O Papa Francisco comparava a fé a um jogo de basquete e o Papa Leão XIV, agora nos jogos da Copa do Mundo, nos diz que a dinâmica de campo representa uma lição para as relações humanas, pois “quem não sabe passar a bola, mesmo que tenha talento, ainda não entendeu o jogo”.
Tanto o jogo de basquete como a fé exigem “olhar para o alto”, em vez de ficar preso ao chão. É preciso transcender o piso duro da realidade para elevar-se aos céus. Quantas vezes um jogador de basquete teve que realizar esse movimento de elevar-se do chão e olhar para o alto? Quantas vezes suas mãos se movimentaram para os céus focando na cesta?
Assim também é nossa fé: um permanente elevar-se aos céus, transcender o chão da realidade, elevar as mãos para Deus como uma criança que pede colo, que deseja chegar ao colo da mãe. A fé é esse desejo de querer ficar no colo de Deus. Por isso, alguns teólogos falam em Deus pai e Deus mãe. Ou, como nos diz Jesus Cristo na parábola que o Bom Pastor pega a ovelha caída e a coloca nos ombros. A fé exige esse grau de certeza e confiança. Do colo de Deus ou dos ombros do Bom Pastor ninguém cai. Mas, nos alerta o Papa Francisco, assim como o esporte é “um medicamento contra o individualismo”, a fé também exige romper o círculo individualista, egoísta e autossuficiente.
Nesse ponto, o Papa Leão XIV nos chama a atenção lembrando que a vida não deve ser encarada como uma disputa individual em busca de destaque. Felizmente superamos aquela imagem que nos impelia para um movimento individualista da salvação como um mandamento de “salvar a própria alma”. Aqui o movimento de transcender se dá no rompimento com a tentação de atuar individualista, em autopromoção e de querer aparecer. Quem não souber passar a bola não entendeu a dinâmica do campo.
A dinâmica da fé é bem parecida a esse movimento. Nenhum bom jogador passa uma bola “quadrada” para o companheiro de equipe. Sempre o lançamento deve ser o melhor possível para que ele possa dominar a bola e fazer o gol, da vitória. A nossa fé tem a mesma dinâmica. A nossa caridade não deve ser feita com migalhas que sobram de nossa mesa. “Bola quadrada, ou comida estragada, um resto”! Nossa solidariedade é verdadeira na medida em que a nossa caridade se assemelha à caridade de Deus, como Graça concedida gratuitamente.
Aqueles que não aprendem a viver “com os outros e pelos outros” ainda não compreenderam o sentido da vida. Ainda não sabem o que distingue uma fé baseada em momentos de oração, de eventos, de uma fé que nos eleve aos céus, ao colo de Deus, junto com todos os nossos companheiros do jogo da vida.
Após os primeiros jogos da Copa, podemos fazer algumas análises reflexivas sobre os diversos conjuntos chamados de “seleção”. As seleções que reuniram jogadores que melhor sabem passar a bola saíram vencedoras. O talento individual não representa quase nada. É preciso que cada um entregue o melhor de si para o bem coletivo, para o sucesso do grupo.
A dinâmica cristã é bem parecida. A comunidade eclesial de base tem muito dessa riqueza de saber passar a bola, de entrega máxima de cada um, de uma ruptura do caminhar individualista, e de saber elevar as mãos aos céus, a Deus. Diz-nos o Papa Leão XIV que “o cristão, além de ser gentil e amável, deve ser compassivo, amar sem interesse e buscar do bem dos outros”. “Quem não sabe viver com os outros, ainda não entendeu a vida”.
Não se caminha em comunidade achando-se uma estrela, que nunca passa a bola, que não deixa os outros entrarem no jogo. Acha que sozinho poderá salvar o mundo, iluminar a terra. Não se deixa os outros de fora. Não se pratica “exclusão da e na fé”. Sim, muitos são excluídos ou cortados em muitas comunidades. Quem age como estrela isolada leva todo o time de Cristo a perder o jogo. “Por isso, também para nós, é importante pensar e sentir que estamos em uma equipe”, conclui o Papa Leão XIV.
O esporte, além de ajudar a manter o equilíbrio entre corpo, mente e alma, nos ensina valores fundamentais para vida, como a importância do trabalho em equipe, convivência e solidariedade, que também são valores centrais da fé cristã. Ninguém vence sozinho! Ninguém se salva sozinho!
Edebrande Cavalieri

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