PLURALIDADE RELIGIOSA EM CURSO

7 fevereiro, 2024

O Brasil tem mais templos ou estabelecimentos religiosos que a soma das instituições de ensino e unidades de saúde; foi o que divulgou o IBGE no senso de 2022 nesse início de ano. Será que o nosso país tem mais necessidade da fé que de educação e saúde? Os números parecem confirmar isso. Contudo, o dia a dia do brasileiro parece mostrar uma realidade bem diferente como vimos durante a pandemia da covid-19. Também poderíamos nos perguntar sobre os impactos de tantas expressões religiosas na história concreta de nosso país.

Conforme pesquisa do IPEA realizada em 2021, 70% dos templos ou estabelecimentos religiosos estão no segmento das Igrejas evangélicas, 11% desses templos são católicos e 19% são de outras denominações religiosas. As pesquisas também apontam que há um declínio das filiações católicas, aumento das filiações evangélicas e aumento também do número de pessoas que se declaram “sem religião”, que também são chamados de “desigrejados”.

Olhando o mapa do Brasil, podemos perceber os Estados do Sul e Sudeste com exceção do Espírito Santo são os que possuem menos templos ou estabelecimentos religiosos, enquanto os Estados do Norte do país são os que mais construíram espaços religiosos. Essa realidade tenderia a mostrar um país mais secularizado no sul e sudeste?

Os dados do IBGE a respeito do número de templos religiosos demonstram como tem ocorrido de maneira rápida a transição religiosa, pois são esses espaços construídos com finalidades da fé que irão fidelizar os fiéis. O Brasil está caminhando a passos largos para uma cultura evangélica e pentecostal. Certos discursos religiosos presentes nas homilias de vários líderes católicos bem como algumas práticas pastorais estão mais na linha da perspectiva evangélico-pentecostal que da identidade católica. Até mesmo elementos estéticos evangélicos e formas discursivas estão sendo assimilados por lideranças católicas. Que consequências teremos com essa mudança na cultura brasileira?

O que aconteceu com o Brasil para que isso ocorresse em pouco tempo? Será que apenas o empenho missionário das Igrejas evangélicas explicaria esse fenômeno? Parece-nos que outros fatores precisam ser considerados.

Essa transição está ligada às transformações econômicas do país, que vai deixando para trás uma estrutura primário-exportador, com agricultura de subsistência, e aumento do êxodo rural formando as grandes periferias urbanas. É nas grandes periferias urbanas assim formadas de maneira desordenada que as Igrejas evangélicas de cunho pentecostal e neopentecostal atuarão na construção de pequenos templos, colocando sempre a sua frente um pastor. Pode-se até questionar por sua formação teológica, contudo a figura dele na porta da Igreja recebendo os fiéis desalojados do campo configura um acolhimento muito importante para essas pessoas.

A Igreja católica que não consegue acompanhar o crescimento urbano e fazer o mesmo colocando um padre à frente de cada comunidade. Vimos recentemente que há um declínio do número de pessoas ordenadas no mundo inteiro, bem como a diminuição de seminaristas que se preparam para a ordenação presbiteral. A ordenação de diáconos tem crescido e contribuído muito nas comunidades para uma pastoral do acolhimento. Contudo, a criação de Comunidades Eclesiais de Base nem se compara em termos de crescimento como nas comunidades evangélicas.

A história brasileira presencia assim uma mudança em sua cultura que foi preservada ao longo de quatro séculos. O catolicismo português dominado pelo Padroado de 1500 a 1889 era marcado por práticas, crenças, rituais e ensinamentos que tinham boa receptividade junto à população no contexto de um país pobre, rural, tradicional, com baixas taxas de escolaridade e baixa mobilidade social. Das décadas finais do século XX até hoje temos um país que foi alterando essa estrutura social e educacional, essa cultura. As grandes devoções ainda resistem fortemente, de maneira especial as devoções marianas. Contudo, no dia a dia urbano o que tem crescido é o número de pessoas frequentando os cultos evangélicos.

Se no passado tivemos no Brasil uma forte cristandade que transformava toda a sociedade em povo católico, agora abre-se no horizonte a possibilidade de se ter uma cristandade evangélico-pentecostal. Essa será a grande transição cultural possível de acontecer no país. O ingresso dessas Igrejas elegendo candidatos aos vários cargos contribuiu muito para essa transformação.  É preciso que aguardemos as próximas duas décadas para vermos melhor como essa cultura irá se comportar.

Ao mesmo tempo temos no horizonte o crescimento das pessoas que estão rompendo os vínculos institucionais, formando o segmento “sem religião” ou desigrejados. Estaria aqui o germe crescente da secularização que tomou conta do território europeu? As regiões sul e sudeste, mais desenvolvidas, nos mostram que esse cenário é possível. O desencanto com muitas lideranças religiosas pode contribuir com o fortalecimento da secularização. Então teremos igrejas vazias de fiéis e cheias de turistas.

Por fim, cabe registrar o grande esforço do Papa Francisco resgatando a Igreja que despontou no Concílio Vaticano II e chega nesse momento com o desenvolvimento de uma perspectiva eclesiológica da mais alta importância, a sinodalidade. Infelizmente, muitas lideranças católicas parecem não entender a importância do novo “avivamento” (aggiornamento) promovido pelo Concílio e preferem refugiar-se nas práticas pré-conciliares. Alguns líderes partem sozinhos como se fossem salvar a Barca de Pedro. Sem um caminhar juntos, a Igreja no Brasil terá muitas dificuldades para dialogar com essa nova cultura sem perder a identidade católica. A sinodalidade requer um caminhar junto nessa pluralidade religiosa. Este é o sinal dos tempos em meio a tantas mudanças para o fortalecimento da fé. Juntos, TODOS, TODOS, TODOS, nos aponta o Papa Francisco.

Edebrande Cavalieri

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