PAPA NA MONGÓLIA: SUSSURRO NA ESTEPE

4 setembro, 2023

O Papa Francisco realizou no período de 31 de agosto a 4 de setembro a viagem a um dos países com menor número de católicos em torno de 1.500 fiéis. O Jornal Correio Brasiliense trouxe como manchete “O destino curioso do Papa, com pequena comunidade católica”. O Portal Terra considera como “visita discreta numa Mongólia budista”, contrastando com outras viagens internacionais que sempre causam grande impacto em termos sociais. Artigos destacam como “inesperada visita”. Por que tanta surpresa?

Antes da viagem, o Papa Francisco dizia: “Partirei em viagem de alguns dias ao coração da Ásia, na Mongólia. Esta é uma visita muito desejada e será a oportunidade de abraçar uma Igreja pequena em número, mas viva na caridade, para encontrar um povo nobre e sábio”.

A Mongólia é o 18º maior país do mundo, com mais de 1,5 milhões de quilômetros quadrados, com baixa densidade demográfica em uma população de, 3.3 milhões de pessoas. Seu relevo é marcado por estepes, e pouco arável, o que propicia a presença de povos nômades e seminômades em torno de 30% da população. Em termos religiosos 53% da população é budista, 3% muçulmanos, 3% xamãs, 2% cristãos, 0,04% católicos, 39% ateus.

A Igreja Católica só foi aceita oficialmente em 1992 na Mongólia, após o fim da aliança do país com a União Soviética, contudo o império de Genghis Khan que se constituiu num dos maiores impérios da história com 20.000 quilômetros quadrados, nos séculos XII e XIII, indo do Oceano Pacífico ao Mar Mediterrâneo tinha por tradição a tolerância religiosa entre as diversas tribos mongóis. Então o Papa destaca a longa história de tolerância e diálogo inter-religioso de seu povo como um grande bem.

Na verdade, essa viagem acontece num momento de tensões do Vaticano com a Rússia e a China, países vizinhos da Mongólia. E o Papa demonstra assim que “permanece firme no seu compromisso com o diálogo”, pois a Igreja Católica acredita firmemente nesse caminho para a paz.

Falando para líderes de dez religiões o papa disse: “O fato de estamos juntos no mesmo lugar já é uma mensagem: as tradições religiosas, na sua originalidade e diversidade, constituem um formidável potencial de bem ao serviço da sociedade. Para quem possui a responsabilidade das nações o caminho do encontro e do diálogo com os outros contribui de forma decisiva para acabar com os conflitos que continuam a causar sofrimento a tantos povos”.

Antes de se dirigir à pequena comunidade católica, o Papa fez questão de encontrar com uma senhora que encontrou uma imagem de Nossa Senhora no lixão e levou para casa. Quando soube que se tratava de uma imagem religiosa católica, imediatamente ela levou para a comunidade católica cuidar daquela imagem.

Então o Papa tomou esse fato para falar aos católicos: “Neste caminho de discípulos-missionários, tendes um apoio seguro: a nossa Mãe celeste, que quis dar-vos um sinal palpável da sua presença discreta e solícita ao deixar que se encontrasse a sua imagem numa lixeira. Naquele lugar dos detritos, apareceu esta bela estátua da Imaculada: Ela, sem mácula, imune do pecado, quis chegar tão perto a ponto de ser confundida com os desperdícios da sociedade, para que, da imundície do lixo, emergisse a pureza da Santa Mãe de Deus”. Na catedral de Ulan Bator essa imagem foi entronizada em 08 de dezembro de 2022 e nessa visita o Papa a abençoou.

Em seus discursos fez referência ao amplo horizonte geográfico desse país que ajuda a superar a estreiteza das perspectivas curtas, bem como a experiência do nomadismo das estepes que é um elemento identificador de diversas culturas e também um modo de como preservar o mundo em seu entorno. O Papa enfatiza que o povo mongol possui uma vasta sabedoria carente no mundo de hoje, que é míope na procura por interesses particulares.

Da experiência nômade o Papa extrai uma mensagem para o mundo atual: “Aquilo que a criação representa para nós, cristãos, isto é, o fruto dum benévolo desígnio de Deus, vós nos ajudais a reconhecer e promover com delicadeza e atenção, contrastando os efeitos da devastação humana com uma cultura feita de cuidado e previdência, que se refle em políticas de ecologia responsável”.

A questão geopolítica e ambiental está no horizonte dessa visita. Trinta anos após o fim da aliança com a União Soviética, a Mongólia presencia uma crise dos ideais democráticos e o crescimento da corrupção. Nesse aspecto, as influências dos países vizinhos Rússia e China podem fortalecer as tendências autoritárias e antidemocráticas. Por outro lado, não há relações diplomáticas entre Vaticano e China, que é um Estado ateu e exerce controle severo sobre as organizações religiosas. Isso gera sempre muitas tensões nos trabalhos diplomáticos.

Ao mesmo tempo, a preocupação com a casa comum em que os próprios mongoleses consideram seu país o segundo pulmão do mundo. Sendo um país muito pobre poderá abrir caminho para a exploração dos riquíssimos recursos naturais por parte de empresas russas, chinesas e australianas. O país enfrenta hoje uma grave crise ambiental provocada pela mineração, pastoreio excessivo e desertificação. Isso está provocando a migração da população para a capital, residindo em moradias precárias. A viagem do Papa então ganha muita importância no cenário mais amplo de seu magistério.

Um dos eventos mais significativos foi a celebração ecumênica e inter-religiosa no Teatro Hun reunindo representantes do Xamanismo, do Budismo, do Islamismo, do Judaísmo, do Hinduísmo e outras denominações religiosas. Essa celebração pretende representar o sinal de coexistência pacífica como vocação do povo mogol. Segundo o Pontífice, é preciso confirmar os ensinamentos que professamos para não sermos motivo de escândalo. “Nenhuma confusão, portanto, entre credo e violência, entre sacralidade e imposição, entre percurso religioso e sectarismo”.

Trata-se, enfim, de uma viagem que acolhe como Pastor o pequeno rebanho de 1.500 fieis, e também amplia o horizonte do magistério marcado pelo diálogo inter-religioso, diálogo ecumênico e cultural como antídoto à guerra; também é uma viagem marcada pela preocupação com a casa comum conforme está descrito na Encíclica Laudato Si’. Termina assim uma viagem definida pelo Portal do Vaticano como um “sussurro no silêncio da estepe”.

Foto capa: Vatican News

Edebrande Cavalieri

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