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A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) acaba de publicar as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) para

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) acaba de publicar as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) para o período 2026-2032. Trata-se de um plano de evangelização. Foi a partir do Concílio Vaticano II que a Igreja do Brasil passou a trabalhar com a proposta de Plano de Pastoral de Conjunto lançado em 1966. Tempos depois, essa ideia evoluiu para Diretrizes Pastorais Gerais a serem implementadas nos Planos Pastorais de cada (Arqui)Diocese.

À luz da Lumen Gentium, a Pastoral de Conjunto é ação evangelizadora orgânica, articulada e em comunhão, superando a pastoral isolada com ações desarticuladas em que cada um cuida do seu “quadrado”. Por isso, todas as pastorais, todos os movimentos e todos os serviços devem formar um corpo orgânico, atuando em sintonia, pela evangelização.

As novas Diretrizes estão estruturadas em torno do conceito bíblico da “Igreja como Tenda do Encontro” e divididas em cinco caminhos centrais: Animação Bíblica, Iniciação à Vida Cristã, Comunidade, Liturgia e Piedade Popular e Serviço à Vida Plena. O que significa o conceito de “Tenda do Encontro” para designar a Igreja?

Esta imagem é descrita no Livro do Êxodo (33). A Tenda foi montada por Moisés logo após a saída do Egito, com o povo em peregrinação no deserto rumo à Terra Prometida. Aconteceu logo após a quebra da aliança retratada no episódio do bezerro de ouro. Foi nesse momento que Moises construiu uma Tenda fora do acampamento, servindo como espaço sagrado de comunhão com Deus, de refúgio, de intimidade, onde o Senhor falava com ele “face a face”, como um verdadeiro amigo.

Como o povo estava peregrinando pelo deserto, a Tenda do Encontro era uma espécie de santuário móvel, sempre do lado de fora do acampamento e um pouco distante, servindo como lembrete da santidade divina e de comunicação com Deus. Mais tarde, a Tenda do Encontro passou a significar o Tabernáculo, instalada no centro do acampamento, abrigando a Arca da Aliança e os objetos sagrados.

Conforme o texto bíblico, cabia ao povo trazer óleo de azeite puro para manter a lâmpada da Tenda do Encontro sempre acesa. No Novo Testamento, o evangelista nos diz que o “Verbo armou sua tenda entre nós” (Jo 1, 14). Ele não veio fazer uma visitinha ao povo, mas habitar em seu meio.

O Sínodo dos Bispos e as Diretrizes recuperam o conceito de Tenda descrito no Livro de Isaías (54) em que se diz: “Aumente o espaço de sua tenda, ligeira estende a lona, estique as cordas, finque as estacas, porque você vai se estender para a direita e para a esquerda, seus filhos herdarão nações e povoarão cidades desabitadas”. As cidades serão renovadas.

A Tenda do Encontro representa a imagem da Igreja peregrina, missionária, acolhedora, com portas abertas aos pobres e disposta a alargar seu espaço para abrigar a todos. Ela renovará as cidades. É um abrigo para quem sofre nos desertos existenciais; espaço que acolhe os vulneráveis, os feridos, os migrantes e os que buscam refúgio; uma Igreja que caminha com seu povo. Uma Igreja Povo de Deus.

Por onde começar esse processo de alargamento da Tenda do Encontro? O Apóstolo São Paulo, escrevendo aos Coríntios, nos questiona: “Não sabeis que vosso corpo é santuário daquele que habita em vós, o Espirito Santo que recebestes de Deus e que não pertenceis a vós mesmos”? E, em outro texto, afirma: “Nós somos templos do Deus vivo”. Sendo assim, também em nós deve haver uma lâmpada sempre acesa. É a nossa Tenda da intimidade com Deus. A luz que brilha em nossos corações é a própria presença do Espírito Santo que habita em nós. Santo Agostinho dizia que em nossos corações temos as pegadas de Deus.

Por isso, é essencial uma vida segundo o Espírito, com uma luz alimentada por azeite puro que brilha e resplandece. Uma vida segundo o Espírito se constitui do amor a Deus e do amor ao próximo, pois quem diz que está na luz, mas odeia o seu irmão ainda está nas trevas (1Jo 2, 9-10). Um coração repleto de ódio se mantém nas trevas.

Seguindo as conclusões do Sínodo, as diretrizes propõem um caminho de compromisso que parte da conversão. Alargar a Tenda do Encontro pressupõe a conversão das pessoas a partir de seu próprio coração, a conversão das relações especialmente em relação à questão da proteção de menores e da comunicação, a conversão dos processos que acontecem nas Igrejas locais com suas assembleias, grupos, pastorais e a conversão dos vínculos relativos aos organismos e projetos missionários.

A Tenda do Encontro não se destina a um recolhimento emotivo, individual, mas deve estar profundamente conectada aos desafios concretos da sociedade, de compromisso com a vida, com a justiça e com uma sociedade mais integrada e integradora, marcada pelos valores do Evangelho.

