JOVENS “SEM RELIGIÃO”

12 maio, 2022

O Instituto de Pesquisa Datafolha está divulgando alguns dados de pesquisa do ciclo eleitoral 2022 que estão chamando muito a atenção da sociedade e em especial as lideranças religiosas. Como em 2020 não aconteceu o Censo do IBGE, esses novos dados servem para visualizarmos a dinâmica da sociedade brasileira no que se refere à questão religiosa. Especificamente um dado divulgado na semana passada mostra que os jovens entre 16 e 24 anos de São Paulo (30%) e Rio de Janeiro (34%) fazem parte do grupo dos “sem religião”, superando o percentual de jovens católicos e evangélicos que frequentam a Igreja.

Em âmbito nacional, chega a 25% o percentual de jovens sem religião. A evolução mostra que em 2000 o país tinha 7,30%, e em 2010 passou para 8%. Portanto, a evolução mais rápida se deu na última década. O que está acontecendo? Nos encontros com as diversas pastorais no Espírito Santo sempre registro a ausência quase completa de jovens.

Especificamente, em São Paulo e Rio de Janeiro há mais jovens que são sem religião que aqueles que frequentam as Igrejas. Então vem a questão: Por que os jovens brasileiros estão saindo das Igrejas? Estariam se tornando ateus? O que essa mudança nos mostra?

É preciso também considerar que entre jovens católicos mesmo não participando na Paróquia ou Comunidade Eclesial a pessoa se diz católica. Então, ao responder que não tem religião o jovem se considera ex-católico mesmo. No meio evangélico quem não frequenta a Igreja e não paga o dízimo deixa de pertencer àquela instituição.

É preciso destacar que esses jovens “sem religião” não são em sua maioria ateus ou agnósticos. São pessoas religiosas, possuem uma forte espiritualidade, contudo não mantém vínculos institucionais. São considerados “desigrejados” ou “desinstitucionalizados”. Consideram as Igrejas desnecessárias para sua vivência religiosa. O que está acontecendo na relação dos jovens com suas tradições eclesiais ou religiosas? Alguns pontos podem ser indicados para explicar o que vem acontecendo com os jovens de mais acentuada nesse novo milênio.

A cultura brasileira vem sofrendo profundas mudanças nos tempos atuais, principalmente decorrentes da passagem de uma sociedade rural para uma urbana. O Brasil tem mais de 80% de sua população vivendo em meio urbano. O desenvolvimento dos mecanismos de informação, de educação e a diminuição do peso das tradições familiares estão na base dessa transformação. Na idade entre 16 e 24 anos, é natural os jovens buscarem outras experiências de vida, abrir novos caminhos, deixando de seguir a religião da família como era costume no meio católico tradicional.

A quebra da hegemonia católica no Brasil e o crescimento das Igrejas evangélicas contribuíram para essa liberdade. Sair da Igreja não representa mais um risco, um pecado, uma heresia. Buscar outras experiências de espiritualidade faz parte desse movimento. Os pesquisadores tem observado esse fenômeno conhecido como “trânsito religioso” há bastante tempo e o novo tipo experiência religiosa é conhecido como de “bricolagem” que é um processo de juntar pedacinhos de cada tradição ou igreja e ir formando seu próprio caminho religioso.

Em si mesmo, essa dinâmica de mudança e busca de novos horizontes pode contribuir para que o jovem faça uma escolha mais consciente de uma determinada Igreja. Ou pode continuar fora de qualquer instituição religiosa produzindo sua própria síntese religiosa e espiritual. Não nos parece que o caminho mais forte seja aquele dos jovens europeus que abriram as portas para uma secularização descartando qualquer adesão espiritual mesmo fora das instituições.

A mentalidade presente entre os jovens brasileiros é de abrir a mente para a pluralidade religiosa e cultural em vista do respeito por todas as tradições religiosas, podendo inclusive dispor-se a experiências espirituais novas e diferentes, construindo outro modelo de religiosidade.

Tem atraído muito a atenção dos jovens a emergência das religiões afro-brasileiras em consonância com as lutas antirracismo e, principalmente os jovens cujos ancestrais sejam negros, tendem a buscar uma certa identidade de cultura e de raça nessas religiões, participando de cultos nos terreiros e cultivando relações espirituais com os orixás. Esse movimento para outras tradições culturais e religiões é ampliado para os campos das tradições indígenas e orientais.

Merece atenção o clima de reação que vem acontecendo nas Igrejas cristãs contra determinadas lideranças religiosas. Cresce um tipo de organização religiosa sem templos e sem poder religioso sacerdotal, formando as “igrejas orgânicas” ou “igrejas nos lares”. Essa reação tem ocorrido de maneira forte entre os jovens que já são contestadores por natureza nessa fase da vida. Assim acabam entrando em conflito com padres, pastores, lideranças eclesiais, por questões morais, comportamentais (posturas antiéticas), adesão a alianças políticas em vista do poder e interesses pessoais, e o modo como muitas instituições são conduzidas de maneira autoritária e sem transparência. Trata-se de uma reação à instituição, à igreja, levando os jovens a buscarem outros caminhos.

