Iniciamos um novo ano com um chamado forte da Igreja para a construção da “amizade social”, tema que foi assumido pela Campanha da Fraternidade. Porém, trata-se de um compromisso que se estende para além dos quarenta dias da quaresma. Diversos tipos de vírus sociais foram tomando conta das redes sociais e contaminaram a sociedade como um todo. Apologia ao ódio indiscriminado até contra o Papa e contra os Bispos, produção e compartilhamento de mentiras sem limite e os diversos tipos de violência estão ponde em crise a própria humanidade. A barca de Pedro navega por mares revoltos. Tem hora que dá medo, muito medo, como aquele que acometeu os apóstolos do tempo de Jesus.
Por onde começar a reconstrução da estrada esburacada e até destruída? Laços pessoais e familiares foram rompidos da noite para o dia. Até mesmo relações de namoro, de matrimônio, de vida eclesial, de grupos de amigos e de práticas políticas foram deterioradas ao longo dos últimos anos. As empresas do mundo inteiro estão preocupadas com os impactos desse terremoto para a produção, pois em torno de 80% das pessoas não estão dispostas a trabalhar com colegas que estão do outro lado. A polarização está impactando não apenas o mundo da política, mas o campo dos negócios. Ela ameaça a vida eclesial comunitária e participativa. Igreja dividida é caminho para a divisão e a separação.
Parece-nos que o primeiro ponto a reconstruir deverá ser o nível de confiança das pessoas. Trata-se de um verdadeiro “fio de ouro” que permite tecer laços, reconstruir redes rompidas. O contrário da confiança é o medo e segundo os cientistas, medo e confiança estão situados no mesmo espaço mental. Portanto, um exclui o outro. Não é possível sentir medo e confiança ao mesmo tempo.
No Evangelho de Mateus (10, 31) Jesus nos ped: “Não tenhais medo”. Ele sabia que discípulos medrosos não ajudariam em nada na pregação da Palavra, na expansão do Reino. O medo atrofia a capacidade das pessoas e produz uma verdadeira paralisia existencial. Ele nos torna incapazes para qualquer ação, qualquer passo à frente. Por isso, nos dias atuais se prega tanto medo para anestesiar as pessoas. Cria-se um movimento de retorno aos tempos nostálgicos do passado. Líderes religiosos medrosos tendem a refugiar-se em ritos litúrgicos dos tempos antigos. Para isso ressuscitam práticas religiosas até contrárias às orientações do Concílio Vaticano II.
Tantos medos difundidos entre nós são objetos fabricados, sem base real. Assim se prega o “medo ao comunismo”, sem sequer conhecimento do que seja realmente o comunismo. Cria-se uma fantasia para paralisar a vida das pessoas. Parece-nos que a grande ameaça à fé realmente é o medo. Ele nos torna covardes, corrói as fibras humanas, esvazia a vida, enfraquece os laços de amor e de esperança.
Por outro lado, o sentimento de confiança constitui-se como caminho onde se assenta a fé, o dom da fé. Não tenhais medo! A confiança nos torna criativos, proativos, nos mobiliza para ações ousadas, nos torna inspirados para avançar. Se os doze apóstolos tivessem medo, estariam reclusos em Jerusalém sob o domínio dos fariseus e sacerdotes do Templo. Ao contrário, lançaram-se pelo mundo a fora. Uma Igreja em saída missionária não pode ser dominada pelo medo, mas pela confiança, pela esperança.
Como é difícil libertar-se da “pastoral do medo”! As pregações sobre o inferno, sobre o demônio, as práticas de exorcismos, crescem tanto entre nós. Medos vendidos estão presentes em todas as tradições religiosas. Custa muito caro o acesso ao “paraíso”. O Evangelho de Jesus contraria radicalmente a pastoral do medo. A dinâmica do Reino está enraizada na confiança o tempo todo. Ela expressa uma profunda experiência de quem é Deus para cada um de nós.
É com o fio de ouro da confiança que iremos reconstruir o caminho da vida em abundância entre nós. Com esse fio iremos reconstruir laços, redes, reerguer pessoas enjauladas no medo. Através da confiança encontraremos capacidade de reagir aos tempos turbulentos dos dias atuais. Viver na defensiva ou aprisionados no passado não fortalece o caminho da fé. A confiança é o primeiro degrau da amizade social.
O Papa Francisco nos diz: “Nunca ter medo de Deus! Temor sim, medo não. O medo é um dos piores inimigos da nossa vida cristã”. Por isso, ele nos recomenda antes de mais nada que identifiquemos nossos medos para não perdermos tempo e energia, pois muitos são fantasmas vazios e sem rosto. Por isso, o lema de 2024 poderia ser: “Não tenhais medo! Confiai”!
Edebrande Cavalieri

por 