A Tenda do Encontro não é um recinto para poucos escolhidos, mas espaço bem alargado, aberto a todos. Não basta manter o que já existe, mas alargar para acolher. E nem se fechar sobre si mesma como uma instituição autorreferencial, mas ser leve, móvel e aberta.

A Igreja não é a dona de Deus, mas sinal de sua presença entre nós. Então, a Tenda do Encontro nos faz irmãos e nos torna solidários, nos faz ser uma comunidade em saída, sem muros rígidos, mas abrigo seguro.

Edebrande Cavalieri

O Papa Francisco comparava a fé a um jogo de basquete e o Papa Leão XIV, agora nos jogos da Copa do Mundo, nos

O Papa Francisco comparava a fé a um jogo de basquete e o Papa Leão XIV, agora nos jogos da Copa do Mundo, nos diz que a dinâmica de campo representa uma lição para as relações humanas, pois “quem não sabe passar a bola, mesmo que tenha talento, ainda não entendeu o jogo”.

Tanto o jogo de basquete como a fé exigem “olhar para o alto”, em vez de ficar preso ao chão. É preciso transcender o piso duro da realidade para elevar-se aos céus. Quantas vezes um jogador de basquete teve que realizar esse movimento de elevar-se do chão e olhar para o alto? Quantas vezes suas mãos se movimentaram para os céus focando na cesta?

Assim também é nossa fé: um permanente elevar-se aos céus, transcender o chão da realidade, elevar as mãos para Deus como uma criança que pede colo, que deseja chegar ao colo da mãe. A fé é esse desejo de querer ficar no colo de Deus. Por isso, alguns teólogos falam em Deus pai e Deus mãe. Ou, como nos diz Jesus Cristo na parábola que o Bom Pastor pega a ovelha caída e a coloca nos ombros. A fé exige esse grau de certeza e confiança. Do colo de Deus ou dos ombros do Bom Pastor ninguém cai. Mas, nos alerta o Papa Francisco, assim como o esporte é “um medicamento contra o individualismo”, a fé também exige romper o círculo individualista, egoísta e autossuficiente.

Nesse ponto, o Papa Leão XIV nos chama a atenção lembrando que a vida não deve ser encarada como uma disputa individual em busca de destaque. Felizmente superamos aquela imagem que nos impelia para um movimento individualista da salvação como um mandamento de “salvar a própria alma”. Aqui o movimento de transcender se dá no rompimento com a tentação de atuar individualista, em autopromoção e de querer aparecer. Quem não souber passar a bola não entendeu a dinâmica do campo.

A dinâmica da fé é bem parecida a esse movimento. Nenhum bom jogador passa uma bola “quadrada” para o companheiro de equipe. Sempre o lançamento deve ser o melhor possível para que ele possa dominar a bola e fazer o gol, da vitória. A nossa fé tem a mesma dinâmica. A nossa caridade não deve ser feita com migalhas que sobram de nossa mesa. “Bola quadrada, ou comida estragada, um resto”! Nossa solidariedade é verdadeira na medida em que a nossa caridade se assemelha à caridade de Deus, como Graça concedida gratuitamente.

Aqueles que não aprendem a viver “com os outros e pelos outros” ainda não compreenderam o sentido da vida. Ainda não sabem o que distingue uma fé baseada em momentos de oração, de eventos, de uma fé que nos eleve aos céus, ao colo de Deus, junto com todos os nossos companheiros do jogo da vida.

Após os primeiros jogos da Copa, podemos fazer algumas análises reflexivas sobre os diversos conjuntos chamados de “seleção”. As seleções que reuniram jogadores que melhor sabem passar a bola saíram vencedoras. O talento individual não representa quase nada. É preciso que cada um entregue o melhor de si para o bem coletivo, para o sucesso do grupo.

A dinâmica cristã é bem parecida. A comunidade eclesial de base tem muito dessa riqueza de saber passar a bola, de entrega máxima de cada um, de uma ruptura do caminhar individualista, e de saber elevar as mãos aos céus, a Deus. Diz-nos o Papa Leão XIV que “o cristão, além de ser gentil e amável, deve ser compassivo, amar sem interesse e buscar do bem dos outros”. “Quem não sabe viver com os outros, ainda não entendeu a vida”.

Não se caminha em comunidade achando-se uma estrela, que nunca passa a bola, que não deixa os outros entrarem no jogo. Acha que sozinho poderá salvar o mundo, iluminar a terra. Não se deixa os outros de fora. Não se pratica “exclusão da e na fé”. Sim, muitos são excluídos ou cortados em muitas comunidades. Quem age como estrela isolada leva todo o time de Cristo a perder o jogo. “Por isso, também para nós, é importante pensar e sentir que estamos em uma equipe”, conclui o Papa Leão XIV.

O esporte, além de ajudar a manter o equilíbrio entre corpo, mente e alma, nos ensina valores fundamentais para vida, como a importância do trabalho em equipe, convivência e solidariedade, que também são valores centrais da fé cristã. Ninguém vence sozinho! Ninguém se salva sozinho!

