O TRIUNFO DA RELIGIÃO

21 fevereiro, 2024

O Carnaval desse ano de 2024 mostrou uma nova face celebrativa da festa considerada profana e banida de muitos segmentos religiosos. Alguns desses segmentos acabaram rompendo a barreira do interdito e começaram a transformar a festa pagã em ambiente de pregação religiosa. A pop-pastora Baby do Brasil pertencente a uma igreja neopentecostal foi logo avisando sobre um “arrebatamento” que deverá acontecer entre 5 e 10 anos.

Ela talvez desconheça que essa mesma previsão fora feita em 1970 por Hal Lindsey que disse que “em quarenta anos desde 1948 quando foi formado o Estado de Israel seria o início da última ‘geração’”. Portanto, o arrebatamento deveria ter acontecido em 1981 ou 1982. Outra artista neopentecostal, Cláudia Leite, já está mudando letras de músicas que a tornaram conhecida no ambiente musical de “Axé Music”. Assim, em vez de falar em Iemanjá na música “Caranguejo” clama “Yoshua”, que é o nome para Jesus em hebraico.

Não queremos entrar na polêmica da reação conduzida por outra artista muito conhecida, Ivete Sangalo que disse que não ia deixar acontecer o apocalipse, mas tentar refletir um pouco sobre a função da religião no meio das sociedades, das culturas. Por que estamos vendo o ambiente público sendo tomado por pregadores religiosos? Seria um processo de conversão da cultura secularista ou laica para uma determinada fé? Que riscos há para a sociedade essa mudança religiosa e cultural, especialmente para o Brasil? São complexas essas questões.  Vale refletir sobre os riscos desse domínio para a vida democrática.

Recordando um pouco a história de séculos passados, podíamos lembrar das Cruzadas organizadas por Papas e Príncipes medievais europeus para combater os mouros nas regiões do oriente especialmente nos lugares santos onde Jesus andou. Até uma Cruzada com 60 mil crianças foi organizada em navios e levadas para a guerra santa, ou carnificina infantil. Todas elas foram trucidadas pelos mouros. Vemos nesse fato como a religião pode ser corrompida ou instrumentalizada por interesses políticos e bélicos.

Também é bom recordar as guerras de religião que aconteceram com a Reforma Protestante. Como foi difícil conquistar a paz em meio às guerras entre católicos e calvinistas! Teve guerra que durou 30 anos e ceifou oito milhões de vidas. Como não lembrar da Noite de São Bartolomeu na França conduzida pelos reis católicos que massacraram milhares de protestantes? O mundo moderno surgiu em pé de guerra, tanto no velho como no novo mundo onde indígenas e negros eram obrigados a serem batizados compulsoriamente.

Foi muito noticiado na década de 1970 o suicídio coletivo de um grupo de seguidores do Templo do Povo dirigido por Jim Jones. Esse líder transformou 900 seguidores em religiosos fanáticos que idolatravam seu guru. Em 1978, ele mesmo determinou a “noite branca final” para acabar com aquela agonia levando todos os seus seguidores à morte ingerindo um refresco adulterado com cianeto. Ao longo da história podemos encontrar grande quantidade de fatos mostrando como a religião pode ser instrumentalizada por diversos interesses, ideologias e loucuras de líderes sem escrúpulos.

A Revolução Francesa de 1789 teve um papel muito importante nesse contexto de que estamos falando. Ela incorporou a filosofia iluminista na política e passou a organizar o Estado nos princípios da laicidade, reduzindo os bens eclesiásticos e seus poderes na ordem social, suprimindo privilégios políticos do clero e promulgando a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Nessa declaração, o artigo 10 diz que “Ninguém deve ser molestado por suas opiniões, mesmo religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida por lei”. Temos a partir daí a secularização da cultura e da laicidade do Estado, a liberdade de crença e a prevalência do Estado sobre a religião no que se refere à ordem pública. Cabe à religião o domínio na ordem interna das consciências.

Alguns teóricos acharam que a religião estaria com os dias contados. O positivismo de August Comte dizia que o modelo tradicional de religião estaria superado pelo advento da ciência e que apenas o positivismo seria a “religião da humanidade”. Contudo, isso não aconteceu. O domínio da ciência não foi suficiente para pôr fim ao domínio religioso. A virada do milênio entre nós parece que impulsionou a força religiosa para além dos limites ideológicos e jurídicos preconizados pela modernidade. Vemos a cada dia o uso e a instrumentalização da religião por parte das forças políticas. Parte da sociedade acredita fielmente que é preciso que haja um governante que represente a vontade de Deus entre nós. O Salmo 33, 12 passou a ser palavra de ordem na esfera política: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”.

É inegável o domínio e fascínio que a religião exerce na consciência e na vida das pessoas. É muito significativa a contribuição teórica do psicanalista francês Jacques Lacan que dizia que “A religião não triunfará apenas sobre a psicanálise, triunfará sobre outras coisas. É inclusive impossível imaginar quão poderosa é a religião” (O triunfo da religião). Ela é inquebrantável. Portanto, parece-nos que a luta pela eliminação da religião como desejava a filosofia positivista é tarefa inglória.

Por fim, o discurso religioso dificilmente sobrevive sem o espaço sagrado conhecido como “igreja”. A elevação de qualquer pessoa ao grau de líder religioso por uma igreja existente ou criada por ela mesma é uma das tarefas mais fáceis na sociedade atual. O pentecostalismo e o neopentecostalismo romperam a barreira dos longos anos de estudos de teologia para alguém se tornar pastor como as Igrejas históricas faziam para formar seus quadros para a pastoral. Com isso, torna-se fácil alguém tomar um texto da Bíblia e tecer uma interpretação fundamentalista de acordo com seus interesses ideológicos.

As mudanças culturais por que passa o Brasil nos levam à necessidade de repensar o lugar da religião em nossa sociedade. Nota-se um efeito venenoso da infiltração da religião na política brasileira pondo em risco os ideiais democráticos. Qualquer pessoa pode fundar sua própria igreja e sair pregando conforme seus interesses e esse parece ser o caminho mais fácil para alguém ser eleito em algum cargo político. Incorporam esses candidatos um discurso fundamentalista, conservador, moralista e através de um forte proselitismo religioso transforma os altares em palanques eleitorais. Se na República Velha do Brasil havia os coronéis atrelados às oligarquias econômicas, hoje vemos se desenvolver outro tipo de coronelismo, agora atrelado às oligarquias religiosas. Esse nos parece ser o maior risco para a vida democrática brasileira.

Essa não é a função da religião. Em qualquer sociedade, a religião deveria cumprir além da dimensão espiritual inerente à sua constituição, a função ética. Não cabe a nenhuma igreja ou religião num ambiente democrático impor seus padrões morais, doutrinários ou ideológicos a todas as pessoas de um determinado país. Ao Estado caberia tão somente zelar pela ordem pública, garantido o direito de todos, a justiça para todos, o bem comum, jamais deveria se intrometer na ordem religiosa.

Edebrande Cavalieri

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