A RENÚNCIA DO PAPA FRANCISCO: A QUEM INTERESSA?

13 julho, 2022

Quando o Papa Bento XVI anunciou sua renúncia tornando-se papa emérito o mundo todo, especialmente católico, parecia não acreditar na notícia. Como assim? Sempre víamos os papas morrendo em pleno pontificado e não sabíamos que a última vez que isso aconteceu foi nos tempos medievais, exatamente em 1.294 com o Papa Celestino V. Nem sempre as renúncias de papas nesses tempos medievais foram pacíficas. As influências políticas obrigaram o Papa Constantino II (767) a renunciar. O Papa João VIII sofreu tentativa de envenenamento. Alguns foram martirizados como Estêvão VI (896) que foi linchado e estrangulado. Dessa forma a pergunta a quem interessa a renúncia do Papa Francisco não é assim tão descabida. Merece algumas reflexões e ponderações.

Nos últimos meses muitas notícias trazem essa questão na imprensa internacional, nas mídias sociais, destacando-se a mais recente feita à agência Reuters. Ao ser perguntado, o Papa responde tacitamente: “Não sabemos. Deus dirá”. Não nega que a possibilidade de renunciar em seu ministério poderia acontecer caso sua saúde o impossibilite de continuar à frente da Igreja. Não nega a possibilidade de seguir os passos de Bento XVI, porém afirma que somente fará isso se “o Senhor me disser para fazer”.

Frisa que até 70 anos atrás não havia bispos eméritos e hoje é comum essa situação. A Bento XVI coube a reabertura da porta dos papas eméritos. “Acredito que o Bispo de Roma, um papa, que sente que está perdendo as forças deve fazer as mesmas perguntas que Bento XVI fez em 2013. Eram perguntas dirigidas à própria consciência a respeito de suas forças devido à idade avançada não mais idônea para exercer adequadamente o ministério petrino e sobre a essência espiritual desse ministério que pode ser exercido sofrendo e rezando e não incluindo obras e palavras; ou seja, tornando-se papa emérito.

As circunstâncias históricas permitiram com relativa facilidade a renúncia do Papa Bento XVI. Contudo, o contexto atual especialmente no interior da Igreja Católica mudou bastante. Então cabe perguntar: a quem interessa a renúncia do Papa Francisco? Longe de nós a ingenuidade de achar que somente o problema das dores no joelho possa ter alguma influência no fato.

O cardeal hondurenho Óscar Andrés Rodriguez Maradiaga, que é um dos mais próximos conselheiros de Francisco, acusou abertamente pessoas que estariam especulando sobre uma renúncia papal criando uma “novelinha”. Penso que seja muito maior que uma novelinha. Há interesses eclesiásticos envolvidos, especialmente cardeais, bispos e padres que desde o Concílio Vaticano II atuam negando o próprio Concílio e promovendo retorno aos campos conservadores especialmente de cunho doutrinário e litúrgico. É bastante grande o grupo de eclesiásticos que abertamente ou no silêncio de ações conspiram contra Francisco desde o início de seu pontificado.

Esse grupo conservador aliou-se em alguns lugares a grupos da direita cristã que tem exercido posições políticas ultraconservadoras de extrema direita no contexto internacional. São as mesmas pessoas que pregam uma falsa pureza doutrinária e moral. O cardeal hondurenho afirma que essa ideia de renúncia nasceu dos inimigos papais. São adversários que se encontram dentro da própria Igreja Católica e muito mais fora dela, especialmente aqueles que exercem poder de cunho ultraconservador de direita.

O Cardeal hondurenho afirma que o Papa “não está por renunciar, nem doente”. Sente muitas dores no joelho, em decorrência de uma fratura, mas isso tem sido resolvido com o uso da cadeira de roda e continuará governando a Igreja. O próprio Francisco confessa que tem melhorado bastante no último mês.

