COMUNHÃO E FRATERNIDADE

2 dezembro, 2025

A visita do Papa Leão XIV à Turquia e ao Líbano reveste-se de uma importância central para a vivência da fé cristã: o investimento na unidade da fé. As divisões que ocorreram na história da Igreja marcaram um caminho escandaloso que incluiu até guerras e não apenas divisões doutrinárias.

Contudo, a maior parte das divisões ocorreu por motivos relativos ao exercício do poder. A religião foi usada e abusada em prol das divergências políticas. Há um risco de se usar o altar para palanque eleitoral ou divisão política. Daí, o grande escândalo das divisões que marcaram e marcam a história da Igreja.

Na Turquia e no Líbano, o Papa Leão XIV tem presente a missão evangélica de construção de pontes de amizade, de ecumenismo e de diálogo inter-religioso entre católicos, ortodoxos e sua pluralidade de Igrejas e muçulmanos. A construção de pontes tem como alicerce a reconciliação diante de tantas marcas ofensivas e mortes nas guerras religiosas. O cenário geopolítico dessa viagem nos mostra um conjunto de povos que busca a paz e sofre com tantas guerras.

A igreja deve ser, conforme pedido do próprio Jesus Cristo, sinal de paz e luz do mundo. A plena comunhão em Jesus Cristo é o fundamento da fé cristã e somente ela é garantia da realização da fraternidade entre todos os seres humanos.

Os povos ainda estão muito marcados por divisões e, nem sempre os cristãos e católicos podem servir de exemplo de fraternidade. Neste sentido, o Papa Leão XIV disse de maneira explícita na cidade onde se realizou o I Concílio Ecumênico em 325 d.C.: “O uso da religião para justificar a guerra e a violência, assim como qualquer forma de fundamentalismo e fanatismo, deve ser rejeitado com veemência, enquanto os caminhos a seguir são os do encontro fraterno, do diálogo e da colaboração”.

A guerra e a violência não ocorrem apenas entre religiões diferentes como cristianismo e islamismo, mas dentro das próprias comunidades cristãs. A polarização política tem contribuído imensamente para dividir comunidades eclesiais, colocando até bispos contra bispos, padres contra padres. Não está em jogo algum dogma religioso, mas apenas posições político-ideológicas alimentadas por interesses particulares.

Por isso, o chamado do Papa para que vivamos reconciliados e assim podermos dar testemunho crível do Evangelho de Jesus Cristo. O desejo de comunhão plena entre todos os que creem em Jesus Cristo é o caminho da fraternidade entre toda a humanidade.

Em seu discurso aos jovens que se encontravam no Líbano, provenientes também de países vizinhos, formando uma verdadeira multidão que se assemelhava a uma mini Jornada Mundial da Juventude, o Papa disse: “Talvez lamentais ter herdado um mundo dilacerado por guerras e desfigurado por injustiças sociais. Não obstante, há esperança! E em vós reside esta esperança. Vós tendes tempo! Tendes mais tempo para sonhar, organizar e realizar o bem. Vós sois o presente e, nas vossas mãos, já se está a construir o futuro! E tendes o entusiasmo para mudar o curso da história! A verdadeira resistência ao mal não é o mal, mas o amor, capaz de curar as próprias feridas, enquanto se curam as dos outros”.

A celebração dos 1.700 anos do I Concílio Ecumênico em Niceia (Iznik) nesta viagem do Papa Leão XIV expressa o apelo à unidade da fé cristã para os dias atuais num contexto marcado por tantas guerras. A intenção comemorativa reveste-se de um apelo à paz “em circunstâncias muito complexas, conflituosas e incertas”. Aos jovens se coloca o desafio da promoção da paz com um “contínuo recomeçar”, sem medo diante das “aparentes derrotas e sem se deixar abater pelas desilusões”, olhando para o futuro e “abraçando todas as realidades com esperança”.

O Patriarca de Antioquia dos Maronitas, ao final da visita do Papa, disse que esta viagem trouxe uma mensagem de paz e esperança e, acima de tudo, “serviu para mudar os corações”. A construção da comunhão requer de maneira fundamental o estabelecimento de uma convivência fraterna. A fraternidade é o caminho mais seguro para a paz e para a comunhão na Igreja.

Edebrande Cavalieri

Foto de capa: @Vatican Media

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