FORMAÇÃO CRISTÃ

14 março, 2024

Desde a realização do I Sínodo Arquidiocesano de Vitória nos anos de 2007 a 2009, a nossa Igreja local tem diante de si o desafio da formação. Há um reclame geral de que “falta formação”. Muitas iniciativas foram realizadas com encontros, palestras, cursos, contudo a sensação que se tem é que “falta formação”. É muito angustiante ouvir os diversos grupos eclesiais reclamando isso. Mas de que formação estamos sentindo falta?

Muitos dizem que é preciso retomar os velhos esquemas do passado que funcionaram muito bem, com catequese doutrinária rigorosa a ponto de se reprovar jovens na primeira eucaristia. Outros alegam que os tempos atuais requerem mais competência formativa nos seminários para formação dos novos padres. E tantos outros já desistiram até de reclamar. Estão conformados.

Gostaria de aproveitar algumas intuições da Carta Pastoral publicada pelo Vigário Apostólico da Arábia do Sul que engloba Emirados Árabes, Omã e Iêmen, de autoria de Dom Paolo Martinelli, apontando para a necessidade de uma “Formação Cristã”. O que envolveria esse movimento? Ele nos diz que é preciso “repensar na formação, nos conteúdos e nos meios”. Os novos tempos exigem que a formação cristã não termina com a transmissão dos conteúdos da fé, mas deveria “gerar uma nova mentalidade, uma nova maneira de ler a história e a sociedade em todas as suas articulações”.

Então podemos dizer que qualquer encontro, curso ou seminário não se esgota na transmissão dos conteúdos pertinentes ao tema em questão. Um encontro de liturgia não se reduz ao ensinamento a respeito do novo Missal Romano, por exemplo, mas deveria gerar nas pessoas que estão participando uma nova mentalidade, uma nova maneira de ler a história. A liturgia não está dissociada da vida, da cultura em que ela se desenvolve. Um encontro sobre espaço litúrgico, outro exemplo, não se reduz à adequação para os fins celebrativos. Há uma dimensão cultural da fé que precisa ser levada a sério, pois o desejo missionário da Igreja é que todos e todas busquem a Deus.

O mundo atual está passando por mudanças de época em níveis globais. Nenhum país está isento dessas transformações. Então, a formação cristã exige como primeiro passo a capacidade de leitura da história, leitura da realidade, para identificar os desafios que o cristão deverá enfrentar em seu cotidiano. Portanto, os meios e os conteúdos deverão corresponder às necessidades dos fiéis. São Paulo em suas viagens apostólicas buscava primeiro de tudo conhecer a realidade de cada comunidade a ser evangelizada. Não ia levando as normas do judaísmo sacerdotal como a prática da circuncisão.

Ainda estamos muito presos aos esquemas tradicionais de repassar conteúdos e doutrinas como elemento único da formação cristã. Na Carta Pastoral, o Vigário Apostólico nos diz que é preciso passar dos conteúdos e doutrinas para um testemunho vivo, para explicar o vínculo entre fé e vida, fazendo chegar à realidade de cada pessoa que está em processo de formação. O Diretório para a Catequese do Pontifício Conselho nos diz que a evangelização é a chave interpretativa da catequese em todas as suas fases e a própria liturgia é um lugar e um meio de formação.

Ainda durante o I Sínodo Arquidiocesano dizia-se que a formação cristã deveria impregnar todas as forças vivas da Igreja e não apenas determinados segmentos ou pastoral. Naquelas sessões chamávamos a atenção para o enorme papel formativo que possuem as escolas e universidades católicas e cristãs. São essas forças que deveriam tomar a direção no processo formativo para a dimensão cultural da fé, devido a sua capacidade de diálogo e conhecimento. Essas forças formativas podem dar uma enorme contribuição para a transmissão da fé, para o bem social e para a coexistência entre as pessoas, promovendo o diálogo inter-religioso e um senso de fraternidade humana universal.

Mas é preciso muito cuidado. O primeiro passo não é a celebração do mistério da fé no meio universitário, mas a preparação formativa de toda a comunidade universitária no sentido da dimensão cultural da fé. Somente assim a comunidade poderá amadurecer e dar o passo decisivo posterior na direção da explicitação da fé. Antes de qualquer coisa, as escolas e universidades católicas precisam atuar para melhorar o ambiente da convivência social, cultural e inter-religiosa. Hoje é imperioso superar a polarização que envolve e divide as pessoas.

A formação cristã deverá envolver de maneira colaborativa todas as forças da Igreja, escolas, universidades, clero, religiosos/as, catequistas, leigos/as, associações eclesiais, movimentos apostólicos, outras Igrejas cristãs. Uma Igreja sinodal requer esse caminhar juntos em seu modo de ser e de agir. Não cabe mais nos tempos atuais a prática de cada um cuidar de seu quadrado. Muitas vezes, temos a impressão de termos diversas igrejas numa mesma paróquia ou comunidade, pois cada equipe cuida apenas do seu quadrado, do seu apresentar-se, do seu aparecer perante os demais.

A conjuntura atual requer muitos missionários para a formação cristã. Do contrário, não apenas veremos o definhamento institucional da Igreja, mas seu pouco poder de iluminar o mundo como “luz do mundo” e “sal da terra”. A formação para a vida realmente cristã deve servir para um novo dinamismo eclesial nos moldes apontados pelo Concílio Vaticano II e pelo Magistério da Igreja. Talvez estejamos diante do maior desafio na formação cristã dos nossos jovens, cada vez em menor número em nossas comunidades. O futuro da Igreja passa obrigatoriamente pela formação cristã de nossos jovens. Do contrário, veremos uma sociedade cada vez mais agnóstica e indiferente, sendo educada para o domínio em vez da solidariedade e da paz.

Edebrande Cavalieri

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