DIVÓRCIO GRISALHO

29 janeiro, 2024

Dados divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um crescimento bem significativo em relação aos dados de 2010 a respeito do divórcio de casais acima dos 50 anos. Há dez anos atrás representavam menos de 10% do número de divorciados. Hoje chega à cifra de 30%. Segundo especialistas no acompanhamento desse fenômeno, o crescimento é nítido e crescente nessa faixa etária. Cresce também a busca por informações a respeito dos direitos, caso venham a se divorciar.

Analistas entendem que a mudança de paradigma na sociedade atual em relação à geração de nossos avós que mantinham, muitas vezes, casamentos longos marcados pela visão patriarcal da sociedade, pela religiosidade forte e maiores interditos sociais está dando lugar a uma sociedade que não mantem as relações por simples obrigação ou a qualquer custo. Também podemos mencionar os efeitos de uma cultura nos moldes de uma “sociedade líquida” em que as relações vão se desfazendo. Ao mesmo tempo, as pessoas estão chegando aos sessenta anos com novos projetos de vida, pois a expectativa é bem maior que há décadas atrás.

As mudanças sociais e culturas estão reduzindo o grau de desconforto em relação às pessoas divorciadas. A vontade de viver cada vez mais e melhor domina o horizonte das decisões a respeito da vida a dois. A própria mulher desenvolve a cada momento a valorização de sua independência. Ela se coloca como parceira. Rejeita cada vez mais o lugar de submissão, o que tem feito crescer o número de feminicídio causado por homens que não aceitam a mulher parceira. Às vezes, o divórcio representa seu grito de liberdade diante de uma relação doente e asfixiante. Tóxica! A mulher não está mais submissa financeiramente ao domínio masculino. Portanto, casamento sem sentido é caminho aberto e certo para o movimento do divórcio.

É preciso reconhecer que estamos diante de um processo permanente de transformação da situação da vida de casal e da própria família. Enfraquece aquela doutrina que colocava a família como “Igreja doméstica”, pois esse lugar sofre de inúmeras transformações sociais e culturais. Surgem novos modelos de convivência e cresce a pluralização de valores. Assim, estamos diante de uma maior valorização do amor íntimo e pessoal entre os cônjuges. Em síntese, estamos diante de uma complexidade de questões matrimoniais e familiares.

A Igreja Católica tem colocado esse assunto em pauta nas diversas assembleias pastorais e no próprio sínodo que está se realizando neste momento. A preocupação é pastoral. No Relatório Síntese de outubro de 2023 do Sínodo, a Igreja constata “que essas pessoas se sentem marginalizadas ou até excluídas pela Igreja” e “pedem para serem escutadas e acompanhadas e que seja defendida a sua dignidade”. Entre os presentes na Assembleia Sinodal, apoiados nos relatórios oriundos da escuta, “pôde-se perceber um profundo sentido de amor, misericórdia e compaixão pelas pessoas que estão ou se sentem feridas ou negligenciadas pelas Igreja” e que essas mesmas pessoas buscam um lugar onde se sintam seguras, escutadas e respeitadas, sem receio de se sentirem julgadas. O Relatório publicado nos diz que “a escuta é um pré-requisito para caminhar juntos à procura da vontade de Deus […] e os cristãos não podem faltar ao respeito pela dignidade da pessoa humana”.

O Papa Francisco em sua exortação apostólica sobre a família Amoris Laetitia se dirige aos divorciados que voltaram a se casar para que “não se sintam excomungados, como também podem viver e evoluir como membros ativos da Igreja”. E de maneira bem contundente escreve: “já não se pode dizer que todos os que se encontram em uma situação irregular vivem em pecado mortal”.

O Papa ainda pede ao clero que tenha uma visão mais ampla e misericórdia, pois “o confessionário não deve ser uma sala de torturas, mas sim o lugar da misericórdia do Senhor”. Contudo, no cotidiano da vida eclesial os casais divorciados sentem práticas discriminatórias e excludentes, de juízos condenatórios ou de indiferença. Por parte dos ministros ordenados há muito acolhimento; contudo, entre os próprios batizados a realidade tem se mostrado dura e cruel.

Um pastor não pode se sentir feliz aplicando rigorosamente leis morais aos que vivem em situações irregulares. O lugar do pastor não é o trono de Moisés onde se julga, com ar de superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas. A Igreja é o lugar da misericórdia de Deus, e não um tribunal. A Doutrina da Fé orienta os sacerdotes como pessoas chamadas a propor um caminho de discernimento que mostra sempre o “rosto materno da Igreja”. As mesmas orientações dadas aos sacerdotes devem ser seguidas pelos fiéis batizados.

O cuidado pastoral por parte dos sacerdotes deveria conduzir a uma análise em que se observam as limitações que atenuam a responsabilidade e a culpa das pessoas. Trata-se de um acompanhamento que vai além da questão do sacramento, e pode ser direcionado para outras formas de integração na vida da Igreja como uma maior presença na comunidade, participação em grupos de oração ou de reflexão ou envolvimento em vários serviços eclesiais. O fato de alguém ser divorciado não o impede de exercer serviços eclesiais.

Trata-se de um acompanhamento pastoral como exercício da “via caritatis”, que é o caminho de Jesus Cristo, de misericórdia e integração. Não se buscam licenças para a recepção de sacramentos, mas de engajamento em processo de discernimento acompanhado por um pastor. Trata-se de um discernimento pessoal e pastoral.

Desta forma, maior que a preocupação com o aumento do número de católicos divorciados deve ser a preocupação com o caminho da misericórdia e integração dessas pessoas na vida da Igreja. Regras, leis, proibições e ameaças com sanções se mostram pouco eficazes para a solução dos problemas existentes. É preciso afastar os procedimentos excludentes e condenatórios aos divorciados presentes nos diversos ambientes eclesiais, e incrementar os processos de discernimento pessoal e pastoral, pois é grande a distância entre o matrimônio ideal apresentado pela Igreja e a realidade vivida por um número cada vez maior de pessoas.

Edebrande Cavalieri

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