POR UMA CIVILIZAÇÃO DO AMOR

8 junho, 2026

Em sua quarta viagem apostólica à Espanha e Ilhas Canárias, o Papa Leão XIV, em seu primeiro discurso em território espanhol, refletiu sobre a busca da verdade que cada homem traz em seu interior e a necessidade de reconciliação diante de um mundo marcado pelos conflitos, narrativas divisórias e polarizadas.

Nesse discurso incisivo dirigido às autoridades presentes no Palácio Real de Madrid, o Papa alertou sobre a tentação de líderes “atiçando o fogo das polarizações” para ganharem popularidade e eleições, disseminando narrativas que dividem e polarizam a sociedade. Lembra-lhes as raízes cristãs de seu país e aponta em sua reflexão o caminho da busca da verdade. Para onde ir?

De maneira implícita, traz o pensamento de Santo Agostinho que viveu os tempos da decadência do Império Romano no século IV. A escuridão dos tempos atuais que toma a razão e violenta as emoções deve nos levar a uma volta ao nosso interior, ao nosso coração, onde estão presentes as pegadas de Deus, conforme nos ensinou há tanto tempo o Santo de Hipona (África).

É em nosso interior que iniciamos a busca pela verdade e, transcendendo o nosso eu pessoal, vamos nos elevando pouco a pouco até a Verdade superior, Deus. Foi no ato criador do Deus Uno e Trino que ficaram as marcas do divino em nossa alma, em nosso ser. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. As marcas do amor e da unidade, da caridade e da verdade, que constituem a Trindade foram deixadas em nosso ser.

Esse mesmo Deus também envia seu Filho, Jesus Cristo, para nos salvar. O Deus que cria também é o Deus que nos traz a salvação com sua paixão, morte e Ressurreição. É a maior prova de amor!

Aqui está o motivo central de nossa fé, a motivação da esperança em tempos de escuridão. A nossa carência de amor e verdade não pode ser suprida pela busca externa. Por isso, o Papa nos diz que a escuridão da razão e o medo do desconhecido não podem prevalecer promovendo a “desorientação e a sensação de já não termos mapas para nos guiar”. No coração da humanidade existe um profundo desejo de paz, apesar de tantos conflitos e divisões.

Nossa cultura e as diversas instituições, especialmente as escolas e as Igrejas/Religiões deveriam investir na formação de pessoas capazes de cultivar a interioridade e a busca da verdade/Verdade, e não a busca do sucesso e da prosperidade. Contraditoriamente, temos até uma teologia da prosperidade fazendo sucesso nos púlpitos das igrejas. Esse é um caminho equivocado na busca da verdade!

O Papa também lembrou aos espanhóis duas das maiores figuras de seu país: São João da Cruz que escreveu Noite Escura mostrando o esforço ativo e desapego para alcançar a união com Deus e Santa Teresa de Ávila com Castelo Interior, obra em que descreve o caminho da alma para essa mesma direção espiritual. Foram dois dos maiores místicos da Igreja que ensinaram a descobrir a presença de Deus nos momentos de escuridão e incertezas.

Em meio às noites escuras da história é preciso aprender a reconhecer a luz que aparece entre as diversas realidades. Nesse caminho é fundamental reconhecer que, no interior de cada pessoa, há um sentimento que clama para o alto. Por isso, um novo conhecimento da pessoa e da sua dignidade inviolável são urgentes e necessários hoje para se construir uma civilização do amor, uma Cidade de Deus diria Santo Agostinho.

Contudo, essa civilização do amor exige uma mudança de prioridades nos investimentos públicos e privados. É necessário “dar um salto qualitativo, uma mudança de rumo, destinando às escolas e universidades e à pesquisa, às comunidades locais e à sociedade civil a maior parte dos investimentos. Os países e seus líderes governantes invertem essa prioridade destinando a maior parte do dinheiro público para a fabricação de armas e exercícios militares. Essa lógica precisa ser alterada se quisermos construir outra “cidade”. Do contrário, permaneceremos na Babel dos tempos modernos.

O Papa nos diz que “a verdadeira segurança não nasce da lógica dos muros e das armas”. A paz se constrói por meio da verdade/Verdade, do diálogo e da educação. É através da arte de amar que iremos construir uma civilização de paz e felicidade para todos.

Em uma de suas cartas, Santo Agostinho dizia que “a plena segurança só é possível quando depositamos confiança em algo maior que nós mesmos”. Portanto, é vã nossa tentativa de nos apoiar em coisas materiais, no controle do mundo através das armas ou nas certezas terrenas. Os impérios têm data de validade, tempo de queda. A Verdade sempre prevalecerá!

Edebrande Cavalieri

Foto capa: @Vatican Media

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