A religião enquanto fato social e cultural, especialmente na perspectiva eclesial institucional, está deixando de ter preponderância na vida das pessoas. O uso político das Igrejas está provocando mudanças ainda mais profundas na sociedade brasileira, inclusive dividindo famílias, comunidades, grupos religiosos. Essas divisões na base social provocam rejeição no meio juvenil. É bom lembrar que no campo evangélico do século XIX, enquanto as potências europeias guerreavam pelos territórios de colonização na África e Ásia, foram os jovens das Igrejas de missão que partiram para uma nova forma de experiência religiosa de cunho espiritual, rezando todos juntos. Nascia naquele momento o movimento ecumênico no seio do Cristianismo.

As consequências da adoção de pautas ultraconservadoras, a liberação de armas, o autoritarismo político, as políticas antiecológicas e anticientíficas como o negacionismo são ainda piores entre os jovens. São pontos que não combinam com sua maneira de viver, de ser, de pensar. Pode até votar em algum candidato que traz essas propostas, mas com certeza o jovem não dará um passo para entrar na igrejinha desse candidato ou do líder religioso que o apoia. A juventude tem como característica o espírito de liberdade e possui muita informação vinda dos estudos e das redes de comunicação e sociais. Quando a religião adota esse viés ultraconservador, a tendência é a evasão dos jovens de suas fileiras.

Então podemos dizer que a religião é uma entre tantas outras demandas da cultura que está disponível para a vivência dos jovens. Ele pode tanto estar se divertindo num barzinho, numa casa de show, ou num encontro religioso sem controle de autoridade alguma. Festas do tipo gospel tem atraído muitos jovens. Ao contrário, celebração de missas, cultos diários, práticas religiosas tradicionais, geralmente levam à indiferença. Os jovens diziam por ocasião do I Sínodo da Arquidiocese de Vitória em relação a sua participação na Missa: “É um tal de senta, levanta, que ninguém entende”. Por isso, diziam que não frequentavam a Celebração da Eucaristia.

As famílias também sofreram os impactos do mundo urbano e, geralmente, tornaram-se ambiente de muita liberdade para as escolhas religiosas. Uma senhora me dizia no I Sínodo Arquidiocesano de Vitória que na família dela tinha de tudo: católico, evangélico, pentecostal, espírita, umbanda, indiferente. O jovem do meio urbano sente um clima de grande liberdade para fazer suas escolhas, inclusive a religiosa.

Um fator que precisa ser analisado como maior profundidade em suas consequências e se relaciona com de tantas promessas feitas pelas lideranças com tantas curas, tanta prosperidade, tanta solução de problemas sociais e psicológicos. Isso seria garantiria de aderência e fidelidade entre as pessoas atraindo os jovens? Não há pesquisa comprovando isso ainda, mas nota-se aqui e ali um clima de decepção com promessas não cumpridas, curas não consumadas, problemas apenas adiados. No meio católico a religiosidade do povo é muito respeitada, contudo do ponto de vista institucional e histórico, a comprovação de milagres é algo conduzido por muito cuidado pelo Magistério da Igreja. O movimento pentecostal parece ter inflacionado os números de cura e libertação, de milagres e prosperidade. Geralmente, os jovens olham para tanta promessa com certo ar de ceticismo. A pandemia deu um duro golpe nas promessas de cura sem responsabilidade.

Por fim, cabe ressaltar um pouco o futuro perfil dessa juventude que vai se constituindo fora das Instituições eclesiásticas. Não nos parece que seu destino seria o ateísmo ou o agnosticismo. Ao contrário, tudo está indicando que teremos um conjunto de jovens com uma dinâmica religiosa mais livre, mais fluida, podendo inclusive elaborar um verdadeiro e novo sincretismo religioso. Pode acreditar em Deus e Jesus Cristo sem ter que frequentar uma Igreja. Há jovens que não encontram nenhuma dificuldade em ter crenças cristãs e também nas entidades da Umbanda ou Candomblé. A crença em energias disseminadas pelo universo é bem típica e natural dessa juventude. Não nos parece adequada a prática eclesiástica de expurgar tudo o que não se enquadra nos limites da Igreja. O tiro pode sair pela culatra. A demonização das entidades da Umbanda e do Candomblé pouco ou nada repercute no meio juvenil.

Acrescentando outro dado das pesquisas do ciclo eleitoral 2022 do Instituto Datafolha e aguardando a realização do novo Censo Demográfico do IBGE, o declínio de católicos continua crescendo e chega hoje, em 2022, a 49% dos entrevistados. Mas esse declínio não tem como correspondência o crescimento do segmento evangélico. Há dez anos atrás os evangélicos compunham 22% da população e hoje representam 26%. As Igrejas pentecostais e neopentecostais deixaram de ser novidade e sua aproximação com o poder político não representou crescimento. As demandas dessas Igrejas são imediatas e não podem ficar esperando ou dependendo da vontade política dos governantes. Quando a igreja vira partido político a tendência no meio juvenil, principalmente, é seu abandono. Isso explica também o crescimento da população geral “sem religião”, os desigrejados. A população adulta também está em êxodo eclesiástico, abandonando suas comunidades e formando pequenas comunidades nas casas.

Esses são alguns pontos de análise para entendermos um pouco o êxodo dos jovens de suas respectivas Igrejas, com destaque para São Paulo e Rio de Janeiro onde o número desses jovens supera o percentual tanto na Igreja Católica como nas Igrejas Evangélicas. Ou seja, tem mais jovem entre 16 e 24 anos sem religião que jovens católicos e evangélicos que frequentam suas Igrejas.

Edebrande Cavalieri

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