Em meados do mês de setembro, o Papa Francisco assinou uma Carta ao Colégio de Cardeais a respeito da reforma econômica da Cúria Romana, dentro do programa mais amplo da Reforma da Igreja. Esse é um dos maiores desafios da Igreja que tem implicações em todas as esferas eclesiais, chegando a cada comunidade. O Papa pede aos cardeais “selecionar bem as prioridades, favorecendo a colaboração recíproca e sinergias. Cada Instituição que tiver superávit que ajude a cobrir o déficit geral no modelo de solidariedade das boas famílias”.
A reforma está ancorada em três pilares: mais visibilidade, mais transparência e mais controle. De maneira concreta, qualquer Dicastério que precisa fazer uma grande despesa deverá solicitar autorização e, imediatamente, montar um projeto definindo a necessidade e abrir um concurso público com diversos proponentes que quiserem participar da licitação. As propostas deverão ser avaliadas técnica e economicamente por uma comissão independente e a melhor proposta será a escolhida. Portanto, não poderá haver favorecimento ao grupo A ou B, ao amigo de alguém. Tudo deverá ser registrado por escrito e eletronicamente, evitando ao máximo a prática do clientelismo. Há uma certa burocracia, porém não é mais tempo de fazer negócio individualmente e sem prestar contas. Para obter a autorização é preciso haver explicação detalhada da operação.
Com essa prática, a Igreja Católica coloca-se em sintonia com as exigências do mundo atual, das organizações públicas e privadas, prezando pela transparência em todas as suas dimensões. Ao mesmo tempo, a Cúria Romana tem enfrentado nos últimos anos a questão do déficit com o aumento de novas despesas. A proposta feita aos cardeais é “déficit zero” como meta alcançável, com gestão transparente e responsável a serviço da Igreja, evitando o supérfluo, selecionando prioridades. Os recursos econômicos a serviço da missão são limitados, e por isso não podem ser desperdiçados.
O Papa Francisco diz aos cardeais que “a reforma [realizada até aqui] lançou as bases para a implementação de políticas éticas que permitam melhorar o rendimento econômico do patrimônio existente”. Na verdade, tem consciência que, ao se trabalhar de maneira ética e transparente, a Igreja ganha em credibilidade e, consequentemente, em solidariedade. Por isso, tem caminho aberto para que se obtenha recursos externos para sua missão.
Por fim, o Papa destaca a necessidade de redução dos custos da Igreja, atendo-se ao espírito de essencialidade, evitando o supérfluo, escolhendo produtos mais compatíveis com a opção preferencial, selecionando bem as prioridades. Muitas vezes, uma pequena comunidade com pouquíssimos recursos acaba investindo muito dinheiro na compra de um carro mais carro ou adquirido objetos litúrgicos incompatíveis com a realidade da comunidade.
A reforma econômica da Cúria Romana deveria servir de modelo para cada grupo, cada comunidade, cada paróquia, cada diocese do mundo inteiro. Desta forma, enquadra-se a vida econômica da Igreja aos princípios evangélicos. A forma e o exemplo que cada comunidade eclesial dá para si e para o mundo externo a ela é o caminho melhor para que a Igreja cresça e se fortaleça, exercendo forte atração e compromisso solidário. O proselitismo exagerado de certos pregadores sem amparo no exemplo concreto faz mal para a comunidade, gerando desconfiança e abandono das pessoas.
Edebrande Cavalieri

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