Esse é o grito profético do Papa Leão XIV expresso na mensagem para o 60º Dia das Comunicações Sociais, celebrado nesse domingo dia 17 de maio. Isso significa que a humanidade está perdendo sua identidade de pessoa, seus traços essenciais, as marcas do Sagrado presentes no homem. O rosto é tão importante que em diversos aplicativos que usamos nos smarthphones o reconhecimento fácil é a prova mais certa de que é você mesmo que está inserindo ou solicitados dados. A fotografia de nossa face é prova de identidade. O Papa nos diz que a “voz e o rosto são o reflexo indelével do amor de Deus”. Cada um de nós é único. Somos irrepetíveis. Mas, podemos perder essa riqueza identitária?
Há riscos muito fortes provocados pela revolução tecnológica agora sob o controle dos algoritmos da inteligência artificial. Podemos, conforme o Papa, sermos definidos antecipadamente e perder nossa vocação insubstituível que emerge, não das máquinas, mas da vida, e se manifesta na comunicação com os outros. Alguns pilares da civilização humana correm o risco de serem modificados radicalmente. Junto aos rostos e nossas vozes, tem os pilares da sabedoria e do conhecimento, da consciência e da responsabilidade, da empatia e da amizade. Esses pilares podem ser invadidos para interferir nos ecossistemas de informação e comunicação, trazendo consequências irreparáveis nas relações entre as pessoas.
Alguém pode dizer que o alerta do Papa parece até um pouco catastrófico. Contudo, a velocidade em que acontecem as mudanças em nosso cotidiano, em nossas vidas, em nossas formas de trabalho e comprar, é muito grande. Quando a gente fica um pouco desconectado da internet, ao retornar, parecem anos transcorridos. Nossas maquininhas, presas entre as mãos, mudam a cada dia. Parece que a economia não mais se sustenta sem essas mudanças. Sobreviver tornou-se sinônimo de mudança rápida.
Na visão do Papa, “o desafio não é tecnológico, mas antropológico. Por isso, preservar rostos e vozes é preservar nós mesmos”. Os homens de hoje, especialmente aqueles que conduzem processos formativos, têm a missão de revelar para nós mesmos os pontos críticos, as opacidades e os riscos que essa revolução esconde por trás da sedução e do status. Ter uma consciência crítica a respeito do mundo que nos rodeia e nos acumula de tecnologia é essencial para os dias atuais. Até para a saúde mental é indispensável essa visão crítica.
Somos induzidos a maximizar o envolvimento nas redes sociais que gera muito lucro para as plataformas e buscamos recompensas imediatas de nossas postagens mediante curtidas e compartilhamentos. Tornamo-nos escravos dessa forma de relacionamentos, sem rostos e sem voz. Sem corpos que se abraçam e se olham, caímos numa espécie de “solidão digital”. No máximo, fechamo-nos nas “bolhas de consenso fácil ou de ódio rápido”. Nesse caminho, agrupamo-nos em polos que se excluem e de matam. As relações tornaram-se polarizações fazendo desaparecer nossa capacidade de empatia.
Desta forma, vamos consumindo nossas capacidades de conhecimento, de nos emocionar e de nos comunicar. Vamos perdendo nossos rostos e nossas vozes, escondendo nossa identidade e silenciando nossa voz.
O alerta do Papa é ainda mais profundo ao dizer que “a tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamentos pode não apenas ter consequências dolorosas no destino dos indivíduos, mas pode também ferir o tecido social, cultural e político das sociedades”. Caberia uma reflexão a cada um de nós, brasileiros: nesse ano eleitoral, como iremos conduzir nossos processos de relacionamentos? Transformando o ódio em capital eleitoral novamente? Permitindo que sejam quebrados nossos laços familiares, nossas amizades, nossos ambientes de trabalho, nossas comunidades eclesiais? Os caciques eleitoreiros que atuam na comunicação com marketing político estão preparando o arsenal de armas informativas em forma de fake News.
Concluindo com Santo Agostinho, pai espiritual do Papa Leão XIV, nesse contexto sócio-político o cristão deveria pautar nossa conduta como busca central da verdade, tendo como Verdade suprema o próprio Deus. A instrumentalização da fé nos dias atuais é campo de desvios profundos de caminho para a verdade. Homens e mulheres de fé não podem perder de vista a função da razão que nos auxilia na compreensão da vida. Ela revela nosso rosto e nossa voz. Agostinho aqui nos perguntaria: olhando para dentro de cada um, em seu coração, é isso mesmo que se quer? É seu desejo ver sua família dividida, suas amizades destruídas e sua comunidade eclesial parecendo uma trincheira de guerra? O rosto e a voz da comunidade dos cristãos revelam sempre a verdade e o amor pela Verdade e pelo nosso próximo.
Edebrande Cavalieri

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