A mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz – 1º de janeiro de 2024 – refere-se a um dos temais mais desafiadores dos tempos atuais: os impactos causados pelo desenvolvimento da inteligência artificial. Os progressos da informática e o desenvolvimento das tecnologias digitais começaram a produzir profundas transformações na sociedade global, mudando a fisionomia das comunicações, da administração pública, da instrução e educação, do consumo, dos intercâmbios pessoais e tantos outros aspectos da vida diária. São impactos que não demoram a acontecer. Parece que acontecem da noite para o dia.
Ainda não nos damos conta de que estamos diante de uma inteligência mais poderosa, mais rápida e mais complexa que a inteligência humana. Tem a capacidade de analisar bilhões de dados em segundos. Isso está fazendo com que as máquinas nos dispensem de refletir e nos obriguem a reagir, a tomar uma decisão. O pensamento profundo parece estar sendo dispensado. Não lemos mais. No Brasil, 52% das pessoas leem hábito de leitura e a cada ano menos leitores. A situação é ainda mais crítica quando vemos que 16% das pessoas nunca compraram um livro no último ano, segundo a Câmara Brasileira de Livros.
A posição da Igreja definida no Concílio Vaticano II é de apoio ao desenvolvimento da ciência e da técnica em vista de tornar a terra “habitação digna para toda a humanidade”, ajudando a organizar melhor a sociedade humana, promovendo a liberdade e aumentando a comunhão fraterna. O desenvolvimento das novas Tecnologias de Informação, contudo, apresentam oportunidades entusiasmantes e também graves riscos e até ameaça à sobrevivência humana. Portanto, a Igreja pauta sua postura em torno de uma ética humana da vida.
Para a maioria das pessoas essa temática é uma verdadeira nebulosa. Não se conhece praticamente nada. De repente ouvimos falar em algoritmos. E achamos coisa de maluco mesmo. Porém a questão é muito séria. Qualquer pessoa que começa a navegar na internet vai deixando rastos, pegadas, que são captados por essas tecnologias imediatamente. Se você busca um determinado produto para comprar, poucos segundos após sua busca, uma avalanche de ofertas chegas às suas mãos através dos smarthphone ou dos computadores. Os famosos buscadores da internet nos levam de um lado para outro em segundo, dispensando nosso trabalho de reflexão e análise. Tornamo-nos autômatos devorando informação sem pensar. Neste contexto proliferam as fake News.
Na mensagem do Papa, um alerta: esses seres invisíveis da inteligência artificial podem controlar nossos hábitos mentais e relacionais para fins comerciais e/ou políticos, mesmo sem o consentimento da própria pessoa. Parece uma terra sem lei. Esses mecanismos entram em nossas casas, em nossas vidas, e vão transformando nossa maneira de pensar e agir. A liberdade de escolha vai sendo reduzida drasticamente. Rapidamente nos tornamos alienados e perdemos a capacidade de tomar iniciativa. Nossos dedos decidem em segundo compartilhar qualquer informação, qualquer anúncio comercial.
A inteligência artificial é uma verdadeira galáxia de “realidades diversas e de antemão não se pode presumir que o seu desenvolvimento traga um contributo benéfico para o futuro da humanidade e para a paz entre os povos”, alerta o Papa Francisco. O resultado positivo dependerá da capacidade de agirmos de maneira responsável respeitando os valores humanos fundamentais como “a inclusão, a transparência, a segurança, a equidade, a privacidade e a fiabilidade”.
Não apenas se espera um agir ético de quem projeto algoritmos e tecnologias digitais, mas também se torna urgente a criação de organismos encarregados de examinar as questões éticas emergentes e tutelar os direitos de quem utiliza essas tecnologias e das pessoas que são influenciadas. Nesse contexto, cresce o número de “influencers” que ganham fortunas no mercado e até influenciadores que vão contaminando através de suas pregações o trabalho pastoral das Igrejas locais. Tudo está interligado. Não se vendem apenas produtos, também ideias, ideologias, comportamentos, ações políticas, preconceitos, indução à praticas contrárias à ética cristã.
Estamos ingressando num mundo em que somos invisivelmente vigiados a todo momento. Trata-se do uso invasivo da vigilância. São olhos e ouvidos que percorrem as vias da internet. Olham para cada passo que damos e acabam determinando o modo como entendemos tantas coisas, especialmente os direitos humanos, pondo de lado valores essências como da compaixão, da misericórdia e do perdão. O terreno do ódio e da vingança cresce ao nosso redor.
Essas tecnologias estão impactando o mundo do trabalho eliminando a mão de obra humana com sua substituição pelas aplicações industriais da inteligência artificial. Grandes vantagens para poucos, empobrecimento de muitos. Então do ponto de vista moral deve-se perguntar: onde fica o respeito à dignidade dos trabalhadores, o bem-estar econômico das pessoas, das famílias e das sociedades, a estabilidade dos empregos e a equidade dos salários?
A reflexão que o Papa Francisco traz para o próximo dia 1º de janeiro é um forte alerta para que olhemos rapidamente ao que está acontecendo ao nosso redor, impactando nossas vidas de maneira instantânea. Ao mesmo tempo, há que se conduzir esse desenvolvimento para a constituição da fraternidade humana e da paz, que “é fruto de relações que reconhecem e acolhem o outro na sua dignidade inalienável, e de cooperação e compromisso na busca do desenvolvimento integral de todas as pessoas e de todos os povos”.
A Igreja, por sua história, por sua sabedoria e pela capilaridade social tem um papel muito importante a realizar nesse campo e cada Igreja local terá que incluir em seus projetos pastorais essas preocupações trazidas pelo Papa Francisco. Assim, a nossa oração deveria ser uma súplica a Deus no sentido de iluminar o desenvolvimento da inteligência artificial de modo a não aumentar as desigualdades e injustiças, para que possamos entregar às novas gerações um mundo mais solidário, justo e pacífico. A paz desejada, celebrada e festejada no dia primeiro de janeiro também decorre do caminho do desenvolvimento da inteligência artificial.
Edebrande Cavalieri

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