NÃO SE EVANGELIZA DE BARRIGA VAZIA

24 fevereiro, 2023

Estamos iniciando não apenas o tempo da quaresma, momento muito forte da liturgia cristã, e também uma nova Campanha da Fraternidade que traz a temática da fome novamente. Para refletir um pouco mais a respeito disso, trouxe como título a frase acima proferida por Dom Luiz Fernando Lisboa, Bispo de Cachoeiro de Itapemirim. Ele era Bispo da Diocese de Pemba em Moçambique (África) quando o Papa Francisco o transferiu para perto de nós. Ele vivia numa região muito rica em recursos naturais como gás, petróleo, rubis, ouro, pedras preciosas, grafite, mármore e madeira. Contudo, essa mesma terra é explorada de diversas formas e a guerra sempre tem como raiz a questão econômica, e aumenta assim ainda mais a fome e a miséria.

Todos sabemos que o primeiro trabalho da Igreja é evangelizar, ele nos diz, mas como estão as barrigas das pessoas que recebem a Boa Nova? O Evangelho de Jesus Cristo não combina com a fome, com a pobreza. De nada servirão tantos jejuns na quaresma se ao nosso lado o nosso irmão passa fome. Pessoas que se dizem super zelosas da fé ficaram indignadas com a representação do demônio no desfile de carnaval no Rio de Janeiro, porém não conseguem indignar-se pela fome presente em seu dia a dia. Isso se chama hipocrisia e não fé.

Acaba de ser publicada uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre “As múltiplas Dimensões da Pobreza na Infância e na Adolescência no Brasil”. O quadro social é estarrecedor. São 32 milhões de meninos e meninas no Brasil, ou seja, 63% do total de crianças e adolescentes submetidas a uma situação de pobreza que compreende diversas dimensões como renda, alimentação, educação, trabalho infantil, moradia, água, saneamento e informação. São pessoas que possuem no máximo 17 anos de vida. Que futuro terão?

Quem são as crianças e adolescentes mais atingidos, que sofrem maiores impactos?  São aqueles que estão em situação mais vulnerável como negros e indígenas e moradores das regiões norte e nordeste. Nessas regiões os índices chegam a 72,5% como pobreza multidimensional.

Estamos diante de uma nova abordagem da pobreza que inclui a fome. Há interação entre privações e exclusões e isso mostra os grandes desafios estruturais como as desigualdades regionais, raciais e de gênero que impactam profundamente a sociedade brasileira. Dois fatores levaram ao maior agravamento dessa situação: a pandemia e ausência de políticas públicas relativas à geração de renda, à alimentação e à educação nos últimos anos.

Com essa situação tão grave recaindo sobre nossas crianças e adolescentes, que perspectiva de futuro elas terão? Que país será o Brasil daqui a alguns anos com o crescimento das desigualdades sociais revestidas de desigualdades regionais, de raças e de gênero?

Ouvimos alguns católicos em todas as quaresmas pedindo o direito a jejuar e fazer penitências conforme se fazia antigamente. Até pedem à Igreja que lhes devolva a quaresma, pois segundo eles, foi tomada por temas não pertinentes a sua espiritualidade. A essas pessoas podemos trazer o texto bíblico de Isaias 58. Que jejum é agradável a Deus?

O texto sagrado vai relacionando outras formas de jejum que agradam mais a Deus. É preciso que se soltem as ligaduras da impiedade, desfaçam as ataduras do jugo, deixem livres os oprimidos, que repartam o pão com o faminto, que recolham em casa os pobres abandonados, que cubram os homens nus. Deus deseja que cada cristão abra a sua alma ao faminto, que sacie a alma aflita. Na fome e na pobreza de nada adiantarão tantos jejuns. O ato de jejuar na quaresma deveria representar uma luz nas trevas da iniquidade.

O mundo queima em maldades e de suas brasas incandescentes nada para cozinhar e alimentar, apenas a morte. Crianças com fome, crianças morrendo, futuro destruído. Sobram as cinzas e a fuligem, resultados da ganância e concentração. A quaresma começou com a quarta-feira de cinzas; outras cinzas que representam a conversão, a humildade em reconhecer os próprios pecados. O jejum sem a prática da justiça pouco vale aos olhos de Deus. Evangelização desvinculada da prática da justiça, da ação saciadora da fome, é incompatível com o Evangelho de Jesus Cristo. “Não se evangeliza de barriga vazia”!

Edebrande Cavalieri

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