Nestes dias, vivemos dois movimentos intensos da vida social e religiosa. Para um grupo de pessoas é tempo de alegria com o carnaval. Dom Helder Câmara dizia que era a grande alegria popular, “uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida”. E estimulava as pessoas a celebrarem esse momento de festa, pois na “quarta-feira [das cinzas] a luta continua”. Para outro grupo de pessoas, é um momento para retiros espirituais sob a forma de preparação para a quaresma.
Para todos, na quarta-feira de cinzas recomeça a luta diária pelo ganha-pão. Ao mesmo tempo, a Igreja do Brasil, através de seus pastores, nos convoca para outro grande movimento sob a forma de campanha. O livro do Profeta Isaías (capítulo 58) nos mostra qual o jejum que é desejado por Deus: “acabar com as prisões injustas; desfazer as correntes do jugo; por em liberdade os oprimidos e despedaçar aquele jugo; repartir a comida com quem passa fome; hospedar em sua casa os pobres sem abrigo; vestir aquele que se encontra nu; e não se fechar à sua própria gente”.
Foi no ano de 1962, que um jovem bispo recém ordenado, Dom Eugênio Sales, percebendo a enorme precariedade em que vivia o povo da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, junto com alguns padres, iniciou a primeira Campanha da Fraternidade, durante a Quaresma, demonstrando ter compreendido as Palavras das Escrituras que mostram a dupla caridade, para com Deus e para com o próximo. Em dois anos, toda a Igreja do Brasil aderiu à Campanha da Fraternidade como a conhecemos hoje com momentos fortes de espiritualidade quaresmal e campanha de solidariedade com a coleta que ocorre no Domingo de Ramos.
O tema para nossa atenção e reflexão neste ano une “fraternidade e moradia”. Fazendo o repasse em uma paróquia da área pastoral Serra/Fundão, perguntávamos qual era o maior desafio da moradia naquela comunidade eclesial. A resposta veio imediatamente por parte das pessoas que estavam presentes: nosso maior desafio é com a pessoas que nem moradia possuem, são pessoas em situação de rua. No Brasil, temos mais de 365.000 pessoas vivendo em situação de rua.
O desafio pastoral e social se completa com outros números assustadores: 6 milhões de famílias necessitam de uma casa; 26 milhões de famílias moram em situação inadequada; 16 milhões de pessoas equivalendo a 8,1% da população do país vivendo em favelas e comunidades urbanas.
Do ponto de vista social, como se caracteriza essa realidade? O problema da moradia no Brasil tem classe social, tem raça e gênero e também é um problema ambiental. São famílias que ganham até dois salários mínimos, formadas por pessoas pardas e pretas e chefiadas por mulher. São essas famílias que sofrem como vítimas das catástrofes e dos crimes ambientais.
A moradia é a porta de entrada de todos os direitos. Através de uma moradia digna se garante o acesso ao emprego, à justiça, à educação e à saúde, com qualidade de vida e convívio social. Moradia é o lugar onde repomos as energias, cultivamos relações e celebramos a vida integrando-nos com a sociedade e com nossa casa comum, o mundo. Sem moradia, somos desterrados.
Há muito tempo nossas comunidades cantavam uma música chamada de “Balada da caridade”, regravada pelo padre Reginaldo Manzotti. Ela foi cantada em alguns encontros de “repasse da Campanha da Fraternidade” em nossa arquidiocese. Vamos dar uma refletida em sua letra composta em 1972?
A chuva fria que cai no telhado vai entrando pelas frestas do barraco fazendo lama pelo chão. Casa coberta de palha ou de pequenas tabuinhas e de chão batido, sem cimento, com paredes de estuque. Em uma comunidade, perguntávamos quem tinha experiência desse tipo de casa em que a chuva vai molhando camas e pessoas e o chão vira lama. Se para uns a chuva fria parece uma cantiga de ninar, para outros é sofrimento. Como posso ter sono sossegado vendo assim um meu irmão?
Até o vento que assovia parecendo uma melodia de ninar representa angústia para muitos irmãos. Esse mesmo vento desmancha o barracão. Como posso ser feliz se ao pobre fechei o meu coração? Nos questiona a letra da música.
Com a quarta-feira de cinzas iniciamos a quaresma e também a Campanha da Fraternidade convocada pelos nossos pastores, os bispos. Na verdade, é o próprio Jesus Cristo em seu Evangelho que nos propõe como caminho de salvação a dupla face da caridade: com Deus e com o próximo. O Papa Leão XIV nos diz que “há um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres”.
É tempo de quaresma e também é tempo de uma grande balada da caridade!
Edebrande Cavalieri

por 