O Arcebispo argentino Victor Manuel Fernández que faz parte do grupo de teólogos que assessoram o Papa Francisco disse que “se um dia ele intuísse que seu tempo acabou e ele que não tem mais como fazer o que o Espírito Santo está pedindo, tenha certeza que ele [o Papa] vai acelerar” a renúncia. O conjunto de pessoas que cercam o Papa Francisco não acreditam em sua possível renúncia, a não ser que haja um quadro de agravamento da saúde física e mental. É bom lembrar que o Papa João Paulo II teve sua saúde debilitada em 1993, contudo permaneceu até 2005, sem renunciar.

O Papa Francisco continua sua agenda de viagens e demonstra em seus desejos uma vontade muito grande de ir à Rússia e à Ucrânia, visitando suas capitais. E diz: “Se o presidente russo me desse uma pequena janela, eu iria para servir à causa da paz”. Por isso, mantém diálogo com Moscou numa relação mais “cordial” e depois da visita ao Canadá ele deverá planejar essa viagem que será histórica em função do contexto bélico.

É notável em seu semblante nunca perder seu humor habitual. Quando perguntado se ele estaria com câncer, simplesmente sorriu e disse que os médicos não haviam falado com ele, deixando os jornalistas em gargalhadas. E completa em tom de brincadeira: “Não, isso é fofoca da corte. O espírito de corte ainda está no Vaticano. Se você pensar bem, o Vaticano é a última corte de uma monarquia absoluta”.

Algumas ponderações ainda podem ser feitas de maneira livre a respeito da renúncia do Papa Francisco. É muito perigoso para a Igreja transplantar modelos políticos do mundo externo para dentro de sua estrutura eclesial. Não estamos afirmando que suas estruturas não devam melhorar, e isso ficou bem claro no processo que Francisco está conduzindo da reforma da Igreja e a publicação da nova Constituição Apostólica. Os parâmetros sobre os quais a Igreja deve se guiar não estão atrelados a nenhuma filosófica política, a nenhuma ideologia, mas à doutrina dos apóstolos e à pregação de Jesus contida nos Evangelhos. Aqui estão os referenciais sobre os quais se deve pautar a condução do pontificado e qualquer função ou cargo na Igreja.

Quando os modelos externos são transplantados, crescem os pontos mais desafiadores do mundo moderno e contemporâneo. Como pensar em eleição? Como pensar em golpe de estado? A renúncia não pode ser enquadrada nos moldes do mundo político. Quando assim ocorrer, podemos estar certos que o caminho de tomada do poder por forças obscuras tornar-se-á a via mais rápida. Há muitos exemplos de lutas violentas em torno do Papa nos tempos medievais quando a Igreja incorporou muitas práticas do mundo político, como foi no sistema feudal.

Contudo, a Igreja dos tempos atuais alterou profundamente seu estar no mundo. Muitas análises sociológicas sobre a Igreja católica perdem sentido quando não levam em consideração os pilares sobre os quais devem se pautados os cargos eclesiásticos. Um padre não pode ser equivalente a um deputado estadual. Um bispo não pode ser equivalente a um senador ou deputado federal, ou um governador ou prefeito. Então, o Papa não é semelhante a um Presidente da República. Seus dicastérios não são equivalentes aos ministérios da ordem política.

A renúncia ou não do Papa deve ser considerada na esfera do Ministério, do serviço à Igreja e não do poder do cargo. Sempre será preciso perguntar se o exercício efetivo de um determinado ministério eclesiástico está garantido com o estado de saúde de uma determinada pessoa, no caso o Papa. A defesa da renúncia por motivo ideológico é um ato que fere os princípios evangélicos. Podemos dizer que sob certas circunstâncias a renúncia pregada por alguns eclesiásticos é um ato de traição, semelhante ao de Judas Iscariotes. Por trinta moedas é possível apagar a força de Francisco como chefe da Igreja constituída por Jesus Cristo e como grande líder mundial que luta contra as grandes pragas dos tempos atuais.

Edebrande Cavalieri

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