24º Domingo do Tempo Comum

11 setembro, 2022

Marwin Martins| “Misericordiosos como o Pai.”(Lc 6,36).

Em abril de 2015, segundo ano do pontificado do Papa Francisco, foi proclamado o Jubileu Extraordinário da Misericórdia com o lançamento da bula “Misericordiae Vultus¹ e em dezembro daquele corrente ano, na Festa da Imaculada Conceição, iniciou-se o ano Santo da Misericórdia, com o lema: “Misericordiosos como o Pai.”(Lc 6,36).

Perguntado o porquê de instituir o ano Jubilar o Santo Padre respondeu:” Misericórdia é o caminho que une Deus ao Homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado[…].  Reconhecer esse Pai Misericordioso também é a proposta da liturgia desse 24º domingo tempo comum, Deus nos ama incondicionalmente e por isso age com Misericórdia.

As leituras desse domingo nos apresentam essa ação misericordiosa de Deus, primeiro com o povo de Israel que diante das adversidades do deserto murmuravam e se afastavam do Senhor, corrompendo-se a ponto de romper a aliança feita com o Deus, e tomando para si novos ídolos: “Vai, desce, pois corrompeu-se o teu povo que tiraste da terra do Egito. Bem depressa desviaram-se do caminho que lhes prescrevi. Fizeram para si um bezerro de metal fundido, inclinaram-se em adoração diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: ‘Estes são os teus deuses, Israel, que te fizeram sair do Egito!’’(vv.7-8).

Aqui o povo esqueceu-se de onde Deus os tirou e de toda promessa de prosperidade feita por Ele àqueles que se mantivessem fiéis. Esse distanciamento do povo Hebreu requer de Deus uma resposta imediata a ponto Dele desejar castigar aqueles que dantes salvou: “E o Senhor disse ainda a Moisés: “Vejo que este é um povo de cabeça dura. Deixa que minha cólera se inflame contra eles e que eu os extermine. (vv.8-9) Coube a Moisés interceder para que a ira de Deus não se aplacasse sobre o povo: Moisés, porém, suplicava ao Senhor seu Deus, dizendo: “Por que, ó Senhor, se inflama a tua cólera contra o teu povo, que fizeste sair do Egito com grande poder e mão forte?.[…] E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer ao seu povo. (vv.11,14).

Percebe-se nestas  passagens aspectos da misericórdia de Deus: o primeiro a gratuidade do perdão divino pois, por mais que pequemos e repitamos os mesmos erros, Deus e sua misericórdia sempre irão nos alcançar. O segundo é o infinito amor de Deus, pois se pecamos e somos falhos, muito maior é seu amor, este amor supera todas as nossas infidelidades e pecados.

Na segunda leitura, presenciamos mais um aspecto dessa misericórdia, a misericórdia que leva a conversão dos pecadores, motivando estes a desejarem uma maior intimidade com o amor de Deus, aqui representada pela conversão do apóstolo Paulo e de sua experiência em Damasco[3] e por conseguinte, sua relação com Jesus: “Transbordou a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus. Segura e digna de ser acolhida por todos é esta palavra: Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. E eu sou o primeiro deles! Por isso encontrei misericórdia, para que em mim, como primeiro, Cristo Jesus demonstrasse toda a grandeza de seu coração;”(vv.14-16a).

A gratidão de Paulo por ter sido alcançado pelo Senhor deixa claro que todos os homens são chamados a experimentar a bondade de Deus e partir daí uma transformação sincera e radical de vida.

Contudo é o capitulo 15 do evangelho de Lucas o coração da liturgia de hoje, pois nele é que vemos de forma mais contundente a manifestação do amor e misericórdia  de Deus por meio de ações e gestos de Jesus:  «Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai» (MV,n.01). Interessante dizer também que é Lucas quem nos apresenta as “parábolas da misericórdia”: a ovelha perdida(vv.4-7),a moeda extraviada (.8-10) e a mais forte delas a do filho prodigo.(vv.11-32).Todos os personagens: o pastor que vai atrás da ovelha, a mulher que encontra a moeda e o pai que se alegra com o retorno do filho, são imagens do próprio Deus que nos tem como riquezas suas e é Ele que nos procura de forma incansável até que estejamos ao seu lado.

