III Domingo da Quaresma

6 março, 2021

Pedro Gouveia | “Destruí, este templo e, em três dias eu o levantarei” (Jo 2, 19).

O plano evangélico proposto para este Terceiro Domingo da Quaresma nos põe em uma cena muito embaraçosa, quiçá chocante. Sobretudo a algumas pessoas sensíveis e muito devotas, que estão habituadas a imaginar a Jesus como uma figura de homem sempre terno, doce ou afetuoso. João nos situa no início do ministério de Nosso Senhor, no cenário dos preparativos da primeira Páscoa dentro das três que a sua literatura nos expõe: a última Páscoa será a derradeira – na Cruz – hora plena da Redenção da humanidade.

Ao observar a banalização do Templo, repleto de vendilhões, Jesus os expulsou violentamente, advertindo-os: “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio”. Até aqui, nada de novo. Tanto que os discípulos de Cristo ao verem a atitude do Mestre, relembram e associam Seu comportamento à passagem do Salmo (69, 10): “o zelo pela tua casa me consumirá”. Ainda no Antigo Testamento, denotam-se semelhantes gestos de indignação sobre a violação do Templo: Neemias (13, 7s) atira para a rua toda a mobília profana que ocupava os átrios do Templo e purifica-o; e em Malaquias (3, 1-4), o Anjo do Senhor entrará no Templo e o purificará como o fogo, tornando novamente agradável à Deus as oferendas do povo.

Algo de novo surge, entretanto, na resposta ao questionamento dos judeus, que exigem de Jesus um sinal capaz de justificar aquela atitude tão enérgica. Nosso Senhor os impele dizendo que reconstruiria em três dias o Templo totalmente destruído. Taxado de louco por causa da proposta literalmente incabível para aqueles homens (“Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?”), ninguém – exceto o próprio Jesus – compreendia no momento o que de fato sua asserção queria dizer.

Cristo falava da renovação do culto e das antigas tradições de adoração a Deus, já impregnadas pela hipocrisia farisaica, pelos rigorismos incabíveis da lei, pela vaidade, hipocrisia e contradição de seus praticantes. São João expões através da fala do Senhor não somente a insuficiência destas práticas decadentes, mas a manifestação sobrenatural do verbete: “Mas Jesus estava falando sobre o Templo do Seu Corpo” (Jo 2, 21). O Corpo de Jesus é o novo centro do culto, a nova proposta de Deus ao homem e templo vivo e digno da Trindade: quem deseja adorar a Deus em espírito e verdade (Jo 4, 24), deve fazê-lo em Jesus Cristo. Para isto é necessária a fé, sem o qual não se pode compreender a Salvação Divina.

Já na primeira Páscoa relatada pelo evangelista, Jesus advertia-nos a este novo sentido. O Kerygma cristão não se trata mais da libertação dos judeus no Egito, mas de Jesus Cristo crucificado: loucura para os pagãos e escândalo para a raça de Israel (2ª Leitura: 1Cor 1, 23). Enquanto a ciência e as vãs tentativas humanas de se alcançar a sabedoria falam contraditoriamente sobre este episódio; suspenso na Cruz, o Senhor desfigurado revela a face gloriosa de Deus.

No fiel e santo madeiro, Sua real e divina presença não se equipara aos apetites vorazes de um titã grego ou de uma potestade venerada no panteão romano; nem se assemelha à frieza dos rigorismos legalistas hebraicos ou ao esvaziamento e ao reducionismo estético que estes fizeram da Lei de Deus dada a Moisés (1ª Leitura: Ex 20, 1-17). Expressa o contrário: em Jesus, o Senhor – sacerdote e vítima perfeita, que oferecido em sacrifício expiatório pela salvação do mundo -, anulam-se todos os demais sacrifícios da Antiga Aliança realizados no Templo; é n’Ele que se revela um sinal de amor total de Deus ao homem, e um claro gesto da extrema solidariedade que reúne o gênero humano à Graça e à liberdade de filhos, anteriormente perdida pela falta de Adão (cf. 1Pd 1, 18-19).

Nosso Senhor não se esmorece por nenhuma injúria ou calúnia que o pressionavam a afastar-se do caminho da Cruz, indicado como via de salvação e redenção da humanidade. Fiel e obediente, Jesus se consome de zelo amoroso pela imagem e semelhança de Seu Pai e com firmeza expulsa todos os excessos que retiram o Templo de seu sentido originário: um lugar do encontro com Deus, casa habitada pelo Senhor.

No tempo quaresmal, impelidos pelo Mestre por meio do jejum, da oração e da caridade, somos chamados a mantermo-nos vigilantes para purificarmos nossos corações das paixões e desejos que nos desviam da vontade divina.  Ao abraçar sua Cruz, no seguimento, tomemos cuidado para não mercantilizar e profanar o templo vivo de seu coração e de seu testemunho, canais pelo qual Deus permanece e comunica-se.

Como comunidade de irmãos e Corpo Místico de Cristo, a Igreja congrega nossos propósitos de mortificação e fidelidade, mantendo-se de igual maneira suspensa no alto da Cruz. Sólida na fé, ela transmite na história aquilo que constitui sua natureza: o amor de Deus para com toda a criação, reconciliada Nele pelo preço do Seu sangue derramado na Cruz (cf. Ef 1, 10); e a salvação gloriosa do Pai que generosamente concede vida abundante em favor de todos (cf. Jo 12, 32).

Pedro Nunes Gouveia

Seminarista do 1º ano de Teologia;

Paróquia de origem: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Praia da Costa, Vila Velha – ES;

Paróquia de pastoral: Santa Mãe de Deus, Ibes, Vila Velha – ES.

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