Tempo de jejum para uma santa Quaresma

A Quaresma chega e junto nos encontramos com umas das práticas mais antigas presentes tanto no judaísmo como no cristianismo, e também em outras religiões. Trata-se da prática do jejum. Conhecemos a história descrita pelos evangelistas Mateus, Marcos e Lucas relatando o jejum de 40 dias e noites de Jesus no deserto da Judeia e as tentações sofridas. Esse tempo precedeu o seu ministério, a sua pregação.

No Antigo Testamento temos diversas passagens que relatam práticas do jejum. Esdras nos fala de pessoas que viajavam para Jerusalém e jejuavam em vista de obter ajuda de Javé. O profeta Joel nos descreve uma norma dada por Deus para que o povo se voltasse de todo o coração, com jejum, choro e lamento. Em Levítico Deus dá uma ordem a Israel que incluía o jejum no dia da expiação e isso deveria servir para que o povo não se esquecesse de sua imperfeição. O Novo Testamento chama-nos a atenção da prática do jejum de Paulo e Barnabé antes da escolha de seus ministros anciãos, para que o escolhido de fato representasse a vontade de Deus. Vemos até aqui como o jejum tem diversos significados e finalidades.

Mas onde encontramos uma ampliação do sentido do jejum é no profeta Isaias, no capítulo 58. Em questão estava o motivo do jejum, ou seja, “por que jejuamos?” O texto bíblico alerta que o povo ao jejuar está “fazendo o que é do agrado de si mesmos e exploram os seus empregados”. A prática de jejum criticada pelo Profeta está na forma de jejuar pois a pessoa espera que seja vista e ouvida. Ou seja, trata-se de um jejum hipócrita, só para se mostrar. E diz claramente: “O jejum que desejo é soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo”. E mais ainda: “é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou e não recusar ajuda ao próximo”.

Inserindo um parênteses aqui, é nesse sentido que a Igreja Católica apresenta nesse período quaresmal as diversas Campanhas da Fraternidade. É um movimento de caridade, de solidariedade, de justiça. É preciso estarmos muito atentos a essa dimensão social da fé, entranhada nos textos bíblicos já no Antigo Testamento.

Com essa pequena fundamentação bíblica já é possível ter claro que celebrar uma santa quaresma, como tantos andam falando por aí achando que a Campanha da Fraternidade estaria desvirtuando o propósito da mesma, implica um tempo de penitência, de jejum, de oração e conversão. Não há outro caminho melhor para se preparar para a Páscoa. Os diversos tipos e práticas de espiritualismos sem processos de conversão pessoal e comunitária são muitas vezes sem sentido e com pouca expressão de fé. Há inclusive algumas práticas como a autoflagelação que devem ser deixadas no passado histórico e não ressuscitar como se fossem práticas miraculosas de conversão e fé.

A Igreja conduzida pelo Papa Francisco convoca os cristãos católicos para um tempo de conversão e exorta a evitarmos um jejum fingido. Ele nos orienta que “se não puder fazer um jejum total, que faz sentir fome até os ossos, faça um jejum humilde, mas verdadeiro”. Além do mais, todo esse tempo já está sob a luz da Ressurreição. Uma quaresma sem esse foco deixa o fiel perdido em sua fé, confundida muitas vezes com elementos culturais agregados pela história. O olhar para o Jesus morto não pode estar dissociado do olhar para o Jesus ressuscitado.

Assim, o jejum que se apresenta como privação deve sempre levar as pessoas à redescoberta do dom de Deus para a salvação da humanidade. Então o jejum implica em fazer-se pobre com os pobres, que são privados cotidianamente de sua alimentação. O ato de jejuar deve libertar-nos de tudo o que nos aprisiona no mundo. Para os dias atuais o jejum deve nos libertar do aprisionamento das informações já saturadas, muitas vezes falsas, mentirosas e prejudiciais até mesmo dentro da Igreja. Também o consumismo nos aprisiona; um jejum sem mexer nessa prática pouco vale. E o Papa nos diz que é preciso que o nosso jejum abra as portas de nosso coração para Aquele que vem a nós pobre de tudo, mas cheio de graça. E completa: “A caridade se alegra ao ver o outro crescer; e de igual modo sofre quando o encontra na angústia: sozinho, doente, sem abrigo, desprezado, necessidade”.

Por fim, é através do amor social que faremos avançar a civilização do amor. A caridade em seu dinamismo universal poderá construir um mundo novo. Segundo o Papa Francisco, viver uma quaresma de santidade é viver uma quaresma de caridade que “significa cuidar de quem se encontra em condições de sofrimento, abandono ou angústia por causa da pandemia da Covid-19”. Nessa incerteza toda, inclusive até com respeito às vacinas e as novas mutações do vírus, o cristão está convocado para uma obra de caridade, com uma palavra de confiança. O cristão que não contribui com isso, negando inclusive as propostas de cura advindas da ciência e da medicina, não estará fazendo uma santa quaresma.

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