Edebrande Cavalieri

Em sua quarta viagem apostólica à Espanha e Ilhas Canárias, o Papa Leão XIV, em seu primeiro discurso em território espanhol, refletiu sobre a

Em sua quarta viagem apostólica à Espanha e Ilhas Canárias, o Papa Leão XIV, em seu primeiro discurso em território espanhol, refletiu sobre a busca da verdade que cada homem traz em seu interior e a necessidade de reconciliação diante de um mundo marcado pelos conflitos, narrativas divisórias e polarizadas.

Nesse discurso incisivo dirigido às autoridades presentes no Palácio Real de Madrid, o Papa alertou sobre a tentação de líderes “atiçando o fogo das polarizações” para ganharem popularidade e eleições, disseminando narrativas que dividem e polarizam a sociedade. Lembra-lhes as raízes cristãs de seu país e aponta em sua reflexão o caminho da busca da verdade. Para onde ir?

De maneira implícita, traz o pensamento de Santo Agostinho que viveu os tempos da decadência do Império Romano no século IV. A escuridão dos tempos atuais que toma a razão e violenta as emoções deve nos levar a uma volta ao nosso interior, ao nosso coração, onde estão presentes as pegadas de Deus, conforme nos ensinou há tanto tempo o Santo de Hipona (África).

É em nosso interior que iniciamos a busca pela verdade e, transcendendo o nosso eu pessoal, vamos nos elevando pouco a pouco até a Verdade superior, Deus. Foi no ato criador do Deus Uno e Trino que ficaram as marcas do divino em nossa alma, em nosso ser. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. As marcas do amor e da unidade, da caridade e da verdade, que constituem a Trindade foram deixadas em nosso ser.

Esse mesmo Deus também envia seu Filho, Jesus Cristo, para nos salvar. O Deus que cria também é o Deus que nos traz a salvação com sua paixão, morte e Ressurreição. É a maior prova de amor!

Aqui está o motivo central de nossa fé, a motivação da esperança em tempos de escuridão. A nossa carência de amor e verdade não pode ser suprida pela busca externa. Por isso, o Papa nos diz que a escuridão da razão e o medo do desconhecido não podem prevalecer promovendo a “desorientação e a sensação de já não termos mapas para nos guiar”. No coração da humanidade existe um profundo desejo de paz, apesar de tantos conflitos e divisões.

Nossa cultura e as diversas instituições, especialmente as escolas e as Igrejas/Religiões deveriam investir na formação de pessoas capazes de cultivar a interioridade e a busca da verdade/Verdade, e não a busca do sucesso e da prosperidade. Contraditoriamente, temos até uma teologia da prosperidade fazendo sucesso nos púlpitos das igrejas. Esse é um caminho equivocado na busca da verdade!

O Papa também lembrou aos espanhóis duas das maiores figuras de seu país: São João da Cruz que escreveu Noite Escura mostrando o esforço ativo e desapego para alcançar a união com Deus e Santa Teresa de Ávila com Castelo Interior, obra em que descreve o caminho da alma para essa mesma direção espiritual. Foram dois dos maiores místicos da Igreja que ensinaram a descobrir a presença de Deus nos momentos de escuridão e incertezas.

Em meio às noites escuras da história é preciso aprender a reconhecer a luz que aparece entre as diversas realidades. Nesse caminho é fundamental reconhecer que, no interior de cada pessoa, há um sentimento que clama para o alto. Por isso, um novo conhecimento da pessoa e da sua dignidade inviolável são urgentes e necessários hoje para se construir uma civilização do amor, uma Cidade de Deus diria Santo Agostinho.

Contudo, essa civilização do amor exige uma mudança de prioridades nos investimentos públicos e privados. É necessário “dar um salto qualitativo, uma mudança de rumo, destinando às escolas e universidades e à pesquisa, às comunidades locais e à sociedade civil a maior parte dos investimentos. Os países e seus líderes governantes invertem essa prioridade destinando a maior parte do dinheiro público para a fabricação de armas e exercícios militares. Essa lógica precisa ser alterada se quisermos construir outra “cidade”. Do contrário, permaneceremos na Babel dos tempos modernos.

O Papa nos diz que “a verdadeira segurança não nasce da lógica dos muros e das armas”. A paz se constrói por meio da verdade/Verdade, do diálogo e da educação. É através da arte de amar que iremos construir uma civilização de paz e felicidade para todos.

Em uma de suas cartas, Santo Agostinho dizia que “a plena segurança só é possível quando depositamos confiança em algo maior que nós mesmos”. Portanto, é vã nossa tentativa de nos apoiar em coisas materiais, no controle do mundo através das armas ou nas certezas terrenas. Os impérios têm data de validade, tempo de queda. A Verdade sempre prevalecerá!

