O rosto jovem da fé

23 junho, 2021

Edebrande Cavalieri

Continuando a refletir sobre alguns temas que são objetos da escuta da Igreja para a I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, queremos olhar o rosto dos nossos jovens. Trata-se de uma realidade tão importante que fez o Papa Bento XVI dizer por ocasião de quando veio ao Brasil que “sem o rosto jovem a Igreja se apresentaria desfigurada”. Ele disse isso no discurso que fez no encontro do Pacaembu, em São Paulo em maio de 2007. E completava ainda mais esse pensamento: “Vós, jovens, não sois apenas o futuro da Igreja e da humanidade, como uma espécie de fuga do presente. Pelo contrário: vós sois o presente jovem da Igreja e da humanidade. Sois seu rosto jovem”.

O Papa Francisco no encontro com os jovens do mundo inteiro nos chamou a atenção para o fato de que tantas vezes estamos falando com os jovens sem perguntar a eles o que estão pensando. E nos aponta a saída missionária: “A Igreja deve ousar caminhos novos, mesmo se envolver riscos. Devemos nos arriscar, porque o amor sabe como correr riscos. Sem arriscar, sabem o que acontece a um jovem? Envelhece. E também a Igreja envelhece”. Então um rosto de um jovem que não encara os riscos de abrir caminhos torna a Igreja envelhecida. O que se apresenta a eles como desafios?

Então precisamos olhar os jovens da América Latina e Caribe, escutá-los, ir ao encontro deles, perder tempo com eles, entender o que eles pensam, saber de seus sonhos e de suas lutas. Não há outro caminho. Novamente o Papa Francisco nos questiona: “Como é o meu olhar? Vejo com os olhos atentos ou como faço ao repassar rapidamente as milhares de fotografias no meu celular ou os perfis sociais?”

Em preparação para o I Sínodo Arquidiocesano de Vitória ocorrido entre 2006-2009, foi realizada uma pesquisa conduzida de maneira científica com questionário e grupos de discussão com os jovens. Naquele momento foi possível sentir um pouco suas angústias diante da dificuldade dos adultos em ouvir esses jovens. Ele nos diziam, por exemplo, que não entendiam o que acontecia no rito litúrgico da Celebração da Eucaristia. E nos perguntavam: por que tantos movimentos de “senta e levanta”?

O tema da juventude aparece e se destaca no Documento para o caminho da I Assembleia Eclesial. No Sínodo para a região amazônica foi possível ver que entre os diversos perfis da Igreja estão os rostos jovens, com identidade indígena, afrodescendente, ribeirinho, extrativista, migrante, refugiado, jovens rurais, jovens urbanos, que sonham e buscam melhores condições de vida. São jovens estudantes e trabalhadores que convivem com tristes realidades como a pobreza, a violência, a doença, o abuso, a exploração sexual, o uso e tráfico de drogas, e até o aumento de suicídios. Muitos tem a vida ceifada antes dos trinta anos e outros vivem nos sistemas prisionais, verdadeiras escolas para o crime.

A juventude sempre foi apresentada como a idade dos sonhos e da esperança, mas esse cenário está mudando. Como a Igreja poderia acompanhar esse rosto tão forte e presente em nossa sociedade e na própria Igreja? O Sínodo da Amazônia reconhece o “lugar teológico” dos jovens, verdadeiros “profetas da esperança”. Contudo, eles vivem uma realidade que precisa ser transformada. Que mundo estamos deixando para nossos filhos jovens?

Conforme a Lei 12.852/2013 que criou o Estatuto da Juventude e definiu sua Política Nacional considera-se jovem toda pessoa entre 15 e 29 anos. É bom não confundir com adolescente que se refere ao intervalo de 12 a 18 anos. Em termos de política para a juventude é consenso entre todas as esferas de poder e das organizações sociais que esse setor requer um urgente investimento econômico, educacional, cultural, político e social. Estamos diante de uma realidade tratada coletivamente, mas com alto grau de diversidade com inúmeras determinações sociais. A diversidade de rostos jovens é cada dia maior.

O primeiro desafio está na promoção humana e defesa dos direitos dos mesmos, especialmente aqueles que vivem em maior grau a vulnerabilidade social como a violência. A pandemia agravou ainda mais a precariedade da vida que vivem com um futuro incerto, sem possibilidade de continuar os estudos e uma grande maioria vivendo desempregado. Conforme o Atlas das Juventudes publicado pela FGV Social 47% dos jovens brasileiros consideram seriamente a possibilidade de sair do Brasil não para fazer intercâmbio, ou estudar MBA ou cursar pós-graduação stricto sensu, mas para arrumar sua vida profissional encontrando trabalho e renda.

