A prova do Enem/2024 trouxe como tema da redação “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”. Logo nos vem à cabeça uma questão: como cristãos, o que temos feito a respeito desse desafio? A memória nos leva para 1988, quando a Igreja propôs para o tempo da quaresma daquele ano a Campanha “A fraternidade e o negro”. O lema da mesma é muito significativo: “Ouvi o clamor deste Povo Negro”.
Em outras duas oportunidades, as Campanhas da Fraternidade fizeram referência à mesma questão. Em 2018, a Igreja alertava sobre o extermínio da população jovem e negra com o tema “A fraternidade e as superação da violência” e empunhava como lema “Vós sois todos irmãos”. Em 2021, na Campanha Ecumênica da Fraternidade propôs como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, e como lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade”. Entre as várias denúncias feitas nessa campanha, a Igreja do Brasil criticava especialmente a violência contra pessoas e povos negro e indígena.
Em diversas ocasiões, o Papa Francisco tem manifestado profunda preocupação com a presença do racismo pelo mundo afora, considerando-o “um vírus que ao invés de desaparecer, ele se esconde”. Para ele, as expressões de racismo presentes na sociedade deveriam renovar em nós o sentimento de vergonha e motivo de lutar para o seu desaparecimento.
Apesar desses grandes sinais demonstrados pela Igreja, diversas organizações sociais a questionam de modo bem claro. Um grupo de 18 jovens brasileiros liderados por Patrícia de Jesus de Lima pertencentes ao grupo “Diversidade, Equidades e Inclusão” disse que estava levando uma questão para a Jornada Mundial da Juventude em Portugal em 2023: “Por que a Igreja Católica não fala do racismo”? Um grupo de católicas negras chegou diante do Papa dizendo: “mais que palavras”. A luta contra o racismo precisa ser concreta e efetiva.
A Igreja precisa contar com o apoio e a força de outras instituições, especialmente políticas e sociais. Três séculos de escravidão marcaram profundamente a sociedade brasileira e, entre as marcas, estão o racismo estrutural e a intolerância religiosa. A manutenção da discriminação apresenta-se como obstáculo à convivência social e cristã. Ao mesmo tempo, o pensamento racista enraizado nas instituições vai perpetuando as desigualdades.
Quando estudamos história, nossos livros didáticos ainda nos mostram “uma história única”, branca, aprisionando a percepção plural, múltipla. Temos medo da diversidade, da heterogeneidade. Por isso, temos necessidade de revisitar inclusive a história da Igreja Católica para romper com o silêncio imposto às narrativas negras e indígenas. Um exame de consciência nos leva a considerar que ainda somos bem conservadores em termos acadêmicos. Esse silenciar das narrativas plurais deixam nossos jovens e toda a população negra brasileira desinformada de suas origens.
A CNBB tem lutado para a articulação da Pastoral Afro-Brasileira em cada Diocese do Brasil em vista do combate ao racismo, evidenciando a identidade, a cultura e a ancestralidade do povo negro, de modo a interferir na desigualdade racial. Em 2023, no mês de novembro dedicado à Consciência Negra, Dom Zanoni Castro, Bispo Referencial dessa pastoral, dizia na celebração realizada durante a Romaria à Aparecida: “Nos juntamos aos milhares de peregrinos que, aqui vindos de tantos lugares, de carro, de bicicleta, a pé, estamos aqui orgulhosos da nossa afrodescendência. Viemos do fundo da terra, das velhas senzalas, das novas favelas, viemos do samba de roda, estamos chegando do chão dos quilombos”.
Um desafio nos é colocado: a concretização de ações de intervenção nessa realidade. De que forma? Em sua ação evangelizadora presente nos grupos de catequese, nas escolas de formação, nas escolas católicas, nos seminários de formação dos novos sacerdotes, nas diversas pastorais, nas ações litúrgicas, em sua totalidade, a Igreja pode dar um impulso forte na valorização da herança africana no Brasil presente em sua cultura e lutando para não ser silenciada, esquecida, desrespeitada e nem deixada de lado.
A próxima Romaria das Comunidades Negras à Aparecida esse ano vai ocorrer no próximo dia 09 de novembro. Será um momento muito importante para todo o povo católico do Brasil colocar-se sob a proteção de sua Mãe despertar a solidariedade entre seus filhos, presentes na sociedade brasileira, na luta contra o racismo estrutural e intolerante.
Em torno da devoção a Nossa Senhora, lembramos a Confraria de Nossa Senhora dos Homens Negros. Ela representa de modo concreto a luta dos escravos, alforriados e abolicionistas que não podiam frequentar as mesmas igrejas dos senhores. Sob o manto da Mãe de Deus esse povo excluído encontrava amparo. Agora esse mesmo povo coloca-se sob o manto da Mãe Aparecida, também negra.
Edebrande Cavalieri

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