Edebrande Cavalieri

Foto capa: @Vatican Media

A primeira Carta Encíclica denominada Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV inicia-se colocando-nos diante de uma escolha decisiva enquanto humanidade: construir a cidade de

A primeira Carta Encíclica denominada Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV inicia-se colocando-nos diante de uma escolha decisiva enquanto humanidade: construir a cidade de Babel com uma grande torre bem alta ou reconstruir a cidade de Jerusalém onde Deus e a humanidade habitam juntos. Duas imagens bíblicas muito significativas. Duas escolhas decisivas! Não se trata entre um sim e um não, entre a tecnologia ou sua negação.

Em Babel, os habitantes almejam construir uma torre que atinja os céus, para obter estabilidade e poder e assim tornarem-se famosos. Trata-se de um projeto com única língua, única tecnologia, única direção. Porém, é um projeto sem nenhuma referência a Deus, sustentada por uma uniformidade que elimina a diversidade e, em vez de comunhão, escolhe a homogeneização. A unidade transformou-se em dispersão. Sacrificou-se a dignidade das pessoas em nome da eficiência e da ambição de alcançar o céu sem a bênção de Deus.

A outra imagem refere-se à reconstrução de Jerusalém após o exílio da Babilônia, toda devastada conforme descreve o livro de Neemias. Parte do povo exilado retornou, mas a cidade estava em ruínas. O que fazer? Neemias, antes de tomar uma decisão, jejua, reza e intercede pelo povo. Depois convoca as famílias e cada um vai assumindo a reconstrução das muralhas. Neemias ouve as pessoas, coordena os esforços, enfrenta as oposições, e através de uma responsabilidade partilhada com todo o povo a cidade vai sendo reconstruída.

Um verdadeiro mutirão! A linguagem comum aqui não é a uniformidade, mas a da comunhão, da harmonia que brota quando cada um assume sua responsabilidade e todo o povo reconhece a força que vem do Senhor. Santo Agostinho chamou depois de “Cidade de Deus”.

As duas escolhas que o Papa nos coloca como humanidade é Babel ou Jerusalém, domínio ou comunhão, eficiência ou dignidade. Sofremos uma síndrome de Babel idolatrando o lucro, sacrificando os mais fracos, impondo a uniformidade que anula as diferenças, assumindo uma linguagem única que reduz tudo a dados e algoritmos, inclusive o mistério da pessoa. O alerta do Papa é bem claro: “Uma cadeia de exploração que permanece deliberadamente invisível”.

Não se trata de renunciar à tecnologia, mas retirá-la da lógica da competição armada. É preciso desarmar a inteligência artificial, nos diz o Papa. É preciso retirar a tecnologia do poder dos monopólios, e torná-la discutível, contestável e habitável. “A era digital não será pós-colonial. Será colonial de outra forma”. “As novas formas de trabalhar não são necessariamente melhores, pois a inteligência artificial promete impulsionar a produtividade, mas os trabalhadores frequentemente são obrigados a adaptar-se à velocidade e às exigências das máquinas em vez de estas serem concebidas para ajudar quem trabalha”.

Temos diante de nós duas escolhas: Babel ou Jerusalém. “Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos”? O desafio está posto para a nossa escolha: “A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa Comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças”.

Como filho de Santo Agostinho, o Papa Leão XIV conclui a Encíclica reforçando a necessidade da espiritualidade eucarística que é, na verdade, uma espiritualidade da unidade eclesial no amor, dizendo que Agostinho se referia ao pão e vinho no altar como sacramento da unidade dos fieis em Cristo: “O que se vê tem um aspeto material, o que se compreende produz um efeito espiritual. Se quiseres compreender [o mistério] do corpo de Cristo, escuta o que o Apóstolo diz aos fiéis: Vós sois o corpo de Cristo e os seus membros (1 Cor 12, 27). Se vós, portanto, sois o corpo e os membros de Cristo, sobre a mesa do Senhor está depositado o mistério de vós mesmos: recebei o mistério de vós mesmos”. “E dizei Amém”. Comungando o Corpo de Cristo nos comprometemos na construção da Jerusalém celeste na terra. Aqui e agora. Ali está o alimento que nos dá força.

Desta forma se constrói a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos, formando uma civilização do amor. A antiga Jerusalém reencontra uma linguagem comum, a da comunhão. “Sede membros do corpo de Cristo, para que o vosso Amém seja verdadeiro”, pois nossa força provém do Senhor.

Edebrande Cavalieri

Foto capa: @Vatican Media

Esse é o grito profético do Papa Leão XIV expresso na mensagem para o 60º Dia das Comunicações Sociais, celebrado nesse domingo dia 17

Esse é o grito profético do Papa Leão XIV expresso na mensagem para o 60º Dia das Comunicações Sociais, celebrado nesse domingo dia 17 de maio. Isso significa que a humanidade está perdendo sua identidade de pessoa, seus traços essenciais, as marcas do Sagrado presentes no homem. O rosto é tão importante que em diversos aplicativos que usamos nos smarthphones o reconhecimento fácil é a prova mais certa de que é você mesmo que está inserindo ou solicitados dados. A fotografia de nossa face é prova de identidade. O Papa nos diz que a “voz e o rosto são o reflexo indelével do amor de Deus”. Cada um de nós é único. Somos irrepetíveis. Mas, podemos perder essa riqueza identitária?

