A fé cristã hoje requer um posicionamento mais firme e concreto contra o crescente número de conflitos internos em cada país e externos, com outros Estados. Até a guerra entre Rússia e Ucrânia, havia 169 conflitos, o que leva o Papa Francisco a chamar de “Terceira Guerra em Pedaços”. O recente conflito envolvendo Israel e Irã, inclusive com a entrada dos Estados Unidos levando sua arma mais poderosa para bombardeio subterrâneo, nos mostra que há uma tendência entre os diversos atores externos de apoiar uma das partes. Isso já nos mostrou no passado das duas Guerras Mundiais que a formação desse tipo de aliança é o passo decisivo para a deflagração de uma guerra mundial entre dois blocos.
Pensando nesse cenário sombrio, cheirando à pólvora, podemos nos debruçar sobre a Doutrina Social da Igreja e meditar sobre esse Magistério tão fundamental para a fé cristã diante de cenários bélicos. Um dos documentos mais importantes e mais atuais a respeito dessa questão é a Encíclica do Papa João XXIII, publicada em 11 de abril de 1963, denominada de Pacem in Terris: a paz de todos os povos na base da verdade, justiça, caridade e liberdade.
A Igreja vivia nesse momento num contexto de “Guerra Fria” envolvendo dois blocos antagônicos controlados respectivamente pelos Estados Unidos e União Soviética. O terror das bombas atômicas lançadas durante a II Guerra Mundial sobre o Japão era a grande ameaça para a sobrevivência de toda a humanidade. Esse contexto é bem atual, vendo o conflito entre Israel e Irâ com a intervenção norte-americana. Estamos na “era atômica” em seu mais alto grau de conhecimento e tecnologia. Não é possível pensar que hoje a guerra atômica seja um meio apto para ressarcir direitos violados, ameaças latentes. Basta vermos a quantidade de países que possuem bombas atômicas pelo mundo afora e tantos outros que dominam a tecnologia para sua produção em pouco espaço de tempo.
Qualquer conflito bélico deixa o mundo pior do que o encontrou, nos diz o Papa Francisco. A guerra é um “fracasso da política e um fracasso da humanidade”. A Encíclica Pacem in Terris constata (cf nº 109) como é doloroso ver estados economicamente mais desenvolvidos fabricarem gigantescos armamentos, gastando somas enormes de recursos materiais e energias espirituais, impondo aos cidadãos enormes sacrifícios enquanto “tantas nações carecem de ajuda indispensável ao próprio desenvolvimento econômico e social”.
A corrida armamentista não se justifica como meio para a paz com a produção de um equilíbrio de forças. “Se uma comunidade política produz armas atômicas. Isso faz com que outras comunidades políticas se empenhem em aumentar o próprio armamento”, nos alerta o Papa João XXIII. “Quem não possui arma atômica vai empenhar-se em preparar semelhantes armas, com igual poder destrutivo”, completa o Papa.
A Doutrina Social da Igreja, ao falar de paz, não romantiza a questão. Ela nos alerta que a “guerra de agressão é intrinsecamente imoral”. Nada a justifica. E caso isso aconteça, é dever da humanidade proteger os inocentes, dar ajuda humanitária de modo que a população civil afetada seja amparada e que se abram as portas para uma das categorias mais vulneráveis na guerra, os refugiados.
A tarefa cristã de natureza evangélica não se enquadra em ações que manifestam adesão a um dos lados do conflito, muitas vezes ostentando símbolos, mas o compromisso de ser uma “centelha de luz, um foco de amor, um fermento para toda a massa”, conclui a Encíclica. A paz não é privilégio de poucos, mas um bem comum universal.
A luta pela paz implica em estancar a corrida armamentista. Se a humanidade conseguisse barrar a fabricação de armas em um ano, se conseguiria resolver o problema da fome no mundo. Seria ingênuo pensarmos que, com o advento da energia nuclear, conseguiríamos resolver as controvérsias entre as nações através do recurso às armas.
Por fim, o grito mais alto para atingir a consciência de cada pessoa, realizado pela Encíclica de João XXIII: “Eis porque a justiça, a reta razão e o sentido da dignidade humana terminantemente exigem que se pare com essa corrida ao poderio militar, que o material da guerra, instalado em várias nações, se vá reduzindo duma parte e doutra, simultaneamente, que sejam banidas as armas atômicas” (cf. n.º 112).
Esse é o Grito Profético da Igreja para os dias atuais!
Edebrande Cavalieri
Foto de capa: Canva

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