mentira trouxe aos seres humanos. Jesus teve que vir como um ser humano para nos mostrar que é possível obedecer ao Pai, mesmo nas mais cruéis situações. Vejam a ousadia do demônio tentando Jesus no deserto. Jesus estava se preparando para sua missão e naquele período ampliava seu conhecimento sobre ela, fazia jejum e após 40 dias sentia fome. Não é difícil imaginar que estava enfraquecido. Satanás  lhe oferece pão (tentação pela necessidade do seu corpo/pela carne), depois lhe tenta com o poder e a glória do possuir (sem sentido para Jesus, mas fonte de sedução para muitos de nós), e por último lhe provoca questionando Jesus como filho de Deus (seu poder espiritual) (Lc 4,1-14). Com essa passagem a Sagrada Escritura nos mostra os caminhos de sedução do demônio.

A sedução é a outra arma do Lúcifer. A palavra sedução vem do Latim seductio, que significa “afastar se de”  e ducere , “guiar, portar, levar”. Então sedução é guiar/levar a pessoa a  se afastar de… (o caminho que ela tinha escolhido anteriormente), neste caso o amor de Deus. Sempre achei que a palavra sedução tinha uma conotação ligada à sensualidade/ sexualidade. Na catequese, lá atrás,  a fruta proibida (coitada da maçã) era sexo. Assim a catequese na minha adolescência me fazia crer. Quando li a Bíblia (de Jerusalém) toda, entendi a interpretação fundamentalista que se deu naquele tempo e levou a esse excesso de peso nas questões  da sexualidade (outro dia conversaremos a esse respeito). Ao desviar o caminho do outro, o sedutor promete ao seduzido mundos e fundos de seus desejos íntimos. O demônio não lê nossos pensamentos, Deus não lhe deu esse poder, mas ele é um exímio observador e presta muita atenção aos nossos atos. Quando você olha para o bolo de chocolate, mas sabe que precisa fazer dieta para resguardar a saúde de seu corpo (templo de Deus), você para seu olhar no bolo e o demônio observa  a oportunidade de tentação e vem com a sedução em seu ouvido: “só um pouquinho”, “você merece”, “você está com fome”…

A sedução pode vir pelo desejo de ter sucesso e reconhecimento (poder e glória)  e aí a tentação é de se quebrarem regras éticas ou morais para levar vantagem nos negócios ou no trabalho, afinal “todo mundo faz”, “estou muito apertado financeiramente”…  Para desviar o caminho do outro (seduzi-lo portanto) o sedutor “doura a pílula”, esconde a sua feiura, coloca adereços chamativos para propositalmente ser aceito em suas ideias e em suas mentiras. Neste último patamar há inúmeros exemplos. Os ostensivos ataques à religião ou à organização da familia e, por fim, da própria sociedade, mas sempre feitas com as ‘pílulas douradas’ dos ideais desconstrutores dos valores cristãos. Ofendem ao Papa e a sua preocupação com os pobres e o tacham como comunista, para minar a igreja, a fé. Defendem ideologia de gênero para desorganizar a família via desautorização do poder dos pais sobre filhos. As estratégias são tantas que passaria anos aqui falando. O desejo do demônio sedutor é distorcer a ideia do que é bom e do que é mau, do que é certo e do que é errado porque assim, ele está se confrontando com Deus através de seus filhos amados. Um exemplo muito pequeno, mas com um poder ilustrativo muito bom é o do seriado da televisão paga (já na 5ª temporada) chamado “Lúcifer” que, entediado no inferno, resolve tirar férias e morar em Los Angeles. A sedução no seriado é mostrada com um Lúcifer bonitão e bonzinho, afastando dele sua imagem negativa visando manipular propositalmente a aceitação e desmitificação do demônio.  Temos aí a arma de sedução e mentira juntos. Ela é subliminar e ataca inserindo mensagens ao nosso subconsciente, nem de longe percebidas pelos que estão sendo atacados. Essa é uma entre milhões de estratégias deste que, pelas trevas, quer ser o senhor do mundo. São muitas as armadilhas de Lúcifer e temos que estar atentos em nosso pequeno cotidiano, porque ele nos ataca pelas beiradas,  não se arrisca no confronto, ele vai minando nossas estruturas pelas beiradas.

Vimos o poder destrutivo da mentira no  artigo da semana passada e neste lembramos que Jesus, “o caminho, a verdade e a vida”, quando falou “Ninguém vai ao Pai a não ser por mim”, dizia também, ninguém vai ao Pai a não ser pela Verdade. Jesus é o caminho, é a referência da qual não podemos nos afastar.  Jesus nos deu a possibilidade da vida eterna, revelando o caminho para nossa salvação: amar e obedecer a um só Deus.  Na pior das cruzes, Ele mostrou que esse caminho é humanamente possível (por isso tanto sofrimento). Sem o caminho mostrado por Jesus, provavelmente eu erraria como Adão e Eva, e perderia a vida eterna. Tal reflexão responde à minha pergunta da infância: o que tenho eu a ver com o erro de Adão e Eva? Simples: se eu não aprender essa lição perderei eternamente o convívio com o amor de Deus.

A mentira é a base e causa primeira de muitos de nossos males. Com a distorção proposital da verdade para tirar proveito pessoal, a mentira nos leva a sermos seduzidos por desejos que não são os desejos de Deus. Só enquanto essa vida de prazer “desregrado” (nada contra o prazer normal, das coisas boas) ou de orgulho, poder e de riqueza exacerbados nos atraírem é que poderemos ser seduzidos, ou seja, quando outros deuses quisermos adorar. Se formos humildes como São Miguel Arcanjo, um dos anjos menos graduados na hierarquia celestial, mas que teve o poder de expulsar dos céus todos os demônios, teremos a força para vencer todos os apelos da sedução e sermos felizes amando a um só Deus.

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