Celebração da Paixão do Senhor

2 abril, 2021

Jardel Martins | “Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes, a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas o preço de nossa cura.”

(Is 53, 5)

Neste dia celebramos em toda Igreja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. O silêncio, se pode ser percebido e, para os mais atentos, o som rouco das matracas (usadas para substituir os sinos, principalmente nas paróquias de interior) invade o ambiente e nos leva para mais perto do mistério celebrado. Também não se celebra, neste dia, a Santa Missa; e o jejum e a oração auxiliam o espírito de despojamento e recolhimento. As leituras da celebração da paixão nos convidam a contemplar o mistério da cruz para sermos testemunhas de que a morte não vence o amor de Deus pela humanidade.

O profeta Isaías, na Primeira Leitura (cf. Is 52, 13 – 53, 12), anuncia um Servo que vai se entregar pelos pecados do mundo, sendo ele o Santo, o Justo, o Inocente que assume nossas fraquezas e, para manifestar o amor de Deus para conosco, se humilha até a morte, e morte na cruz. Sua missão querida pelo Pai, é a de manifestar o amor divino, mesmo que isso custe um alto preço.

A obediência do Filho, apresentada por São Paulo na Segunda Leitura (cf. Hb 4, 14-16; 5, 7-9), nos ensina que, para cumprir a vontade do Pai, é preciso renunciar às paixões, medos e planos. “Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!” (cf. Lc 22, 42). Essa obediência de Jesus ao Pai não é uma falta de liberdade, mas é, pelo contrário, de forma firme e convicta, que não recua diante das intimidações de seus condenadores: “Tu o dizes: eu sou rei.” (cf. Jo 18, 37)

A narrativa da Paixão segundo o Evangelho de João (cf. Jo 18, 1-19, 42), enfatiza uma soberania nos acontecimentos e, pela grandiosidade dos fatos, me prenderei a apenas um – que por muitas vezes pode passar despercebido por nós, mas que contém uma grande reflexão:

O relato de João se inicia com a traição de Judas, a prisão de Jesus, seu processo diante dos sumos sacerdotes, Anás e Caifás, e a negação de Pedro (cf Jo 18, 1-27). Vejamos que, nesta primeira parte da narrativa, somos colocados diante de duas traições.

O pecado de Judas foi maior, pois, dominado pelo poder do inimigo, entregou Jesus por “trinta moedas de prata” (cf Mt 26, 15); já o pecado de Pedro se dá uma vez que, dominado pelas paixões – medo da condenação e da cruz e falta de confiança – negou conhecer a Jesus.

Embora estejamos diante de dois pecados, o que mais nos deve chamar atenção é o desfecho da história: Judas ao perceber a gravidade de seu pecado sentiu remorso e, acreditando que seu erro não tinha mais conserto, não percebe que a misericórdia de Cristo era grande o suficiente para perdoá-lo. Por outro lado, Pedro ao chorar amargamente o mal que fez, reconhece seu erro e, após a Ressurreição, à beira do lago, Jesus ajuda-o a fazer o caminho de perdão a si, fazendo-o perceber o valor que ainda tinha ao destruir os sentimentos de dor e rejeição. “Jesus disse-lhe: ‘Apascenta minhas ovelhas’. E acrescentou: ‘segue-me’” (cf Jo 21, 17.19).

Aqui, diante do mistério que celebramos no dia de hoje, cabe-nos a reflexão: Em que lugar desta narrativa nós estamos? No de Pedro, que oferece fidelidade infinita e, guiado pelas paixões trai Jesus por três vezes, ou no de Judas, que assume de forma cruel o mal em sua vida e, dominado pelo demônio, se fecha ao perdão e misericórdia de Deus?

Judas caminhou com Jesus por muito tempo: aprendeu com ele o que era o amor, a misericórdia e o perdão, porém não aprendeu o suficiente. Ao se dar conta de seu erro, acreditou que sua vida havia chegado ao fim. Isso acontece quando olhamos para nossos erros e pecados sem a luz da misericórdia e não nos damos uma segunda chance.

Quem não se abre à misericórdia, não entende o mistério da cruz que celebramos no dia de hoje, pois, só ressuscita com Cristo aquele que, com Ele, passa pela cruz. E essa cruz que adoramos na celebração da Paixão de Nosso Senhor, é a prova mais concreta do amor de Deus por nós, a força para vencermos os momentos difíceis que estamos passando e a nossa esperança de salvação, pois, pelo mistério da paixão, a morte não tem mais poder sobre nós, mas, pelo contrário, pela misericórdia de Deus, nos abre para a vida nova.

Por fim, meus irmãos e irmãs, que essa música tranquila e longa, quase interminável para os mais impacientes, seja meditada profundamente e se torne nossa oração neste dia de profundo silêncio:

A morrer crucificado, / teu Jesus é condenado / por teus crimes, pecador.
Pela Virgem Dolorosa, / Vossa Mãe tão piedosa, / Perdoai-me, bom Jesus.
Com a cruz é carregado, / vai sofrendo resignado, / vai morrer por teu amor.
Sob o peso desmedido, / cai Jesus, desfalecido / pela tua salvação.
Vê a dor da mãe amada, / que se encontra desolada, / com seu Filho em aflição.
No caminho do Calvário, / um auxílio necessário / não lhe nega o Cireneu.
Eis o rosto ensanguentado, / por Verônica enxugado, / que no pano apareceu.
Novamente desmaiado / sob a cruz que vai levando, / cai por terra o Salvador.
Das mulheres que choravam, / que fiéis o acompanhavam, / é Jesus consolador.
Cai exausto o bom Senhor, / esmagado pela dor / dos pecados e da cruz.
Já do algoz as mãos agrestes, / as sangrentas, pobres vestes, / vão tirar do bom Jesus.
Sois por mim na cruz pregado, / insultado, blasfemado, / com cegueira e com furor.
Por meus crimes padecestes, / meu Jesus, por mim morrestes / quanta angústia, quanta dor.
Do madeiro vos tiraram / e à Mãe vos entregaram, / com que dor e compaixão!
No sepulcro vos puseram, / mas os homens tudo esperam / do Mistério da Paixão.
Ó Jesus, que eu vos siga, / que vos ame, vos bendiga / na celestial mansão.

 


 

CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Bíblia Sagrada: tradução oficial da CNBB. 2ª Edição. Edições CNBB. Brasília-DF. 2019.

Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo. Livro de Cânticos: Cantai ao Senhor. 4ª Edição. Paulus. Vitória. 2011 

Jardel Martins Ferreira 

Seminarista do 3º ano de Filosofia;

Paróquia de origem: Santo André, André Carloni, Serra – ES;

Paróquia de pastoral: Nossa Senhora da Conceição, Viana – ES.

Compartilhe:
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email

VÍDEOS

sábado 26 junho
domingo 27 junho
segunda-feira 28 junho
Nenhum evento encontrado!

Facebook

endereço

R. Soldado Abílio Santos, 47
Centro, Vitória – ES, 29015-620

assine nossa newsletter

Seja o primeiro a receber nossas novidades!

© Copyright Arquidiocese de Vitória. Feito com por