CONSCIÊNCIA NEGRA: ALÉM DO FERIADO

20 novembro, 2024

Pela primeira vez o Brasil celebra como feriado nacional o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Muitas pessoas ficaram surpresas com essa parada nas atividades de trabalho. Além disso, também demonstram desconhecer o motivo de ser celebrado nesse dia e não quando foi decretado o fim da escravatura no Brasil.

Na verdade, há uma luta enorme por parte dos movimentos sociais criando mecanismos legais como a Lei n.º 7.716 de 1989 que trata do preconceito racial, da discriminação racial, de cor, de religião, de nacionalidade como crime passível de punição penal. Ao mesmo tempo, esses movimentos buscam resgatar a história de luta do povo negro no Brasil. Então emerge a figura de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares em Alagoas, morto em 20 de novembro de 1695, na luta contra as forças colonizadoras dos senhores de engenho.

O Dia da Consciência Negra, aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo Presidente Lula, exige de cada cidadão consciente algo a mais que apenas curtir um feriado. Há poucos dias, num campeonato de jogos jurídicos em São Paulo, presenciamos atitudes de alguns alunos da PUC-SP contra colegas da USP, chamando-os de “pobres” e “cotistas”. Essa tendência discriminatória tem sido frequente e nota-se seu aumento na vivência cotidiana das instituições de ensino presentes no ensino fundamental, médio e superior. Trata-se de uma produção social crescente em nossas salas de aula.

Como o racismo se alimenta e se forma? Como combatê-lo? Ele se forma de maneiras bem sutis, quase silenciosas, e chega com o tempo, curto, a manifestar-se com formas agressivas que vimos nos jogos jurídicos, nos campos de futebol, nas salas de aulas, nas ruas, nos condomínios. Ele está enraizado profundamente no público presente nos mais diversos eventos. Quando olhamos ao nosso redor e não vemos pessoas negras, é preciso suspeitar dessa realidade.

Se nas igrejas não encontramos padres, diáconos, pastores, bispos, negros, algo deve ser questionado. Até mesmo se não encontramos crianças e jovens que servem nas celebrações como coroinhas negros/as é preciso discutir isso. Constata-se que ainda falta muito diálogo aberto. Não se fala, não se conversa, não se pensa, sobre a temática. E fica por isto mesmo.

A religião faz parte da construção da sociedade, e por esse motivo, a questão do racismo precisa ser abordada. O silêncio é comprometedor. Os jovens em 2023 levaram uma questão que deveria ser apresentada ao Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude: “Por que a Igreja Católica não fala do racismo”?

Entre os movimentos sociais há uma sensação de “passividade da Igreja em relação a temais raciais”. Talvez seria medo? Hoje as escolas são obrigadas por Lei a discutir em sala de aula essa temática. Surgem disciplinas e estudos transversais sobre história e cultura africanas e afro-brasileiras, relação étnico-racial no Brasil, etc. Esse foi o tema da redação do ENEM 2024. Cresce também o movimento em prol de políticas públicas de combate ao racismo.

Ao mesmo tempo, precisam os educadores e gestores ficar vigilantes diante das ações racistas cometidas nos corredores escolares. E em nossas aulas de catequese, como está essa discussão? Como isso está sendo discutido nas equipes pastorais, na organização da liturgia, por exemplo?

O Magistério do Papa Francisco tem enfrentado de maneira mais firme a questão racial. Ele diz que “não podemos tolerar nem fechar os olhos para qualquer tipo de racismo ou de exclusão e pretender defender a sacralidade de cada vida humana”. Ao mesmo tempo, está preocupado com o crescimento da violência racial, pois nada se ganha com ela e muito se perde.

Na Igreja do Brasil, o momento em que esta questão foi tocada de maneira corajosa e forte está na Campanha da Fraternidade de 1988 com o tema “A Fraternidade e o Negro”, tendo como lema “Ouvi o clamor deste povo”. Segundo Dom Roberto F. F. Paz, “a violência racial no Brasil é uma situação que faz supor uma forte correlação entre as três formas de violência: direta, estrutural e cultural”. É preciso realçar que estamos diante de um “racismo sistêmico” no Brasil e toda a sociedade precisa empenhar-se na luta contra essa violência.

Por esse motivo, tem crescido no Brasil movimentos que caminham na direção da inclusão. De modo especial, o movimento Educafro enviou ao Papa Francisco uma solicitação para que as Escolas Católicas assumam esse protagonismo na educação das novas gerações. Uma das ações concretas é garantir que pelo menos 30% dos alunos em todas as escolas e universidades católicas sejam negros.

Para concluir, gostaria de trazer as palavras de Dom Geraldo Lyrio Rocha quando era presidente da CNBB em nota relativa ao Dia da Consciência Negra dizendo: “Este é um momento de celebração e de compromisso, para chamar a atenção para a realidade de violência que atinge os adolescentes e jovens, especialmente os negros e negras, em nosso país. Fazemos este alerta a partir do princípio de que o cuidado com a vida humana deve atingir todas as suas fases, e é justamente na adolescência e juventude que a vida se encontra, em nossos dias, mais ameaçada”.

Nesse Dia da Consciência Negra pelo menos deveríamos escutar o clamor deste povo!

Edebrande Cavalieri

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