O GRITO DA TERRA E O GRITO DO POBRE

7 março, 2025

A Campanha da Fraternidade deste ano nos coloca diante de uma realidade bem mais ampla e complexa em relação a outros temas tratados. Como podemos pensar numa ecologia integral sem correlacionar a terra com a fraternidade? Como ainda não levamos a sério o Cântico das Criaturas de Francisco de Assis elevado aos céus há 800 anos atrás? Como pensar num tempo quaresmal de conversão pessoal sem abrir os olhos ao redor e perceber que a crise socioambiental também configurada como crise climática requer uma verdadeira conversão ecológica?

Na Romaria das Águas e da Terra, conduzida pelas Dioceses da Bacia do Rio Doce que sofreram os impactos do crime (pecado) ambiental do rompimento das barragens de Mariana, refletia-se em seu percurso que cada um de nós, direta ou indiretamente, somos responsáveis pela devastação da natureza ao longo daquele rio. Como desbravadores impiedosos, nossos antepassados embrenharam-se pela Mata Atlântica retirando madeira para as serrarias moldarem os dormentes da estada de ferro Vitória x Minas. Café e pastagens substituíram a vida pujante daquelas matas, cobrindo-se de fumaça e fuligem.

Em pouco tempo a terra ficou esgotada, o solo rasgado pelos cortes da erosão, os córregos secos em decorrência da destruição de seus olhos d’água (nascentes) e os trabalhadores passaram a buscar outras fontes de sobrevivência. A terra empobrecida vestia-se de cinza e fumaça. Nem mais as chuvas chegavam para apagar tantos incêndios provocados ou não. Até mesmo o gado passou a sentir a secura dos rios e córregos.

Foi nesse contexto que os pobres moradores daquelas terras devastadas, num grande êxodo rural que parecia com os hebreus atravessando o Mar Vermelho, vieram há cinquenta anos atrás buscar moradia e alimento nos entornos das cidades, formando as atuais periferias tão amaldiçoadas pelas ondas de violência e morte. Os gritos de dor aumentaram, bem como a fome. Sem energia, saneamento, casas dignas, foram formando bairros amargurados pela pobreza.

Hoje nesse tempo de Quaresma, cada um de nós poderia percorrer um pouco a história de nossas famílias, de nossos avós ou pais que vieram naquele grande êxodo rural para as cidades, e nos reconciliarmos com nossa história, e pedirmos ao Senhor a misericórdia por tantos pecados cometidos. Sim, somos corresponsáveis pela devastação da natureza, daquela Mata Atlântica, daqueles rios e córregos que secaram, da lama vinda das barragens de Mariana.

Não tem sentido como cristãos ficarmos chorando e lamentando as secas, as queimadas, a fumaça que invade nossas cidades, a água que inunda nossas casas nas chuvas torrenciais, sem realizarmos nenhuma ação que expresse nossa conversão, nossa mudança de vida. A conversão que Deus espera de cada um de nós requer que olhemos todo o conjunto da criação vista por Deus como “tudo era bom”, mas que foi destruída pelo pecado dos homens, e não fazermos nada. De nada adiantam penitências “espiritualistas”, não comprometidas com a mudança, sem uma conversão ecológica profunda.

Pensemos nas futuras gerações. Como teremos uma nova sociedade se não educarmos nossas crianças e jovens hoje? O Pacto Educativo Global convocado pelo Papa Francisco é um caminho que a Igreja nos propõe hoje. Então, nossas escolas católicas, cristãs, públicas e nossos turmas de catequese são chamadas para a formação de uma nova sociedade com as novas gerações. Neste caminho podemos encontrar muitos sinais de esperança nesse tempo de Jubileu. A geração adulta estaria perdida? Não. O que falta para sua conversão?

A opressão ao pobre é um ultraje ao Criador (Pv 14, 31) juntamente com a opressão da terra. A Campanha da Fraternidade deste ano nos convoca para “levantar do pó o necessitado” (1 Sm 2, 8) e das cinzas a terra devastada. Atrás do grito de cada pobre está sufocado o grito de um pedaço de terra que foi destruído. Por isso, somos chamados para uma conversão ecológica como nos dizia o Papa João Paulo II e nos leve ao cuidado da casa comum. A fraternidade enlaça o pobre e a terra constituindo um novo céu e uma nova terra.

Edebrande Cavalieri

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