NÃO É ESSE O JEJUM QUE EU AMO?

28 fevereiro, 2024

Em quase todas as religiões existe a prática do jejum que pode indicar um caminho de ascese espiritual, de purificação, luto, súplica, etc. Ele tem lugar de destaque nos ritos religiosos. No Islamismo, o jejum é um dos cinco pilares e representa o meio por excelência de reconhecimento da transcendência divina. Já o Budismo considera uma forma de purificação física e espiritual que facilita a prática da meditação e leva a estados de calma e maior sensibilidade.

Entre nós há mais práticas de abstinência na quaresma que de jejum, bastante incompreendido e desprezado. Volta e meia ele vira moda como fórmula para emagrecer ou recurso mágico para fazer acontecer determinada coisa.

A Bíblia Sagrada nos mostra uma concepção clara regulamentando o jejum junto com a esmola, devendo traduzir os atos essenciais diante de Deus que são a humildade, a esperança e o amor do homem.

Percorrendo os textos sagrados vemos que o jejum não é uma façanha ascética, nem obtenção de estado de exaltação psicológica ou religiosa. Ele serve para expressar a humildade diante de Deus. A privação de um alimento precisa ser compreendida adequadamente, assim como a abstenção de relações conjugais. Em qualquer situação de jejum o que importa é a abertura para a luz divina, a espera da graça e a preparação para o encontro com Deus. Portanto, trata-se de se colocar em atitude de fé de maneira humilde para aceitar a vontade de Deus e de se pôr em sua presença.

Jesus Cristo enfrentou por diversas vezes a prática do jejum feito pelos judeus que o aprisionavam num formalismo estéril já denunciado pelos profetas, como a prática de jejuar de maneira orgulhosa e para ostentar uma santidade de fachada. O verdadeiro jejum pregado por Jesus Cristo e pelos profetas (cf. Is 58) deve estar acompanhado do amor ao próximo, da busca da verdadeira justiça, sempre acompanhado da esmola e da oração. Trata-se de um jejum que nos abre o coração para a justiça interior, feito de maneira humilde e que seja pura esperança em Deus.

O Papa Francisco nos lembra que o jejum deveria seguir o exemplo do Bom Samaritano, marcado pelo valor num estilo de vida sóbrio e uma vida que não desperdiça, que não descarta. Não se trata apenas de escolhas alimentares, mas de estilo de vida marcado pela humildade e coerência reconhecendo os próprios pecados, os próprios erros. “Curvar a cabeça como uma cana”, ou seja, humilhar-se, pensar nos próprios erros e pecados. “O jejum não é uma simples renúncia, mas um gesto forte para lembrar ao nosso coração o que importa e o que passa”.

Segundo o Papa Bento XVI, ao nos privarmos de algo que em si seria bom e útil para o nosso sustento deveríamos abrir-nos o coração a fim de evitarmos o pecado e tudo o que leva a ele. Desta forma, o jejum se mostra como um meio e não um fim que nos é oferecido para que renovemos nossa amizade com o Senhor. Ele deve nos levar ao verdadeiro alimento que é fazer a vontade do Pai.

O Papa João Paulo II nos diz que o jejum representa uma realidade complexa e profunda e não é uma simples abstinência alimentar ou material. “É um símbolo, um sinal, um chamado sério e estimulante para aceitar ou fazer sacrifícios. Quais renúncias? Renúncia ao ‘eu’, a tantos caprichos ou aspirações doentias; renúncia aos próprios defeitos, às paixões impetuosas, aos desejos ilícitos”. E completa sua catequese dizendo que o jejum significa privar-se de algo “para responder à necessidade do irmão, tornando-se um exercício de bondade, de caridade”.

Tomando como referência o texto sagrado do profeta Isaías, o Papa Paulo VI nos convida assim ao jejum: “não é este o jejum que eu prefiro? (…) Repartir o teu pão com o faminto, acolher em sua casa o pobre sem abrigo, ver alguém nu e vesti-lo e não se afastar daquele que é a sua própria carne”. Dessa forma, o jejum deveria servir para que cada um realmente participe dos sofrimentos e misérias de todos. Seguindo a mesma linha, o Papa João XXIII nos diz que o jejum é um sério compromisso de amor e generosidade para o bem dos irmãos à luz do antigo ensinamento dos profetas.

Neste tempo quaresmal a Igreja nos convida para inserir o nosso jejum no contexto da Amizade Social e por este motivo ele aponta para sermos mais solidários e fraternos com os nossos irmãos e irmãs necessitados. Serve desse modo como crítica à nossa sociedade de consumo e de produção de descartáveis e nos conduz ao que é essencial.

Edebrande Cavalieri

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