TURISMO RELIGIOSO E FÉ

19 janeiro, 2023

Estamos em tempo de férias que, além de servir para o descanso do trabalho ao longo de um ano, permite a realização de viagens tão sonhadas. Num país com população marcadamente religiosa, um dos caminhos que tem crescido muito ao longo dos anos é aquele que se destina a lugares religiosos. É preciso também registrar que o “efeito Francisco” fez triplicar o número de pessoas na Praça de São Pedro em Roma. Portanto, não apenas os lugares sagrados são buscados, mas também o encontro em celebrações festivas com determinados líderes religiosos como é o caso do Papa Francisco. No Brasil, três festas marianas (Círio de Nazaré, Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora da Penha) são momentos que atraem milhares de peregrinos.

Estamos diante de um inesperado revival das formas tradicionais de turismo, cada vez mais devotos percorrendo a pé os itinerários e destinos de culto. Na Santa Sé tem crescido muito o número de participantes nas audiências e nas celebrações religiosas, com peregrinos de todas as partes do mundo. Calculam-se que entre 300 e 330 milhões de pessoas por ano realizam essas viagens movimentando em torno de 18 bilhões de dólares. Daí, percebe-se que se trata de um grande movimento de pessoas e dinheiro.

Estamos diante das maiores manifestações culturais da história humana que se situa na esfera do domínio religioso. Todas elas guardam os passos percorridos testemunhados por templos, catedrais, espaços sagrados e imagens. De uma dimensão pequena da expressão religiosa chega-se ao ponto culminante com milhares de visitantes. As grandes religiões foram deixando rastros culturais ao longo da história nos mais distantes lugares. Assim, podemos ficar maravilhados com as catedrais medievais da Europa, mas como não se tocar com os templos budistas, hinduístas, as mesquitas islâmicas, o muro das lamentações dos judeus em Jerusalém? Em razão da amplitude dessa temática, vamos permanecer no contexto cristão, especialmente católico, em nossa abordagem.

A CNBB já estruturou uma pastoral específica para o mundo do turismo e nele pode ser incluído o turismo religioso, tendo por objetivo ajudar as pessoas a descobrir a presença de Deus nas belezas da criação e nas manifestações culturais e religiosas. Apresenta esse movimento que tem crescido muito no mundo católico como um caminho para o intercâmbio de experiências e a consequente inserção da comunidade de origem, em vista de uma sociedade justa e solidária.

O turismo religioso envolve não apenas longas viagens entre continentes, mas todo o conjunto de peregrinações e suas experiências de fé, as romarias, as viagens para cumprimento de promessas feitas no contexto das devoções populares, as visitas a lugares sagrados e templos.

A partir de onde nasce esse movimento das pessoas em termos turísticos? Não podemos cair na visão simplista de reduzir tudo a uma questão de mercado. Sabemos que esse mercado movimento fortunas ao redor do mundo, mas com isso não nos isentamos de analisar melhor a questão. Em todas as religiões há dois componentes essenciais: o lugar sagrado onde se celebra, se reúne a comunidade dos fiéis e o tempo sagrado que compõe os momentos de cultos, orações e festas. O secularismo tem feito um movimento de anular esses dois pilares da experiência religiosa das pessoas na medida em que anula o caráter de sacralidade do lugar e do tempo.

Desta forma, na experiência de fé ou religiosa das pessoas sempre haverá um desejo de ir a algum lugar sagrado ou de participar de um tempo sagrado sob a forma de festa ou celebração. É bom registrar que esse caminho é bem ecumênico. Qualquer pessoa poderia, por exemplo, visitar a imagem de Buda em Ibiraçu sem ser budista, ou ir ao Convento da Penha sem ser católico. O turismo religioso tem essa característica que é muito positiva, pois permite a convivência entre diferentes crenças e culturas. Esse peregrinar não apenas alimenta e fortalece a fé das pessoas, mas também promove um tempo de reflexão e de autoconhecimento. 

