Tradição, fé e memória marcam a celebração de Corpus Christi em Paraju

7 junho, 2026

A tradição dos tapetes de flores, a devoção ao Santíssimo Sacramento e a memória das famílias que construíram a história da comunidade marcaram mais uma celebração de Corpus Christi em Paraju, distrito de Domingos Martins. A festa, reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial do Espírito Santo, reuniu milhares de fiéis neste domingo.

Os tapetes confeccionados com flores naturais transformaram as ruas da comunidade em um grande caminho de fé para a passagem do Santíssimo Sacramento. O trabalho mobiliza moradores durante todo o ano e mantém viva uma tradição centenária herdada das famílias de origem alemã que colonizaram a região.

Durante a celebração, o arcebispo da Arquidiocese de Vitória, Dom Ângelo Ademir Mezzari, RCJ, destacou o significado espiritual e cultural da solenidade. “A tradição dos tapetes não é pelos tapetes em si, mas pela fé que expressa através desse sinal visível o caminho que Deus faz conosco”, afirmou. O arcebispo também ressaltou o reconhecimento da festa como patrimônio imaterial do Espírito Santo. “É um patrimônio guardado no coração, na vida, nas famílias e na fé do nosso povo”, disse.

A história da comunidade se mistura com a própria origem da celebração em Paraju. A atual paróquia completa sete anos, mas a presença católica na localidade remonta ao fim do século XIX. Segundo a moradora Florinda Maria Stein, a comunidade começou em 1889, quando as primeiras famílias alemãs chegaram à região.

Florinda Maria Stein – 90 anos

“Ali onde hoje é o cemitério foi construída uma pequena capela de madeira, onde aos domingos as famílias se reuniam para rezar”, recorda Florinda. Filha de lideranças da antiga capela, ela cresceu acompanhando o trabalho do pai na Igreja e assumiu, ainda jovem, responsabilidades na comunidade.

Florinda lembra que, após a morte repentina de seu pai, Guilherme Stein, então presidente da comunidade, Dom João Batista da Mota e Albuquerque a incentivou a continuar a missão do pai. “Ele colocou a mão no meu ombro e disse que eu continuaria fazendo o que meu pai fazia, com a ajuda da comunidade. Naquele tempo, mulher quase não tinha voz na Igreja, mas toda a comunidade ficou de pé e me apoiou”, contou emocionada.

A tradição dos tapetes de flores também nasceu da criatividade e da fé do povo local. Segundo Florinda, inicialmente as ruas eram ornamentadas apenas com palmeiras e pétalas jogadas pelas crianças durante a procissão. A transformação para os tapetes florais aconteceu em 1946, durante uma missão conduzida por freis alemães.

“Eles ensinaram cada família a fazer um pequeno tapete de flores na porta de casa. A ideia foi crescendo e nunca mais parou”, explicou. Desde então, o cultivo das flores faz parte da rotina da comunidade. “Tudo é programado. A gente trabalha o ano inteiro em função disso”, destacou.

Outro aspecto que marca a tradição de Paraju é a celebração de Corpus Christi no domingo. Florinda relembra que a prática já existia desde os primeiros padres vindos da Alemanha e foi mantida por Dom João Batista da Mota e Albuquerque para favorecer a participação popular. “Quando tentaram fazer na quinta-feira, foi um fracasso. Pouca gente participou. Então Dom João disse: ‘é domingo e continua domingo’”, recordou Florinda.

 

Dom Ângelo também ressaltou o valor da memória e da transmissão da fé entre as gerações. “Nunca nos esqueçamos do caminho que Deus fez conosco. Que as futuras gerações se lembrem da fé dos seus pais e avós e mantenham viva essa tradição”, afirmou.

Ao final da celebração, a procissão percorreu os tapetes preparados pela comunidade, numa tradição que une fé, cultura e identidade do povo de Paraju há mais de um século, 116 anos.

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