A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em seu último boletim de Análise de conjuntura, mês de fevereiro de 2026, traz uma epígrafe do filósofo italiano Antônio Gramsci, que viveu nos tempos do fascismo das décadas de 1920 e 1930 chegando a permanecer preso durante 11 anos. Essa epígrafe está assim traduzida: “O velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer; nesse interregno, surge uma grande variedade de sintomas mórbidos”.
Não era uma frase de efeito, mas um diagnóstico daquele momento de altíssima pressão política da extrema direita fascista com a perseguição a todos os opositores ao regime. Grande parte dos escritos de Gramsci foi feita nas celas da prisão. Os mesmos soldados que rezavam ajoelhados na Praça São Pedro também eram capazes das maiores atrocidades contra os opositores.
Naquele cenário pós I Guerra Mundial, o velho e o novo estavam misturados e confusos; inúmeros sinais de doenças da civilização por todos os lados. Sintomas mórbidos! Para muitos, a falência da esperança era o maior de todos.
Olhando para o contexto atual, é preciso termos uma visão profunda e crítica sobre os desafios e as transformações do cenário atual, confuso e doentio. O desafio é compreender as dinâmicas sociais e políticas do nosso país e do mundo a partir de uma perspectiva ética e cristã. Quem se propõe a caminhar nesses mares tão revoltos?
A contribuição do Magistério da Igreja que se desenvolve a partir da Encíclica Rerum Novarum de 1891, do Papa Leão XIII, que é o início da Doutrina Social, nos permite alicerçar nossa análise política. Não tem como ignorar a Doutrina Social da Igreja. São inúmeras Encíclicas produzidas nos mais diversos contextos históricos. Por outro lado, como cidadãos é preciso enfrentar os desafios da ordem política, cada dia mais confusa e tenebrosa. Não há outro caminho! Não há salvador da pátria! É por meio da política que são solucionados os problemas humanos de cada país e da humanidade inteira.
Disso decorre uma questão: é possível uma síntese entre a perspectiva cristã e o caminho político? Para muitos, totalmente impossível. O Papa Francisco, na Encíclica Fratelli Tutti, de 2020, dizia: “Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias”. O caminho ético-cristão pode ser também o percurso de uma espécie de boa política? Só depende de cristãos corajosos, capazes de enfrentar o mundo sendo sal da terra e luz do mundo.
Em tempos tão confusos e repletos de eventos turbulentos, corre-se o risco de se perder a cabeça. Nos momentos mais difíceis da história, a Igreja deu sua contribuição alimentando a esperança do povo. É preciso vestir o manto da esperança, do verbo “esperançar”– na autonomia, na emancipação, na vida e na dignidade de todas as pessoas. A espera vive a esperar “esperançando”, com sal e luz, em meio à terra insípida e na noite escura do tempo.
A esperança tem relação com a transcendência que se baseia na capacidade de superação, de poder ir além dos limites humanos, cuja origem é divina e religiosa. Há um rosto que reflete a luz divina! E este rosto é do Menino que chegou para nossa esperança. Ele é a ligação entre a humanidade e Deus – ligação ativa, sublime e concreta. “Ele veio morar entre nós”. É a espera da esperança transformada em ser humano, pois divino era desde sempre.
Não se trata da espera que algo aconteça entre os eventos humanos. Essa é a esperança comum que temos no dia a dia. Este algo pode não acontecer. A esperança de cunho antropológico e psicológico é bem semelhante a um otimismo pela vida. É importante, porém não é a esperança cristã, uma das três virtudes mais elevadas de nossa fé.
A esperança cristã é uma certeza firme e confiante nas promessas de Deus. É uma âncora que sustenta a nossa fé em meio às piores adversidades. É uma certeza de algo que se aguarda e decorre da fidelidade de Deus. Muitas vezes, podemos até perder a esperança mundana, comum, porém se acreditamos que Deus é fiel, nossa fé nos exige que coloquemos sempre essa esperança como guia de nossa vida. Do contrário, a fé se torna fantasia!
Edebrande Cavalieri

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