Arquidioceses e dioceses sufragâneas

Arquidiocese e diocese como surgem e o que as diferencia? Pe. Kelder José Brandão Figueira, pároco em Itararé, paróquia Santa Teresa de Calcutá, responde. Pe. Kelder tem formação em Filosofia, Teologia, Direito e Ciências Contábeis

Como e por que se cria uma Arquidiocese?

As dioceses surgem quando a Igreja percebe que há uma necessidade de melhor organização pastoral para atender as necessidades espirituais do povo de Deus. Então, constantemente são feitos levantamentos e relatórios que são apreciados pelos bispos e pela Sé Apostólica sobre a viabilidade e necessidade de criação desses espaços territoriais que possam vir ao encontro das necessidades do povo de Deus.

Qual é a relação que se estabelece da Arquidiocese com as dioceses

dela criadas?

A diocese mãe fica sempre como uma referência, embora as dioceses criadas sejam autônomas em sua administração, no seu governo. Comumente, quando se desmembra uma diocese mãe, que se torna uma Arquidiocese, o arcebispo fica sendo referência como metropolita, ou seja, aquela pessoa que vai fazer uma mediação entre a Sé Apostólica e aquela região que a gente chama de Província Eclesiástica. Agora, aqui no Brasil se adotou um caminho muito interessante pós-Vaticano II, com a criação dos regionais e, também, dos sub-regionais da CNBB, pois nem sempre o metropolita é o coordenador da região (regional ou sub-regional). Por exemplo, na província Eclesiástica do Espírito Santo, que faz parte do Sub-regional Leste 2, o coordenador é Dom Joaquim Wladimir Lopes Dias, bispo de Colatina. Houve um acordo de fazer um rodízio entre os bispos do estado nesta coordenação. É uma ideia muito interessante porque a alternância da coordenação faz com que haja um olhar diferente, propostas de trabalho diferentes e isto é muito saudável para a dinâmica pastoral da Igreja.

O senhor falou que a figura do arcebispo se torna uma referência, mas hierarquicamente os bispos das dioceses estão submissos ao arcebispo?

Não, absolutamente. Tem essa referência como metropolita, mas cada diocese é autônoma no seu governo, então cada bispo tem uma forma própria de governar. O que existe pós Concílio Vaticano II, é um princípio norteador da Igreja universal para que os bispos trabalhem em comunhão. Por isso, se criam as províncias, regionais e sub-regionais, para que haja uma maior interação, maior dinamismo, mas cada bispo é autônomo. Por exemplo, isso fica muito claro com relação à CNBB, não só a CNBB mas todas as conferências episcopais, com o papel muito importante de articular a unidade entre os bispos dos países. Mas não tem a prerrogativa de legislar para as dioceses, e cada bispo pode adotar ou não aquilo que a CNBB orienta. Comumente se adota, mas nem sempre. Exemplo disso ocorreu nas eleições 2018, quando o candidato da esquerda se reuniu com o secretário-executivo da CNBB.

Dois dias depois o candidato da direita chamou CNBB de banda podre da Igreja e na mesma semana se encontrou com um bispo que se posicionou diferente da CNBB. Então isso mostra que os bispos são autônomos nas suas decisões pastorais e políticas.

E isso não é ruim?

Não. Não é ruim, porque com isso se preza a prerrogativa do governo próprio de cada diocese articular, e também o princípio da unidade. Quando se trabalha a partir do princípio da unidade, isso se torna um dom para Igreja, porque não existe uma imposição, mas existe uma comunhão de pensamentos, de ideias e de encaminhamentos. Na Igreja não se deve impor nada, a gente deve fazer por adesão e por comunhão de espírito, de afinidade de princípios, porque é isso que deve nortear o povo de Deus. Agora, a relação dos bispos é direta com o Papa e aí sim existe um princípio de obediência, inclusive um voto próprio que cada bispo faz na sua ordenação de obedecer e defender o Santo Padre. E o Papa sim, a Santa Sé tem autoridade para chamar atenção e inclusive destituir a função do bispo ou arcebispo.

O bispo também tem essa mesma prerrogativa em relação aos padres?

