7 anos de sofrimento sem repação

8 novembro, 2022

Dom Vicente Ferreira Bispo auxiliar da arquidiocese de Belo Horizonte (MG) e Secretário-executivo da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB, escreve sobre os 7 anos de sofrimento das pessoas vítimas do desastre no Rio Doce. A matéria foi publicada no site da CNBB.

Enquanto há vida, há luta!
Sete anos!
É de resistir, que a gente sobrevive.
Limpando essa lama toda
Jogada na bacia do Rio Doce.
Dezenove pessoas mortas
E outras setecentas mil atingidas.
Salvai-nos, Deus
Senhor da vida!
Vale/Samarco/BHP
São as donas do crime.
Levam nossas riquezas.
Deixam buracos no coração
Do povo e da mãe natureza.
Lembrar, sempre!
Para que nunca mais aconteça.
Memória de cada dia.
Para esse crime todo, justiça;
E reparação como pago dessa cobiça.

Mais de cem pessoas atingidas morreram nesses anos pós-crime, sem nenhuma reparação. Também não houve avanço na condução dos reassentamentos. Somente em outubro de 2022 a Justiça reconheceu o direito das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem do Fundão de serem auxiliadas pelas assessorias técnicas independentes (ATI).

Elas foram escolhidas em 2018, mas as mineradoras não aceitaram, em razão da ganância do capital. Um novo acordo tem sido construído com mediação do Conselho Nacional de Justiça, restando aos atingidos incertezas diante da falta de acesso às informações e da ausência de participação nas decisões. Assusta, ainda mais, saber que Estado e Instituições de Justiça são reféns dos interesses econômicos das mineradoras.

Até 2050, os cientistas estimam que 1,2 bilhões de pessoas serão refugiadas por causa das mudanças climáticas. E não temos dúvidas de que nossa equivocada relação com o meio ambiente é a causa maior dessa tragédia socioambiental. Papa Francisco tem insistido na necessidade de uma conversão ecológica. Para isso é preciso reconhecer que nosso tecido cultural global é pecaminoso.

Porque substituiu Deus pelo dinheiro; a vida pelo lucro. Depois do crime em Mariana, veio o que aconteceu em Brumadinho. Não são situações isoladas. São resultados de uma violência sistêmica. Desse neoliberalismo colonizador. Que abastece o bolso dos ricos; deixa com os pobres a dor.

Na contramão da continuidade do crime, ecoa um grito coletivo. “Enquanto há vida, há luta!” Ele se reforça nas redes de resistências. Destaque para a Cáritas, a Comissão do Meio Ambiente da Província Eclesiástica de Mariana, movimentos sociais e tantos outros grupos atentos aos clamores dos pobres e da terra. São semeadores de outros modelos de sobrevivência. Os que emergem dos povos originários, dos quilombolas, da agroecologia etc. Coisas tão antigas e tão necessárias. Nosso futuro será ancestral. Ou continuaremos imersos em tanta lama do mal.

A todos e todas que perseveram na peleja por justiça, reparação e memória, manifestamos nosso apoio. Desde Brumadinho, damos-lhes as mãos. Desistir não é opção. Muitas são as dificuldades, mas nenhuma delas é maior do que o amor que nos colocou na condição de defensores dos direitos humanos e da terra. Estamos do lado certo da história. E isso é a nossa maior glória.

Ainda que passemos por noites escuras. Mais vale a bravura. Como disse Conceição Evaristo: “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”. Que sejamos uma sirene capaz de despertar um novo céu e uma nova terra. “Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança” (Laudato Sì, n. 244).

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