Há riscos muito fortes provocados pela revolução tecnológica agora sob o controle dos algoritmos da inteligência artificial. Podemos, conforme o Papa, sermos definidos antecipadamente e perder nossa vocação insubstituível que emerge, não das máquinas, mas da vida, e se manifesta na comunicação com os outros. Alguns pilares da civilização humana correm o risco de serem modificados radicalmente. Junto aos rostos e nossas vozes, tem os pilares da sabedoria e do conhecimento, da consciência e da responsabilidade, da empatia e da amizade. Esses pilares podem ser invadidos para interferir nos ecossistemas de informação e comunicação, trazendo consequências irreparáveis nas relações entre as pessoas.

Alguém pode dizer que o alerta do Papa parece até um pouco catastrófico. Contudo, a velocidade em que acontecem as mudanças em nosso cotidiano, em nossas vidas, em nossas formas de trabalho e comprar, é muito grande. Quando a gente fica um pouco desconectado da internet, ao retornar, parecem anos transcorridos. Nossas maquininhas, presas entre as mãos, mudam a cada dia. Parece que a economia não mais se sustenta sem essas mudanças. Sobreviver tornou-se sinônimo de mudança rápida.

Na visão do Papa, “o desafio não é tecnológico, mas antropológico. Por isso, preservar rostos e vozes é preservar nós mesmos”. Os homens de hoje, especialmente aqueles que conduzem processos formativos, têm a missão de revelar para nós mesmos os pontos críticos, as opacidades e os riscos que essa revolução esconde por trás da sedução e do status. Ter uma consciência crítica a respeito do mundo que nos rodeia e nos acumula de tecnologia é essencial para os dias atuais. Até para a saúde mental é indispensável essa visão crítica.

Somos induzidos a maximizar o envolvimento nas redes sociais que gera muito lucro para as plataformas e buscamos recompensas imediatas de nossas postagens mediante curtidas e compartilhamentos. Tornamo-nos escravos dessa forma de relacionamentos, sem rostos e sem voz. Sem corpos que se abraçam e se olham, caímos numa espécie de “solidão digital”. No máximo, fechamo-nos nas “bolhas de consenso fácil ou de ódio rápido”. Nesse caminho, agrupamo-nos em polos que se excluem e de matam. As relações tornaram-se polarizações fazendo desaparecer nossa capacidade de empatia.

Desta forma, vamos consumindo nossas capacidades de conhecimento, de nos emocionar e de nos comunicar. Vamos perdendo nossos rostos e nossas vozes, escondendo nossa identidade e silenciando nossa voz.

O alerta do Papa é ainda mais profundo ao dizer que “a tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamentos pode não apenas ter consequências dolorosas no destino dos indivíduos, mas pode também ferir o tecido social, cultural e político das sociedades”. Caberia uma reflexão a cada um de nós, brasileiros: nesse ano eleitoral, como iremos conduzir nossos processos de relacionamentos? Transformando o ódio em capital eleitoral novamente? Permitindo que sejam quebrados nossos laços familiares, nossas amizades, nossos ambientes de trabalho, nossas comunidades eclesiais? Os caciques eleitoreiros que atuam na comunicação com marketing político estão preparando o arsenal de armas informativas em forma de fake News.

Concluindo com Santo Agostinho, pai espiritual do Papa Leão XIV, nesse contexto sócio-político o cristão deveria pautar nossa conduta como busca central da verdade, tendo como Verdade suprema o próprio Deus. A instrumentalização da fé nos dias atuais é campo de desvios profundos de caminho para a verdade. Homens e mulheres de fé não podem perder de vista a função da razão que nos auxilia na compreensão da vida. Ela revela nosso rosto e nossa voz. Agostinho aqui nos perguntaria: olhando para dentro de cada um, em seu coração, é isso mesmo que se quer? É seu desejo ver sua família dividida, suas amizades destruídas e sua comunidade eclesial parecendo uma trincheira de guerra? O rosto e a voz da comunidade dos cristãos revelam sempre a verdade e o amor pela Verdade e pelo nosso próximo.

Edebrande Cavalieri

Dia 15 de maio é a data prevista e muito esperada da assinatura da nova Carta Encíclica do Papa Leão XIV. Nesse dia, o

Dia 15 de maio é a data prevista e muito esperada da assinatura da nova Carta Encíclica do Papa Leão XIV. Nesse dia, o Papa Leão XIII, em 1891, assinava a Encíclica Rerum Novarum dando início a uma rica contribuição da Igreja conhecida como Doutrina Social. Quarenta anos depois, o Papa Pio XI publicava Quadragesimo Anno; em 1961, o Papa João XXIII publicava Mater et Magistra e no dia 1º de maio de 1991, fazendo referência ao movimento operário, o Papa João Paulo II publicava a Carta Encíclica Centesimus Annus. Esses são os grandes marcos na linha da publicação da Rerum Novarum. A encíclica do Papa Leão XIV segue esses grandes momentos do magistério pontifício.

