A celebração do Natal é repleta de histórias e símbolos. Ao mesmo tempo, o sistema econômico apoiado no comércio aproveita esse evento religioso e cultural para despejar sobre as pessoas um conjunto de objetos que seduzem, principalmente as crianças, induzindo-as ao consumismo desregrado.
O principal dado da fé fica quase sempre relegado à indiferença. O Natal assim passa a ser celebrado como uma festa, um evento, que reúne as pessoas e alimenta a confraternização. Isso é muito bonito, contudo não reflete o fundamento da fé cristã. Qual é o sentido profundo do Natal?
Somente vamos encontrar esse dado central de nossa fé se o colocarmos no contexto da História da Salvação. É bem longo esse caminho. Não é apenas uma história de acontecimentos humanos, mas a história que se inicia com a criação do mundo por Deus e o pecado que acometeu a todos os homens. Desde então, os seres humanos passaram a caminhar formulando inúmeras perguntas sobre o seu destino na terra, sobre os sofrimentos, sobre suas angústias e seu desejo de felicidade.
A pergunta mais angustiante se refere ao fato de termos nascido para vida e, no fim das contas, o que nos espera é a morte. Onde está Deus? É a pergunta que o homem faz diante da morte. Qual é o sentido último de nossa existência? A História da Salvação, apresentada no Antigo Testamento, nos mostra essa angústia dos homens, suas buscas de ídolos como o bezerro de ouro, e a manifestação de Deus ao longo dessa mesma história. Parecia muito, mas Deus não criou o mundo e dele se afastou. Para Santo Tomás de Aquino, a criação não é um “big bang”, mas uma “criação contínua” no sentido de sua conservação. Era preciso fazer algo a mais.
Aqui surge o grande mistério do Natal. É o desejo de Deus em chegar mais pertinho dos homens. Como? Gritando nos montes? Falar como os oráculos dos pagãos? O Deus que fez aliança com o povo eleito parecia silencioso demais, distante demais. Porém, Deus precisa falar mais pertinho dos homens. Ele quer estar mais perto da humanidade toda. Os homens tantas vezes se mostraram surdos à sua voz. Como incluir a salvação após o pecado?
“A Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós”. O Natal é Deus que fala da maneira mais próxima possível para cada homem. Não é uma palavra bonita proferida em shows, em palanques, em tantos jogos de luzes. Deus se fez carne e assim irá sofrer conosco. Não justifica ou explica os sofrimentos, mas sofre conosco.
O seu nascimento se dá numa estrebaria. Seu berço de recém-nascido é apenas um coxo para alimento dos animais. Ele se faz alimento desde o nascimento. Ele nasce e passa a viver a mesma aventura dos homens. Somente o cristianismo tem a ousadia de um Deus que se faz carne e caminha com os homens. Morre como todos os homens morrem, da forma mais vil, crucificado. E ressuscita. O mistério da encarnação se completa com a ressurreição. Do contrário, nossa fé seria vã, nos diz São Paulo.
O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, afirma: “O Filho de Deus…trabalhou com mãos de homem, pensou com mente de homem, agiu com vontade de homem, amou com coração de homem. Nascendo da Virgem Maria, Ele se fez verdadeiramente um de nós, em tudo similar a nós, exceto no pecado”.
A grande verdade do Natal é essa: “Não somos mais solitários, mas solidários”, afirma Leonardo Boff. Deus se faz solidário com a criação. O Natal muda tudo na História da Salvação: temos um Deus encarnado. Não é mais um profeta. Esse Deus entra em nossas vidas e, por isso, nossa esperança não é inútil ou vã.
O Filho encarnado no Natal nos dá motivo para a alegria, a esperança, a fraternidade, a confiança, a solidariedade. O Natal representa o ponto forte de nossa total confiança no Pai. Contudo, isso só terá sentido se Ele nascer em cada coração. Não vamos cantar parabéns para o Menino que nasceu em Belém. Vamos nos alegrar com o Menino que nasce em nosso coração. Se Jesus Cristo não nascer em cada um de nós no Natal, pouco ou nenhum sentido terá a festa comemorativa de seu nascimento em Belém.
Então, podemos dizer: feliz é o homem que deixa o Menino Deus nascer em seu coração. Feliz Natal!
Edebrande Cavalieri

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