ENTRE A ALDEIA GLOBAL E A TORRE DE BABEL

24 julho, 2025

Aldeia Global e Torre de Babel são duas metáforas muito significativas a respeito do desenvolvimento tecnológico e seus impactos na sociedade. O texto bíblico que relata o mito da torre está em Gênesis 11 e apresenta uma humanidade que falava uma só língua. Mas um grupo ambicionava ter seu nome honrado por todos e jamais disperso pela terra. Por isso, decidiu construir uma torre que chegasse aos céus. Mas o Senhor, percebendo as intenções ilimitadas desses homens falando uma só língua, começou a fazer com que a língua deles começasse a se diferenciar de modo que já não se entendiam mais.

A outra metáfora, aldeia global, foi cunhada por Marshall McLuhan, falecido em 1980, mostrando como o avanço tecnológico especialmente nos meios de comunicação vai encurtando distâncias transformando o mundo como se fosse uma pequena aldeia onde todos estão mais próximos e interligados. Será que hoje é assim mesmo? O que estas metáforas representam?

A evolução tecnológica foi muito rápida, e tudo aparece instantaneamente em nossas mãos através de um simples smartphone. Nunca tanta informação à nossa disposição. Seria essa a revolução maior dos tempos atuais? Realmente conseguimos construir uma aldeia global ou caímos numa torre de babel?

O Papa Leão XIV, seguindo a intuição de outro Papa que deu início à Doutrina Social da Igreja publicando a Rerum Novarum, logo após a sua posse, enfatizou que a Igreja é chamada a responder a “outra revolução industrial e ao desenvolvimento da inteligência artificial”. Estaríamos diante de uma Res Digitalium (Das coisas digitais). Que coisas seriam? Seriam aquelas relativas aos novos modelos tecnológicos?

Um grande estudioso dessa questão hoje é Dominique Wolton. Para esse sociólogo, a grande revolução não está na informação, mas na comunicação. As mensagens podem chegar aos milhares em nossas mãos, porém sem “relação” de nada valem. Produção e distribuição de informação é muito fácil e cada vez mais perigoso com o advento da inteligência artificial. Mas onde tudo isso chega? Como ocorre a sua recepção nas mesmas mãos que abraçam a tecnologia? Wolton conclui que sonhávamos com uma aldeia global, mas caímos numa torre de babel. Já não nos entendemos mais e estamos nos dispersando!

Para uma verdadeira comunicação, a presença do outro que recebe a mensagem é essencial. Quem é esse outro que recebeu nas próprias mãos um mundo caótico de mensagens? Criamos tantas redes e em apenas um click, executado com um dedo apenas, compartilhamos tudo o que chegou às nossas mãos e quase sempre nem atenção damos a seus destinatários. Quem são eles? Será que desejam receber esse tanto de informações e até fake News?

Nesse processo de convivência digital pode ser que estejamos mais compatíveis com a Torre de Babel, juntos e indiferentes, com um modelo de convivência que desaba a qualquer click. Sem uma verdadeira comunicação, com uma linguagem que nos faça entender o outro, nosso modelo de convivência que parece uma “aldeia” desaba facilmente. Perdemos a confiança e a convivialidade.

A recuperação dos verdadeiros processos comunicativos em tempos digitais exige que nos tornemos humanos recuperando de início a civilidade. Respeito e liberdade do outro são pontos fundamentais da civilidade. A Torre de Babel atual nos leva a não mais nos interessarmos pelos outros a ponto de, entre nossos dedos tocando no smarthphone, não haver lugar para um simples “bom dia”, um “como vai”. É preciso uma “releitura das coisas digitais” e o compromisso para a construção de uma bela e santa fraternidade humana, onde todos possam se reconhecer como pessoas.

Edebrande Cavalieri

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