SISTEMA PREVENTIVO DE EDUCAÇÃO

13 julho, 2023

Olhando o contexto atual de tanta violência nos morros de Vitória, com ocupação das forças de segurança de maneira intensiva, onde impera a voz do comando e das ordens e, por outro lado, a extinção da proposta das escolas cívico-militares e algumas iniciativas para sua manutenção, fiquei refletindo muito sobre o que a Igreja poderia fazer para os nossos jovens. O que ela tem a dizer e a propor para eles em termos de educação? Será que o caminho deveria ser esse da força e do medo, da repressão e da eliminação?

Nas minhas memórias encontrei um bem precioso na carreira de professor. Em plena ditadura militar, década de 1970, eu estava em Vitória buscando colégio para trabalhar como professor. A primeira porta que se abriu para mim foi o Colégio Salesiano Nossa Senhora da Vitória, no Forte São João. E antes mesmo de pisar numa sala de aula fui convocado para uma preparação pedagógica sobre o sistema preventivo de educação criado pelo fundador dessa ordem religiosa, Dom Bosco.

Há mais de duzentos anos esse santo escrevia o livro “O sistema preventivo na educação da juventude” a ser aplicado às crianças e jovens das periferias urbanas, aos pobres, aos que buscam viver dignamente. Esse sistema é o oposto de outro sistema, o repressivo, o punitivo. Sua opção era a educação para a vida, onde os jovens se divertem muito na escola numa verdadeira gritaria da alegria tendo em seu meio os padres e professores do colégio.

Quando finalmente iniciei as aulas no Colégio Salesiano pude entender a orientação do diretor aos professores para que tomássemos o café com calma e depois percorrêssemos as quadras onde os jovens estavam. Ali pude perceber a grande diferença entre educar para a vida e a educação para a submissão, para a disciplina rigorista. O sistema repressivo leva os jovens a conhecer as leis e lhes impõe um sistema de vigilância extraordinário para conhecer os transgressores e aplicar-lhes o castigo. Muitos jovens das escolas militares foram levados para as delegacias que são lugares de criminosos e não de estudantes.

Conforme pensava Dom Bosco, esse sistema repressivo pode funcionar no exército, mas nos jovens em geral os resultados são muito pequenos. Os superiores desses jovens submetidos à repressão educativa jamais serão amados e poderão ser respeitados, por medo das punições. Com o sistema repressivo os jovens não mudarão de vida por convicção íntima, mas apenas por pressão externa.

No sistema preventivo de Dom Bosco há sim muita vigilância, muito acompanhamento, contudo tal atitude reveste-se de um olhar amoroso dos diretores e assistentes, dos professores e coordenadores. A correção é feita com amor, com amabilidade, e não com o medo. A orientação pedagógica é constante e mais intensa que a correção punitiva. Lembro que havia alunos suspensos de aulas, mas eram raros. Geralmente quando o professor não conseguia conduzir em sala de aula, era a coordenação e a orientação educacional que entravam para ajudar. Muitas vezes, havia também ajuda de psicólogo em determinados casos.

No sistema preventivo alunos não são envergonhados por erros cometidos. Cada pessoa que trabalha nos colégios conduzidos por essa pedagogia é orientada sempre a agir com amor. Os jovens sentem que são amados. Dom Bosco usava uma palavra em língua italiana para expressar esse sentimento pedagógico: “amorevolezza”. Trata-se de uma amabilidade que sustenta a relação entre educador e educando, onde impera o afeto, o respeito, a exigência, as boas maneiras e os gestos para com o outro. O Papa Francisco chama esse sentimento de “força revolucionária”.

É muito significativo que no contexto atual de tanto ódio e intolerância o Papa Francisco tenha escolhido como futuro cardeal da Igreja o padre salesiano Ángel Fernández Artime, atual Reitor-Mor da congregação. Estará presente em Lisboa entre os dias 02 a 06 de agosto desse ano para a Jornada Mundial da Juventude com o Papa. Sua escolha como cardeal mostra para toda a Igreja o eixo em que se deve mover a educação da juventude.

Como cristãos não podemos estar ao lado de um sistema educativo punitivo, rigorista. Dom Bosco dizia que era preciso que o oratório fosse sempre festivo. Quando o oratório se mostrava triste, com poucas crianças brincando, a maioria cabisbaixas e desconfiadas de seus superiores, era sinal da ineficácia do sistema preventivo.

Hoje depois de uma carreira docente percorrendo todos os graus de ensino percebo como me fez tanto bem começar naquelas salas de aula tentando aplicar o sistema preventivo de Dom Bosco. Como era bonito ver o colégio incentivando tantas diversões, ginásticas, esportes, música, teatros, passeios, ação de graças, gincanas, festas! Esse é o caminho desejado pela Igreja em seu conjunto. É preciso formar os jovens e educá-los pelo amor e com amor. Amorevolezza!

Edebrande Cavalieri

Compartilhe:

VÍDEOS

Nenhum evento encontrado!

Facebook