DIA DE FINADOS E A ESPERANÇA CRISTÃ

4 novembro, 2024

Dia de finados indica algo que findou, acabou, teve fim. Contudo, essa ideia não é compatível com a fé cristã. O mundo parece caminhar numa visão de morte como algo que se encerra, que põe fim. As guerras demonstram bem essa crença. É preciso matar o inimigo para acabar com sua luta, suas ideias. Assim também pensava o poder romano diante de Jesus. Diziam: vamos acabar com isso, vamos colocá-lo numa das mortes mais degradantes e humilhantes e assim seus seguidores também desaparecerão, suas ideias serão enterradas com o crucificado. O que celebrar, então, nesse dia?

Todos os anos, nossos calendários reservam um dia que remete ao luto, à saudade e também serve para que os vivos prestem uma homenagem aos que já partiram desse mundo. A cerimônia mistura elementos religiosos e culturais que estão presentes em todas as culturas desde tempos remotos.

Em algumas tradições chega-se ao ponto de celebrar um verdadeiro culto aos mortos, com altares especialmente dedicados a eles. Essas culturas acreditam que há uma relação entre vivos e mortos. Em cada lugar e época, as instituições especialmente religiosas cuidaram para ressignificar os laços com a pessoas falecidas, familiares ou de amigos.

Apesar disso, olhando a história da Igreja vemos que somente no século XI, o maior mosteiro beneditino da Europa situado em Cluny, na França, sob a guia do Abade Odilo, estabeleceu o dia 02 de novembro com essa celebração que foi aplicada a toda a Igreja. O cristianismo não comporta um culto aos mortos como ocorre em muitas religiões. O Cristo não é celebrado ou cultuado por sua morte, mas por sua ressurreição dos mortos como “Espírito que dá vida” (1Cor 15, 45).

As celebrações em memória dos fiéis mártires ganham sentido enquanto eles testemunharam Cristo, morreram por Cristo. Aqui está o eixo central de nossa fé que compõe a esperança cristã. A morte não é mais o fim de tudo, do mundo, mas o cumprimento da vida. A morte de Jesus Cristo na cruz é a expressão maior do amor de Deus com os homens e sua ressurreição é a garantia de que viveremos para sempre, pois fomos resgatados. Paulo nos diz em 1 Cor 15, 14-15 que “Se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé”.

O dia dos finados nos coloca frente a frente com a realidade da vida, a morte. Os dias atuais nos mostram como a morte ficou tão trivializada, algo natural e comum; não comporta sequer uma lágrima dos vivos em várias situações. Um mundo sem coração! Como se mata gente nas guerras em várias partes do mundo! Tantas pessoas assassinadas nas guerras urbanas! Cresce a cada dia o número de mulheres mortas no cotidiano de nossas cidades e moradias! A morte parece ter perdido até o impacto do fim, muito menos como momento para o fortalecimento da esperança cristã.

Para os cristãos, o morrer encontra o sentido último em Jesus Cristo, a certeza de que esse momento não é o desaparecimento na vida, mas o encontro definitivo com Deus. A promessa de Deus que se cumpre em seu Filho nos mostra o caminho escatológico para a salvação. A morte não é mais a última palavra do destino humano.

Nesta data caberia refletirmos sobre o que significa a morte para cada um de nós. Como queremos viver? Será que não estamos querendo esconder a morte para fugirmos desse desafio que é ultrapassar a penúltima palavra do destino humano, o morrer? Até que ponto nossas fugas e excesso de atividades não estão escondendo nossa covardia para mergulhar no silêncio da morte para ali encontrar a luz da nossa esperança? Até que ponto podemos adiar o prazo final?

Nossas orações pelos fiéis defuntos no dia de Finados deveriam servir para superar os momentos das lágrimas e nos transformar em nossa vida cotidiana. E como cristãos, servir para olharmos a morte de frente, olhá-la com esperança. A morte deve nos levar a centralizar nosso foco na vida.

Além disso, esse dia deveria servir para refletirmos sobre tantas matanças no mundo atual que fazem da morte a vitória do poder, da ganância, do egoísmo. Esse dia deveria servir para colocarmos fé e esperança no contexto de um mundo de dor e morte.

Nossa prece então seria: Onde houver morte que saibamos levar a vida. Que as sepulturas fiquem vazias diante da fé no Ressuscitado.

Edebrande Cavalieri

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