A expectativa por essa encíclica é muito grande, em parte, decorrente da escolha do nome papal após sua eleição pelo colégio de cardeais. Conforme testemunho de seus colegas cardeais, o Cardeal Robert Francis Prevost quis assumir o nome de Leão XIV em vista do contexto atual do emprego na nova revolução digital. Ele disse aos colegas que queria dar mais atenção às questões de ordem social no mundo e às questões de justiça. Com essa nova revolução tecnológica, há o problema dos empregos. “Se Francisco falava com lobos, agora temos um leão que afungentará os lobos”, brincavam os cardeais.

Segundo o Cardeal Fernando Filoni que estava na mesa de escrutínio eleitoral, o Cardeal Prevost considerou inicialmente chamar-se Agostinho em homenagem ao Santo fundador da ordem à qual pertence. “A princípio, Prevost também considerou se chamar Agostinho, mas no fim decidiu que Leão era melhor”.

Em sua primeira audiência aos membros do Colégio de Cardeais, no dia 10 de maio de 2025, esclareceu a questão do nome: “Justamente por me sentir chamado a seguir nessa linha, pensei em adotar o nome de Leão XIV. Na verdade, são várias as razões, mas a principal é por Leão XIII, com a histórica Encíclica Rerum Novarum abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial, e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua Doutrina Social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da Inteligência Artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”. Esse é o horizonte da Encíclica Magnifica Humanitas.

Mesmo no contexto da crise da chamada Questão Romana em que os Estados Pontifícios foram invadidos pelas tropas italianas em 1870, o magistério do Papa Leão XIII seguiu olhando para o mundo e o que a Igreja poderia contribuir para que a dignidade humana fosse garantida, especialmente dos operários. Era preciso enfrentar o mundo moderno com outro posicionamento pastoral, rompendo com a ilusão de que a Igreja poderia viver em um mundo fechado em si. Assim abriu um caminho para a Igreja no mundo moderno, na luta pela defesa dos direitos dos operários e dos pobres.

Hoje há muitas forças dentro e fora da Igreja que desejam que ela volte para seu mundo particular, fechado em si, sem se envolver com as dores e os sofrimentos da humanidade. Porém, isso não é o que foi pregado por Jesus Cristo nos Evangelhos.

O que podemos aguardar em relação a esse momento tão delicado e difícil da história e o papel da Igreja conduzida pelo Papa Leão XIV? Um dos filósofos mais lidos da atualidade, Yuval Noah Harari, nos diz que “a humanidade enfrenta uma crise existencial de confiança e a forma como lidaremos com ela definirá nosso futuro em um mundo dominado pela Inteligência Artificial”. É nesse contexto histórico de incerteza e bem convulsivo que se coloca a orientação da Igreja como contribuição própria para enfrentar mares e oceanos em altas ondas que ameaçam naufragar a humanidade do barco da história.

A Carta Encíclica do Papa Leão XIV segue a tradição das grandes encíclicas papais e deverá abordar os desafios da revolução provocada pela Inteligência Artificial e as consequências éticas, a paz e as ameaças das guerras, a crise do Direito Internacional e outras ameaças à humanidade. Nossa expectativa é de que teremos uma nova “Rerum Novarum” que marcará novos rumos da Igreja na história.

O caminho sinodal configurado no pontificado do Papa Francisco e retomado por Leão XIV deverá ser a forma com a qual a Igreja caminhará nesse novo mundo e seus desafios, fazendo com que o fardo, que é bem pesado, seja compartilhado e carregado em fraternidade e solidariedade.

Aguardemos a publicação da nova Encíclica! Tarefa imediata: o seu estudo e disposição para o caminho sinodal, com humildade e espírito de serviço.

Edebrande Cavalieri

Foto de capa: Papa Leão XIV   (@Vatican Media)

No dia 8 de maio completa-se um ano do pontificado de Leão XIV, um ano da primeira saudação tão esperada pelo mundo inteiro. “A

No dia 8 de maio completa-se um ano do pontificado de Leão XIV, um ano da primeira saudação tão esperada pelo mundo inteiro. “A paz esteja convoco”! Chegou a mensagem referindo-se à paz de Cristo ressuscitado, “uma paz desarmada e que desarma, que é humilde e perseverante. Que vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente”.

Um ano depois chegamos a uma situação mundial ainda mais carente desse bem que vem de Deus, a Paz. Se até o mês de março desse ano o Papa parecia escolher as palavras, evitando comentar assuntos da geopolítica mundial, a partir da declaração da guerra contra o Irã, o Papa Leão XIV tornou-se um crítico declarado de todo tipo de guerra ou conflito. De maneira muito firme e serena sempre afirma que o papel da Igreja é pregar o Evangelho e ele o faz em nome de Jesus Cristo.