A parábola do Pai Misericordioso representa o próprio Deus (o Pai), que respeita o desejo do seu filho em viver tudo que o mundo lhe pode oferecer, e a capacidade da humanidade em usar mal sua liberdade e consequentemente  enveredar-se pelo pecado: O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. […] E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. (vv.12-13b). O filho mais novo é a representação da humanidade ou de forma mais simplista é a representação de todos aqueles que depositam sua felicidade nos prazeres desse mundo, se entregando de forma direta ao pecado seja ele qual for colocando em  xeque a sua maior “herança” a salvação eterna. O afastamento do filho prodigo e o desejo de sair da presença do Pai mostra também o nosso quando queremos viver a nossa vida de forma independente sem a proteção e o carinho de Deus.

No entanto Deus nunca cansa de nos perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir perdão! por isso é Deus mesmo que de forma oculta impele  o nosso coração para o arrependimento e move nosso interior nos chamando a uma conversão, nos levando a enxergar nossas más ações e assim retornar a casa do Pai: Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti;(vv.18).

Mesmo indigno o Pai misericordioso acolhe o filho perdido e dá a ele novamente a dignidade de filho de Deus e restabelece esse laço filial: Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos.(vv.20). Essa reinserção do filho fica mais compreensível quando entendemos alguns elementos contidos nesse evangelho: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. (vv22a). O filho antes escravo e vestido com as vestes do pecado, recebe novamente a condição de filho e assim uma nova veste na presença de seu pai. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. (vv22b).O anel representa a renovação da aliança perdida declarando o perdão e confiança ao filho que voltou. Apenas as pessoas livres usavam sandálias enquanto os escravos eram obrigados a andarem descalço, simbolicamente ao colocar a sandálias em seus pés o Filho prodigo estava livre de toda escravidão imposta a ele por suas faltas.

Por fim houve uma grande festa: Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’(vv.23-24).

Assim portanto todo aquele que reconhece o seu pecado e retorna recebe uma grande festa, ou seja, restitui seus laços de amor e graça diante de Deus e faz a experiência alegre do amor pleno junto ao Pai misericordioso.

 

Marwin Amaral Martins

Seminarista do segundo ano de Teologia

Paróquia de origem: São João Batista, Cariacica Sede – ES

Paróquia de pastoral: Bom Pastor, Praia da Costa, Vila Velha – ES.

 

¹ “Misericordiae Vultus” (“O rosto da Misericórdia”). indica os tempos, as datas de abertura e encerramento do Jubileu e as modalidades principais do seu desenvolvimento. Francisco apresenta uma reflexão teológica e bíblica sobre o tema da misericórdia, fazendo referência aos dois Testamentos e à misericórdia como missão da Igreja.

² Durante a viagem, quando já estava perto de Damasco, Saulo se viu repentinamente cercado por uma luz que vinha do céu. Caiu por terra, e ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” A voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem você está perseguindo.[…] Em seguida Saulo se levantou e foi batizado. Logo depois comeu e ficou forte como antes. Saulo passou então alguns dias com os discípulos em Damasco. E logo começou a pregar nas sinagogas, afirmando que Jesus é o Filho de Deus.  (Atos dos Apóstolos 9,3;18)

[3] Durante a viagem, quando já estava perto de Damasco, Saulo se viu repentinamente cercado por uma luz que vinha do céu. Caiu por terra, e ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” A voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem você está perseguindo.[…] Em seguida Saulo se levantou e foi batizado. Logo depois comeu e ficou forte como antes. Saulo passou então alguns dias com os discípulos em Damasco. E logo começou a pregar nas sinagogas, afirmando que Jesus é o Filho de Deus.  (Atos dos Apóstolos 9,3;18)

BIBLIA Sagrada. Tradução da CNBB. São Paulo: Ave Maria, 2001.

MISERICORDIAE Vultus: BULA DE PROCLAMAÇÃO DO JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA. Roma, 11 abr. 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco_bolla_20150411_misericordiae-vultus.html. Acesso em: 8 set. 2022.

Tudo o que você precisa saber sobre o Ano da Misericórdia. [S. l.], 6 jan. 2016. Disponível em: https://pt.aleteia.org/2016/01/06/tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre-o-ano-da-misericordia/. Acesso em: 8 set. 2022.

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