30 ANOS COM JOÃO PAULO II E FRANCISCO

19 outubro, 2021

Edebrande Cavalieri        |      

O Espírito Santo foi agraciado com a visita do Papa João Paulo II, hoje santificado pela Igreja, em 1991 com uma visita memorável e muito significativa ao bairro São Pedro, conhecido através do documentário do jornalista Amilton de Almeida, como “lugar de toda pobreza” e uma grande celebração no Aterro da Conduza, hoje Praça do Papa.

A região de São Pedro era um grande terreno de mangue para onde praticamente todo o lixo produzido na cidade de Vitória era levado e em torno dele animais e humanos se aglomeravam para encontrar meios de sobrevivência. Ali ocorreu uma celebração que marcou profundamente a sociedade capixaba. Vendo as fotografias publicadas nos jornais daquela época ficamos impressionados com os semblantes das pessoas que se juntavam para ver o Papa.

Vivíamos um tempo de forte êxodo rural e crescimento desordenado da capital, fazendo explodir qualquer planejamento urbano, sanitário e habitacional. E foi nesse lugar que a Igreja escolheu para uma visita, tendo o Papa proferido um emocionante discurso e doado a quantia de 100 mil dólares que foram empregados na construção do Centro de Formação, conhecido pelo nome de João Paulo II, da paróquia daquela região. Talvez algumas pessoas não achassem adequada essa escolha. Medo de sujar a batina branca do Santo Padre?

Ali diante daquele povo sofrido, com fome, ouviu um coral com cinquenta crianças e seu olhar para toda aquela realidade era de profundo sentimento cristão. Parecia até que ia chorar. O Papa João Paulo II sentia ali diante daquela pobreza o que produz a injustiça social, e por isso, sempre foi um gladiador na defesa desse bem tão essencial para a vida humana. Naquele dia ele dizia que “São Pedro é um lugar de muita fé”. Não estava contestando o documentário “lugar de toda pobreza”, mas enfatizando que no meio dos pobres havia muita fé e ali era preciso que a Igreja se fizesse presente.

A década de 90 representava um momento de muitas expectativas na sociedade brasileira como um todo. Quando o Papa pisou em solo capixaba estávamos implementando a Constituição democrática promulgada em 1988. Caminhávamos de maneira confiante no processo de redemocratização da sociedade. Era uma Constituição cidadã, que inovava muito ao legislar sobre os direitos fundamentais.

A Igreja Católica desempenha no Brasil um importante papel na vida social, política e cultural do país como um todo. Para nós a vinda do Papa João Paulo II representava uma força em prol de dois pilares da sociedade: a justiça social e a paz. As divergências internas não extrapolavam o campo da lealdade e da fidelidade ao Papa. Era desejo de todos ter uma Igreja defensora, de maneira irrestrita, da justiça social e promotora da paz.

Assim naquele ambiente degradado de São Pedro, as Comunidades Eclesiais de Base expressavam uma Igreja que nascia do povo pelo Espírito de Deus, já dizia Dom Luiz G. Fernandes, quando bispo auxiliar de Vitória, em 1974.

Era o tempo do caminho pós-conciliar do Aggiornamento que estava de vento em popa. Sabia-se que havia muitos desafios pela frente, mas a confiança era tamanha que jamais imaginaríamos algum torpedeamento que alterasse os rumos da Igreja do Vaticano II.

Em 1998 na mensagem pelo dia mundial da paz, intitulada “Da justiça de cada um nasce a paz para todos”, o Papa João Paulo II abria sua fala dizendo que “A justiça anda em relação permanente e dinâmica com a paz. Justiça e paz têm em vista o bem de cada um e de todos, pelo que exigem ordem e verdade. Quando uma é ameaçada, vacilam as duas; quando se ofende a justiça, põe-se em perigo também a paz”. Nem é preciso ler o restante da mensagem. Com essas palavras cada cristão e especialmente os católicos, possuem um norte para sua vida concreta.

Sem pretender fazer algum tipo de análise crítica desses trinta anos, hoje o caminho corajoso seguido pelo Papa Francisco nada difere daquele momento de João Paulo II em sua visita ao Brasil e em seu magistério. As divergências estão mais na forma de conduzir a Igreja internamente com os diversos desafios que nasceram ao longo da história. Mas a pregação dos dois Papas está alinhada na mais absoluta coerência com a Doutrina Social da Igreja.

O Papa Francisco estabelece de maneira ainda mais forte o confronto para se estabelecer a paz dizendo que “não há justiça social que possa ser baseada na iniquidade, o que pressupõe a concentração da riqueza”. O Papa João Paulo II via nos rostos aglomerados das pessoas em São Pedro esse semblante de dor diante da iniquidade expressa pelo amontoado de lixo e a disputa das mesmas pessoas pelo que encontravam de alimento ou de material para renda.

A presença de João Paulo II aqui em Vitória, especialmente no Bairro São Pedro, é muito emblemática. Muito significativa. Muito evangélica. Era uma presença profética diante do crescimento econômico conduzido pelos grandes projetos industriais e exploradores da terra. O lixo de São Pedro era o grito dos pobres expulsos da terra.

Celebrar essa memória significa para nós hoje manter o mesmo compromisso eclesial assumido naquele momento histórico. Outras realidades de lixo e descarte foram crescendo em nossas periferias. A violência que vemos todos os dias estampada nos noticiários está vinculada diretamente ao problema da injustiça social. Por isso, nosso povo não vive em paz.

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