Mas os Evangelhos sempre incomodaram desde os tempos apostólicos e incomodam também hoje. Muitos instrumentalizam a Bíblia usando apenas versículos isolados do Antigo Testamento, com tons morais, e quase desconhecendo o Evangelho de Jesus Cristo. Essa é a Bíblia desejada por tantos governantes nos dias atuais. Também é desejada por muitos batizados que não querem ser incomodados. Mas, a pregação do Evangelho de Jesus Cristo sempre irá incomodar. Por isso Ele foi crucificado. Tem governantes muito incomodados com o Pontífice, a ponto de chamá-lo de “fraco” e “desastroso”.

Como Santo Agostinho que viveu os tempos da queda do Império Romano com Roma sendo saqueada pelos Visigodos, emerge a pessoa de Leão XIV com posição radical contra a guerra. “Continuarei a me manifestar contra a guerra. Muitas pessoas foram mortas. Alguém precisa se manifestar”. Sua postura não é colocar a Igreja em conflito com algum Estado em particular, mas garantir que a Igreja “lute pela a paz, que procure sempre a caridade, que procure sempre estar próxima, sobretudo dos que sofrem”.

A realidade histórica desse momento exige do Papa um posicionamento mais explícito sobre a desordem internacional que aumenta a cada dia. Ao ser chamado de “fraco”, o tornou muito forte no cenário internacional com uma mensagem clara contra a guerra, a desigualdade, a tirania do poder e o uso indevido da religião para justificar a violência.

Na viagem à África, ele alertou sobre os impulsos das nações ricas que ameaçam a paz e denunciou as violações do direito internacional pelas potências classificando-as como “ambições neocoloniais”. E foi ainda mais claro ao dizer que o mundo “está sendo devastado por um punhado de tiranos”.

Em um ano de pontificado, percebe-se que o Papa Leão XIV tornou-se uma figura muito poderosa e um grande líder no cenário político mundial. Sua experiência missionária no Peru e como Prior da Ordem dos Agostinianos fazem dele uma liderança da humanidade, carente dos bens da paz e da justiça. Contudo, não podemos resumir esse ano de pontificado apenas a esses desafios provocados pela Terceira Guerra em pedaços como dizia o saudoso Papa Francisco.

Leão XIV não acredita em lideranças personalistas e populistas. Ele exerce um poder no Vaticano pautado na força das instituições. Nesse sentido, conseguiu reunir em torno de si mais bispos e cardeais e com eles realiza consistórios para discutir a caminhada da Igreja. Para o mês de julho está prevista nova reunião reforçando o caminho sinodal da Igreja. Aos cardeais ele disse: “Estamos com vocês e somos próximos de vocês”.

Nesse ano, evitou tomar posições em assuntos mais delicados como o papel das mulheres na Igreja ou dos homossexuais. Busca uma estratégia de coesão na Igreja e um governo de maior união interna.

Ao se identificar como “filho de Santo Agostinho”, Leão XIV não nega sua continuidade com o Concílio Vaticano II e com o pontificado do Papa Francisco, porém os reinterpreta sob a moldura claramente agostiniana. Cristo está no centro dessa visão, servindo como critério para discernir as sombras da história e a missão da Igreja nesse mundo sendo sinal de luz.

O Papa Bento XVI dizia que sua primeira encíclica Deus caritas est, bem como a Spe salvi, devem muito ao pensamento de Santo Agostinho. Tanto naquela época como agora, “a humanidade precisa conhecer e, sobretudo, viver esta realidade fundamental: Deus é amor e o encontro com Ele é a única resposta para as inquietações do coração humano”.

Ao longo desse primeiro ano de pontificado, as reflexões de Leão XV tomam a Cidade dos Homens sob a ótica de sua condição espiritual, de luz e trevas. A incompreensão da mensagem de Cristo é o traço central do mundo contemporâneo. Essa incompreensão decorre de duas atitudes. De uma rejeição aberta e declarada dos contextos secularizados e agnósticos e a aceitação superficial da mensagem cristã, que reduz Jesus a uma figura inspiradora, um Coach, um super-homem. Estamos diante de um ateísmo funcional, mesmo entre pessoas batizadas.

A missão da Igreja é testemunhar com alegria a fé em Cristo num mundo, que mesmo distante e afastado, lhe é confiado. Em seu brasão episcopal, mantido como Papa, está escrito: In illo uno unum – Nele que é um [Cristo], somos um. Trata-se de um lema, a missão da Igreja para o mundo atual é essa.

Edebrande Cavalieri

No ano passado, por ocasião do Jubileu do Mundo do Trabalho em novembro, o Papa Leão XIV definiu dessa maneira o trabalho – “fonte

No ano passado, por ocasião do Jubileu do Mundo do Trabalho em novembro, o Papa Leão XIV definiu dessa maneira o trabalho – “fonte de esperança”. Enquanto nós, brasileiros, estamos na luta para impedir a escala 6 x 1, nessa data considerada feriado de 1º de maio, olhamos para esse horizonte de esperança apontado pelo pontífice como momento para maior estabilidade e dignidade, mas com muita luta. O que significa colocar o trabalho como fonte de esperança?

A Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) tem se manifestado continuamente contra o projeto que tramita no STF que trata da prestação de serviços por meio de pessoa jurídica, fenômeno conhecido como “pejotização”. Ou seja, procede-se a transformação da pessoa física em pessoa jurídica. Cada pessoa vende sua força de trabalho como se fosse empreendedor, como se fosse dono de uma empresa.

Se esse projeto for aprovado, os impactos serão muito significativos em relação ao trabalho, afetando negativamente os direitos trabalhistas como férias remuneradas, 13º salário, FGTS, etc. Afetará também os direitos previdenciários como proteção em caso de acidente de trabalho, aposentadoria e outros benefícios conquistados com muitas lutas.

A pejotização vem para neutralizar todas as conquistas realizadas pela classe trabalhadora. É uma forma de precarização que esvazia os direitos trabalhistas e acaba transformando a escala 6 X 1 ainda mais severa, com jornadas exaustivas e sem descanso semanal remunerado garantido. De 6 X 1 passará para 7 X 0 facilmente. Afinal, só depende da própria pessoa querer ou não trabalhar sete dias por semana e zero dias de descanso.

O trabalho como fonte de esperança defendido pelo Papa Leão XIV situa-se como direito sagrado que garante estabilidade e dignidade, e compõe a tríade Terra, Teto e Trabalho. A dignidade humana vem em primeiro lugar e não o lucro a qualquer preço e sem limites. A Doutrina Social da Igreja afirma que o trabalho goza de prioridade absoluta sobre o capital (Cf.277). Essa relação se expressa através da “participação dos trabalhadores na propriedade, na gestão e na participação dos seus lucros” (Cf. 281). Por outro lado, a estabilidade é a garantia de empregos confiáveis, seguros e dignos. Dignidade e estabilidade são caminhos de esperança no mundo do trabalho!

Na contramão está o projeto de “pejotização” que transforma o trabalhador em “empresário” de si mesmo. É relegado à exclusão nesse processo histórico da evolução dos mecanismos produtivos da própria sociedade. Doravante, com esse projeto aprovado, qualquer tipo de proteção lhe será negada. É o fim dos direitos. Perde-se a dignidade agora passando a ser da responsabilidade de cada pessoa. A sociedade desincumbe-se da responsabilidade pela dignidade do trabalho. Escravos de si próprios!

A estabilidade decorre apenas da sua capacidade de trabalhar. Ao adoecer deixará de trabalhar e também de receber.

Dessa forma, aumentaremos ainda mais a concentração de renda aliada a uma maior desigualdade e empobrecimento dos trabalhadores/as, jogados à insegurança da informalidade.

Enquanto isso, nossas redes sociais estão cheias de questões relativas a uma pauta moral como forma de desvio da atenção da sociedade em relação a esse projeto cruel e imoral. O Papa Leão XIV afirmou recentemente que a questão moral na Igreja não se refere apenas ao tema da sexualidade. “Na verdade, acredito que existam questões muito maiores e mais importantes, como a justiça, a igualdade, a liberdade dos homens e das mulheres, a liberdade religiosa, que deveriam ter prioridade em relação a essa questão específica”, afirma o Papa.

Portanto, para a Igreja o trabalho é um direito fundamental e um bem para o homem, apto a expressar e fazer crescer a dignidade humana. É uma necessidade para formar e manter uma família, para contribuir para o bem comum. A Doutrina Social da Igreja qualifica o desemprego como uma “verdadeira calamidade social”. A pejotização é uma camuflagem do desemprego.

O trabalho é um bem de todos e para todos aqueles que são capazes de trabalhar. O “pleno emprego” está orientado pela justiça e o bem comum. Uma sociedade que nega sistematicamente o trabalho para os seus membros “não pode conseguir nem a sua legitimação ética nem a paz social”, afirma a Doutrina Social.

Para que o trabalho seja fonte de esperança é preciso que nessas discussões em torno da dinâmica laboral se coloque no centro, não o capital, nem as leis de mercado e nem o lucro; no centro devem estar a pessoa, a família e o seu bem. “Essa centralidade deve estar presente em cada programação e cada projeto empresarial, cada reforma trabalhista, a fim de que os trabalhadores/as sejam reconhecidos na sua dignidade e recebam respostas concretas às suas carências reais”, conclui o Papa.

Esse deve ser o princípio norteador das lutas sociais e eclesiais em relação à questão do trabalho nos dias atuais, apontado pelo Magistério da Igreja expresso em sua Doutrina Social. Mais que um feriado, o dia 1º de maio é de luta e somente na luta teremos a garantia da esperança conforme preconiza a Igreja.

Edebrande Cavalieri