Como filho de Santo Agostinho, o Papa Leão XIV fez um último apelo à Fraternidade Sacerdotal São Pio X para que não ocorresse a ordenação de quatro novos bispos sem o aval do Pontífice, fato que já ocorreu uma vez em 1988 sob o Pontificado de João Paulo II e que resultou na declaração de excomunhão Latae Sententiae e retirada em 2009 pelo Papa Bento XVI como gesto para a recomposição da unidade, voltando à plena comunhão com a Igreja de Roma.
A ordenação de bispos sem aprovação do Papa traz graves consequências à fé cristã, tornando inválidas ou ilegítimas diversas ações eclesiais e gerando confusão na caminhada de fé dos cristãos que frequentam suas capelas pelo mundo à fora. Até mesmo alguns sacramentos acabam sofrendo consequências se administrados nessas condições de cisma.
Em uma breve análise de conjuntura eclesial, podemos afirmar que a decisão da Fraternidade em proceder dessa forma fortalece uma tendência crescente dentro do catolicismo de enfraquecer o sinal visível desta unidade expressa na figura do Papa e na rejeição do Concílio Vaticano II. Desde a era apostólica, a Igreja superou divergências adotando o caminho sinodal expresso nos concílios. Desta forma, a sucessão apostólica presente em todas as ordenações episcopais devem caminhar no eixo da unidade e não dos interesses de grupos ou pessoas. Ao longo da história houve muitas feridas com atos de simonia (compra de cargos eclesiásticos), cismas e, muitas, resultaram em divisões irreversíveis.
De onde brota o fundamento teológico da unidade que é um dos pilares da Igreja? Está explícita na Bíblia de maneira especial no Evangelho de São João (17, 21-23): “Eu não te peço só por estes, mas também por aqueles que vão acreditar em mim por causa da palavra deles, para que todos sejam um, assim como tu, Pai, está em mim e eu em ti. E para que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo acredite que tu me enviaste”. É nessa direção que Jesus celebra a última ceia instituindo a Eucaristia, sacramento da unidade e da comunhão, mistério de amor e de caridade.
Santo Agostinho dizia que o Sacramento da Unidade é a Eucaristia, sinal visível, que une a Igreja a Cristo e liga os fiéis uns aos outros em um só amor. Por isso, ele nos diz uma das frases mais conhecidas: “Tornem-se o que comem. Vocês comem o Corpo de Cristo, tornem-se Corpo de Cristo”. A graça que nós recebemos nos impulsiona a vivermos como ele viveu e nos transforma no próprio de Cristo na terra.
O que precisamos entender, nos alerta Agostinho, é que o pão e o vinho que foram postos diante de nossos olhos é o Corpo de Cristo e seu sangue (Sermão 227). “Sede o que vedes e recebei o que sois” (Sermão 272). Não somos convidados a meros espectadores na missa ou consumidores de hóstia, mas somos transformados, assimilados por Aquele que recebemos. Assim como o pão é formado por tantos grãos e o vinho por tantas uvas, formando uma unidade, nós também, diversos e únicos, somos chamados a nos tornar um só corpo em Cristo, superando nossas diferenças e nossos egoísmos. Nossa vida inteira deve refletir essa vocação, esse chamado à unidade, sinal do amor de Deus no mundo. Receber a eucaristia é um compromisso para viver em vista da unidade, um construtor de ponte, um promotor da comunhão onde há divisão.
O Papa Leão XIV, filho de Santo Agostinho, nos diz: “Ainda hoje há uma ceia a preparar. Não se trata apenas da liturgia, mas da nossa disponibilidade para participar num gesto que nos transcende. A Eucaristia celebra-se não só no altar, mas também na vida quotidiana, onde é possível experimentar tudo como oferta e ação de graças”.
Por esse motivo a Igreja Católica, conduzida pelo Papa, é tão zelosa no cuidado com a sucessão apostólica presente nas ordenações episcopais. Não se trata de um mero exercício de poder político, mas de garantia da fé cristã em termos de unidade e comunhão, de fé na Trindade. Unidade e comunhão com os sucessores dos Apóstolos que são os bispos do mundo inteiro, que conduzem cada Igreja local. Unidade e comunhão são compromissos de fé em torno desses pastores.
Sagrações episcopais sem mandato de Roma não é apenas um gesto de desobediência, mas uma escolha estratégica para preservar a própria identidade, posta acima dos princípios da unidade e da comunhão. Esse gesto aprofunda a polarização do catolicismo contemporâneo e traz consequências muito ruins para a condução atual da Igreja na perspectiva da sinodalidade. Em termos jurídicos canônicos, a excomunhão ocorre automaticamente com a própria ordenação episcopal – latae sententiae. Não se trata de uma excomunhão imposta mediante sentença formal, o que não impede a Santa Sé de publicar um decreto especificando a aplicação da excomunhão.
O Papa Leão em seu último apelo à unidade, com o “coração entristecido”, disse que rezava para que não se rasgasse a Túnica inconsútil de Cristo, pois “é um pecado de extrema gravidade”. Repetindo Santo Agostinho para cada um de nós que caminha com a Igreja: tornemo-nos o que comemos como Corpo de Cristo e vivamos como Ele viveu na terra. Em torno da Eucaristia e em comunhão com a Igreja que constituímos um só corpo.
Edebrande Cavalieri

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