Sim. Nós padres somos diretamente vinculados aos bispos, então, cabe ao bispo dizer se podemos ser padres ou não, e eles podem nos suspender sim. Claro que tem todos os casos prescritos no Código de Direito Canônico, mas nós somos hierarquicamente submetidos à autoridade do bispo, tanto em termos canônicos legais, quanto em termos de princípios também espirituais. Um padre que não está em comunhão com seu bispo não pode ficar na diocese. Em nossa ordenação fazemos um voto de respeito e de obediência.

Além da relação dos bispos, as pastorais e organismos das (arqui) dioceses devem trabalhar em conjunto?

Sim, o que vale para a hierarquia em termos de princípio e de unidade, deve também chegar até às bases. O princípio é que desde a gênese da comunidade, exista essa comunhão pré-estabelecida, isso para as pastorais, para os movimentos… Da mesma forma que o Papa deve unir a Igreja Universal – essa é a função primordial do Papa – e o bispo tem que manter a unidade da igreja local ou da diocese ou da arquidiocese, o padre é o garantidor da unidade paroquial. Isso deve também se reproduzir no trabalho das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), que no caso daqui é a nossa estrutura e, também, das pastorais e movimentos.

No Espírito Santo a gente preza muito por isso. A Ceb é o lugar onde todas as pastorais e movimentos devem exercer a comunhão. Então, se o padre que não está em comunhão com o bispo não pode estar na diocese, o agente de pastoral, que não está em comunhão com o padre, não deveria estar atuando na paróquia, pois isso vai desconstruindo todo trabalho que é proposto em determinada região. Então é claro que as pastorais e movimentos devem estar sim em comunhão com o padre, e todos nós devemos estar em comunhão com o bispo, e todos os bispos devem estar em comunhão com o Papa.

E em sua opinião isso tem funcionado na prática?

A gente não está vendo isso funcionar muito hoje não, porque o Papa está falando uma coisa, padres e bispos estão fazendo outras completamente diferentes. É uma conjuntura muito complexa e muito adversa ao princípio da unidade. Por isso, que a gente tem que falar muito de unidade nesses tempos, a gente precisa resgatar isso para que o Corpo de Cristo não fique esfacelado com as nossas divisões, por vícios, por caprichos, por ideologias, ou por preconceitos, ou por tantas outras influências nefastas que fazem com que a gente peque contra a unidade da Igreja. Mas o dom primordial do espírito da Igreja é a unidade e a hierarquia tem o dever sagrado e a obrigação de garantir esta unidade, mesmo que a gente tenha que cortar na carne.

Como trabalhar a diversidade e a pluralidade que existe na Igreja?

A hierarquia tem que manter a unidade, tem que saber trabalhar com o diverso e criar condições, inclusive legislando para que a unidade seja garantida. Isso é muito diferente da uniformidade, que é imposta unilateralmente e determinada por uma pessoa ou por uma instituição. Agora a unidade não, ela é fruto de uma consciência de que juntos, podemos fazer mais. Paulo é muito preciso na Carta aos Coríntios quando usa do corpo para falar do princípio da unidade que é um princípio fundante da fé cristã e da vida em comunidade.

Existem as arquidioceses, as províncias eclesiásticas e os regionais.

Como essas instâncias se relacionam?

A província eclesiástica e o regional são a mesma coisa. O regional é o agrupamento de províncias eclesiásticas ou de sub-regionais. Nós chamamos aqui de sub-regional. Nós pertencemos ao Regional Leste 2, que inclui Minas Gerais e Espírito Santo, algo em torno de 30 dioceses. As Províncias Eclesiásticas formam o regional e as dioceses formam a província eclesiástica, e é essa relação que se tem. A CNBB orienta que haja o princípio da unidade territorial através da província eclesiástica e nós no Espírito Santo trabalhamos assim, sendo um dos poucos no Brasil a fazer isso. Então, nosso sub-regional se reúne periodicamente a cada três meses, nós temos uma formação permanente do clero, nos encontramos anualmente para um momento de aprofundamento e de confraternização de troca de ideias, temos também muitas atividades que são comuns nas quatro dioceses aqui do Espírito Santo. Então, existe uma comunhão e participação muito grande. As CEBs também funcionam como um fluxo de ligação em todas as dioceses porque elas estabelecem a identidade da Igreja do Espírito Santo, e isso facilita muito esse trabalho de integração e de comunhão.

Entrevista concedida à jornalista Andressa Mian, por ocasião da posse de dom Dario Campos, arcebispo de Vitória, publicada em janeiro de 2019 na Revista Vitória.

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