Temos uma população jovem bem grande, porém salta aos olhos vê-la sem perspectiva de trabalho e insatisfeita. Ninguém desejaria sair do país nessas condições de ausência de horizonte satisfatório de vida profissional. Trata-se de um grande potencial para o mercado de trabalho que poderá ser desperdiçado no Brasil em vista do crescimento e da produtividade, sem contar o êxodo de cérebros que irão agigantar a pesquisa em outros centros promissores. É mais certo que o Brasil precisaria crescer antes de envelhecer.

Segundo dados do IBGE/2007, o Brasil possui 50,2 milhões de jovens, ou seja, 26,4% da população. Desses, 14 milhões vivem em famílias com meio salário mínimo per capita. Apenas 13% desses 50 milhões de jovens estão em curso superior. O quadro acima fica mais cruel ao se constatar que 70% dos jovens pobres são negros, que convivem com altos índices de contaminados com HIV, gravidez não planejada, uso de drogas ilícitas e envolvimento no crime. O quadro fica ainda mais sombrio quando, em pesquisa realizada pelo IBGE sobre a população “nem-nem” (nem trabalha, nem estuda), se percebe um crescimento nos últimos anos chegando a quase 26% dos jovens sem trabalho e sem estudo.

Poderíamos ampliar esse quadro da realidade jovem, mas queremos deixar que cada comunidade, cada grupo, cada paróquia, faça essa escuta em vista da I Assembleia Eclesial. É preciso levar muito a sério as palavras iniciais expostas acima dos Papa Bento XVI e Francisco e olhar para a fé dos jovens para que se possa potencializar o papel dos mesmos na Igreja, envolvendo-os cada vez mais e nos aproximando de sua vida cotidiana. É triste verificar em muitas reuniões eclesiais a quase ausência total do rosto dos jovens.

É preciso tornar presente cada vez mais o rosto dos jovens na Igreja para manter viva a mística de tantos empobrecidos no continente latino-americano. Com a juventude e sua linguagem criativa, crítica, com beleza, arte, poesia, expressão corporal pode-se encontrar o melhor caminho para nos aproximarmos da experiência do povo de Deus que sofreu, mas chegou à Terra Prometida e para experienciar a vida do povo cristão, martirizado e testemunha da fé.

Muitos se perguntam por que tantos jovens abandonam a Igreja. É preciso que nos perguntemos por que poucos jovens frequentam semanalmente a missa e mais de um terço não está filiado a nenhuma religião. Algumas pesquisas mostram que muitos jovens acham que os cristãos demonizam tudo o que não tem a ver com a Igreja, especialmente filmes, músicas, videogames, e diversões em geral. Outros declaram que as Igrejas ignoram os problemas do mundo concreto.

O terreno de fé para os jovens não é tão tranquilo como muitos acham. As pesquisas apontam que determinadas posições das Igrejas se chocam com a realidade dos jovens. Muitas vezes encontram contradições entre o que estudam nas cadeiras escolares em relação à ciência e o que se ouve em alguns lugares eclesiais como os pré-julgamentos fáceis e rápidos sobre as questões de sexo e sexualidade, o julgamento severo sobre seus erros, as formas de ensino a respeito do sexo e da sexualidade, o fechamento de algumas lideranças religiosas para outras experiências espirituais, e por fim, a falta de acolhimento em suas dúvidas sobre a fé. Isso causa profundo impacto na vivência da fé desses jovens. Em geral, os jovens vão se afastando de posturas de alguns que acham conhecer toda a doutrina, todas as leis canônicas, e se postam como juízes e condutores do “bom caminho”.

Em preparação para o Sínodo dos Bispos em 2018, que tinha por tema “os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, o Papa Francisco dizia que “através dos jovens, a Igreja poderá ouvir a voz do Senhor que ressoa inclusive nos dias de hoje”. Assim, na I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe a escuta dos jovens com suas dúvidas, sua vida mais secularizada que religiosa, que reagem às formas tradicionais de educar da fé, seu senso de vida ética que parece mais forte que o senso religioso, podem servir como caminho para ouvir a voz do Senhor. É através dos sofrimentos e angústias do povo que o Senhor manifesta o caminho a ser construído. Estrada pré-determinada, construída em outros tempos para outras realidades, nem sempre vai dar em verdes pastagens.

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