EM TUAS MÃOS, SENHOR!

6 julho, 2026

Enquanto as redes sociais e a grande mídia internacional repercutiam a notícia das ordenações levadas à frente pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o que se viu do Papa Leão XIV foi um movimento de interioridade espiritual, de recolhimento, seguindo o modelo de Santo Agostinho. O Papa, após ter enviado, no dia 29 de junho, um último apelo sob a forma de carta em que se colocava com “sentimentos paternos”, “repleto de afeto cristão”, suplicando “do fundo do coração” para que a Fraternidade reconsiderasse a decisão para “o bem espiritual dos féis”, recolheu-se nas mãos do Senhor.

O Dicastério para a Doutrina da Fé, após o ato de desobediência ao Pontífice realizado no dia 1º de julho por aquela Fraternidade, emitiu um decreto assinado pelo Cardeal-Prefeito confirmando que ela incorreu “em um ato de natureza cismática, com a consagração episcopal de quatro presbíteros sem mandato pontifício e contra a vontade do Sumo Pontífice”.

O Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, também se manifestou a respeito do ato celebrado registrando sua “profunda tristeza, porque tal ato fere profundamente a unidade da Igreja”. Ressalta que na história da Igreja, praticamente em todos os Concílios, houve movimento de alguma ruptura. “A questão fundamental é a do Concílio: aceitar ou não o Concílio Vaticano II”. Em função disso, em 1970 Dom Marcel Lefebvre fundou seu movimento que hoje é a Fraternidade São Pio X. “Certamente não se pode pensar que a história da Igreja termina em um determinado ponto. E o Concílio Vaticano II é um marco para a Igreja que deve ser aceito e implementado de maneira correta”.

Do Vaticano nos últimos dias turbulentos, apenas essas notícias e ações. O que nos chama a atenção é a profunda espiritualidade enraizada na confiança e abandono á vontade de Deus demonstrada pelo Papa Leão XIV. Por diversas vezes, ele confessou que conduz sua vida inteira sustentada pela prática contínua, diária, da presença de Deus. Isso reflete um eixo interior que orienta sua forma de rezar, de discernir e de agir. Confessa de maneira simples e serena que busca sempre ver a vontade de Deus.

Perguntado sobre sua caminhada espiritual logo após ser eleito Papa, ele respondeu indicando o livro do Irmão Lourenço da Ressurreição, A prática da presença de Deus. Trata-se de um livro simples que descreve um tipo de oração e espiritualidade em que se entrega a vida ao Senhor e se permite que Ele nos conduza.

Enquanto o mundo noticiava com estardalhaço que naquele momento a Igreja vivia uma grande crise, o Papa, após ter feito o que considerava seu dever como sucessor do Apóstolo Pedro, estava naquele lugar ao qual fora escolhido pelo colégio de cardeais, entregando sua vida ao Senhor e suplicando-lhe que a conduza e sustente sua alma em todos os momentos.

Não sabemos se o Papa possui uma devoção especial a algum santo. Talvez Santo Agostinho, o fundador da Ordem à qual pertence e que lhe inspira na vida religiosa. Contudo, o caminho firme vivido ao longo de décadas em várias partes do mundo e confirmado nos momentos decisivos de sua vocação como padre, bispo e agora papa, é marcado por essa via de interioridade e entrega às mãos do Senhor. Mesmo diante da tristeza de ver “rasgar a Túnica inconsútil de Cristo que é um pecado de extrema gravidade”, sua força está na humildade e serena entrega a Deus.

Com Santo Agostinho ele reza dizendo: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti”. Nas “noites escuras”, a certeza de que Deus está perto. A consciência de que não somos o que fantasiamos ser, ou seja, é preciso reconhecer nossos próprios limites. E confiar no amor divino que desde sempre nos amou. Cedo ou tarde em que nossa decisão de entrega ao Senhor aconteça, está a certeza que Deus sempre esteve dentro de nós, chamando e rompendo nossa surdez.

Colocar-se nas mãos do Senhor, em silêncio, para ouvir a sua voz. Este nos parece ser o grande ensinamento do Papa Leão XIV nesse momento em que altas ondas ameaçam a barca de Pedro.

Edebrande Cavalieri

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