Sem entrar na questão mercadológica que envolve esses lugares, podemos dizer que todo lugar sagrado que aglutina o movimento de pessoas tem um papel muito importante no fortalecimento da memória religiosa, antes de tudo. Sem memória, a religião enfraquece. Portanto, ao manter e fortalecer a memória de seus fiéis esses lugares servem para reunir e fortalecer a união de seus membros. Isso é válido em todas as religiões. Vejam por exemplo o caso da cidade de Varanasi (lugar mais sagrado do Hinduísmo) na Índia que recebe em torno de 750 milhões de pessoas por ano, ou Meca que é o lugar que todo muçulmano deve ir pelo menos uma vez na vida. Aparentemente parece ser uma obrigação do fiel, um peso a ser cumprido. Contudo, na experiência religiosa mais profunda, as pessoas não consideram como peso ou obrigação, mas como “prazer” de uma coisa que se assemelha a uma espécie de desejo. Há na constituição do ser humano um desejo de estar no lugar sagrado ou vivenciar um tempo sagrado, independentemente da religião que se pratica.

Ainda mais recente entre nós tem crescido o “turismo de experiência” como os “Passos de Anchieta” aqui no Espírito Santo, o “Caminho religioso da Estrada Real” que abrange 38 municípios de Minas Gerais e São Paulo, a “Rota da Fé Campo Mourão” no Paraná, o “Caminho dos Santos Mártires do Brasil” inspirado no “Caminho de Santiago de Compostela” (Espanha) que percorre 140 quilômetros no nordeste brasileiro e o “Caminho das Missões” no sul do Brasil. O turismo de experiência foge do lugar comum da visita passageira aos lugares religiosos e culturais e leva o peregrino a um processo de imersão sob a forma de vivência mais intensa na cultura da população em questão.

Muitas vezes, ao turista religioso falta-lhe essa vivência mais profunda dos lugares percorridos. O peregrino que faz esses percursos turísticos não apenas fortalece sua memória de algo marcante em sua vida, mas também esse caminho lhe ajuda a desenvolver ainda mais o respeito pela diversidade cultural, ética e religiosa. Com mais tempo para imergir na realidade local, essa experiência tem contribuído muito não apenas no fortalecimento da fé e seu engajamento na Igreja, mas alimentando o homem atual em seu desejo de um maior encontro consigo mesmo e com o ambiente em seu conjunto. A viagem acaba se tornando um tempo de recolhimento, de retiro, de encontros espirituais.

Uma questão crítica parece-nos necessária e que deveria ser colocada: é fundamental que as autoridades religiosas que cuidam desses lugares de turismo religioso zelem para que não haja uma exploração absurda da fé dos fiéis em termos econômicos. Quando a religião se torna negócio ela vai perdendo o elo que alimenta a fé. Assim como quando a religião se torna política a fé vai minguando.

Uma questão mais local também merece ser refletida. O Espírito Santo tem se destacado como lugar de turismo religioso e de experiência. Nesses tempos de férias o Estado fica cheio de pessoas, não apenas nas praias. Não se pode reduzir o nosso turismo à praia. Há inúmeros lugares religiosos, culturais, históricos. O que temos percebido ainda muito forte é que as pessoas que aqui chegam não conseguem visitar uma igreja a não ser na hora do culto ou celebração. A esfera pública deveria em nosso entendimento alinhar-se num planejamento turístico para receber e acolher melhor as pessoas, não apenas cuidar da rede hoteleira e infraestrutura. O turismo religioso é fonte de recursos para o Estado.

Uma última questão eu gostaria de registrar como preocupação pastoral. Na Europa, as grandes catedrais e igrejas históricas ficam muito cheias de turistas, mas quase sempre vazias como espaços celebrativos da fé. Aqui entre nós caberia perguntar até quando essa força religiosa na cultura brasileira permanecerá? Os analistas das Ciências da Religião apresentam não apenas um quadro meio cético em relação a isso, mas até advertem para o crescimento principalmente no ocidente de uma sociedade a-religiosa, ateia, secularizada.

Os lugares sagrados das diversas religiões poderão permanecer como objeto da cultura; contudo, pouco ou nada irá contribuir na alimentação da memória de fé das pessoas. Não lhes diz respeito. Apenas será um bem cultural tombado pelo patrimônio histórico. Na Europa, as pessoas transitam pelos seus espaços apenas para uma contemplação estética. Não diz mais respeito a fé dessas pessoas. Daí o alerta do Papa Francisco para que não se faça da experiência de fé apenas um transitar turístico pelos lugares sagrados. Este parece ser o grande desafio do turismo religioso no sentido de ir além do encantamento estético nessas viagens.

Edebrande Cavalieri

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