UM ANO DO PONTIFICADO DE LEÃO XIV

6 maio, 2026

No dia 8 de maio completa-se um ano do pontificado de Leão XIV, um ano da primeira saudação tão esperada pelo mundo inteiro. “A paz esteja convoco”! Chegou a mensagem referindo-se à paz de Cristo ressuscitado, “uma paz desarmada e que desarma, que é humilde e perseverante. Que vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente”.

Um ano depois chegamos a uma situação mundial ainda mais carente desse bem que vem de Deus, a Paz. Se até o mês de março desse ano o Papa parecia escolher as palavras, evitando comentar assuntos da geopolítica mundial, a partir da declaração da guerra contra o Irã, o Papa Leão XIV tornou-se um crítico declarado de todo tipo de guerra ou conflito. De maneira muito firme e serena sempre afirma que o papel da Igreja é pregar o Evangelho e ele o faz em nome de Jesus Cristo.

Mas os Evangelhos sempre incomodaram desde os tempos apostólicos e incomodam também hoje. Muitos instrumentalizam a Bíblia usando apenas versículos isolados do Antigo Testamento, com tons morais, e quase desconhecendo o Evangelho de Jesus Cristo. Essa é a Bíblia desejada por tantos governantes nos dias atuais. Também é desejada por muitos batizados que não querem ser incomodados. Mas, a pregação do Evangelho de Jesus Cristo sempre irá incomodar. Por isso Ele foi crucificado. Tem governantes muito incomodados com o Pontífice, a ponto de chamá-lo de “fraco” e “desastroso”.

Como Santo Agostinho que viveu os tempos da queda do Império Romano com Roma sendo saqueada pelos Visigodos, emerge a pessoa de Leão XIV com posição radical contra a guerra. “Continuarei a me manifestar contra a guerra. Muitas pessoas foram mortas. Alguém precisa se manifestar”. Sua postura não é colocar a Igreja em conflito com algum Estado em particular, mas garantir que a Igreja “lute pela a paz, que procure sempre a caridade, que procure sempre estar próxima, sobretudo dos que sofrem”.

A realidade histórica desse momento exige do Papa um posicionamento mais explícito sobre a desordem internacional que aumenta a cada dia. Ao ser chamado de “fraco”, o tornou muito forte no cenário internacional com uma mensagem clara contra a guerra, a desigualdade, a tirania do poder e o uso indevido da religião para justificar a violência.

Na viagem à África, ele alertou sobre os impulsos das nações ricas que ameaçam a paz e denunciou as violações do direito internacional pelas potências classificando-as como “ambições neocoloniais”. E foi ainda mais claro ao dizer que o mundo “está sendo devastado por um punhado de tiranos”.

Em um ano de pontificado, percebe-se que o Papa Leão XIV tornou-se uma figura muito poderosa e um grande líder no cenário político mundial. Sua experiência missionária no Peru e como Prior da Ordem dos Agostinianos fazem dele uma liderança da humanidade, carente dos bens da paz e da justiça. Contudo, não podemos resumir esse ano de pontificado apenas a esses desafios provocados pela Terceira Guerra em pedaços como dizia o saudoso Papa Francisco.

Leão XIV não acredita em lideranças personalistas e populistas. Ele exerce um poder no Vaticano pautado na força das instituições. Nesse sentido, conseguiu reunir em torno de si mais bispos e cardeais e com eles realiza consistórios para discutir a caminhada da Igreja. Para o mês de julho está prevista nova reunião reforçando o caminho sinodal da Igreja. Aos cardeais ele disse: “Estamos com vocês e somos próximos de vocês”.

Nesse ano, evitou tomar posições em assuntos mais delicados como o papel das mulheres na Igreja ou dos homossexuais. Busca uma estratégia de coesão na Igreja e um governo de maior união interna.

Ao se identificar como “filho de Santo Agostinho”, Leão XIV não nega sua continuidade com o Concílio Vaticano II e com o pontificado do Papa Francisco, porém os reinterpreta sob a moldura claramente agostiniana. Cristo está no centro dessa visão, servindo como critério para discernir as sombras da história e a missão da Igreja nesse mundo sendo sinal de luz.

O Papa Bento XVI dizia que sua primeira encíclica Deus caritas est, bem como a Spe salvi, devem muito ao pensamento de Santo Agostinho. Tanto naquela época como agora, “a humanidade precisa conhecer e, sobretudo, viver esta realidade fundamental: Deus é amor e o encontro com Ele é a única resposta para as inquietações do coração humano”.

Ao longo desse primeiro ano de pontificado, as reflexões de Leão XV tomam a Cidade dos Homens sob a ótica de sua condição espiritual, de luz e trevas. A incompreensão da mensagem de Cristo é o traço central do mundo contemporâneo. Essa incompreensão decorre de duas atitudes. De uma rejeição aberta e declarada dos contextos secularizados e agnósticos e a aceitação superficial da mensagem cristã, que reduz Jesus a uma figura inspiradora, um Coach, um super-homem. Estamos diante de um ateísmo funcional, mesmo entre pessoas batizadas.

A missão da Igreja é testemunhar com alegria a fé em Cristo num mundo, que mesmo distante e afastado, lhe é confiado. Em seu brasão episcopal, mantido como Papa, está escrito: In illo uno unum – Nele que é um [Cristo], somos um. Trata-se de um lema, a missão da Igreja para o mundo atual é essa.

Edebrande Cavalieri

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