A ESPÉCIE HUMANA DEVE CONTINUAR A HABITAR A TERRA?

22 julho, 2026

Desde sua posse como Papa, Leão XIV tem insistido na questão da paz no mundo. Agora acaba de publicar um novo livro que tem por título “Desarmada e desarmante. A paz é um dom”. No prefácio desse livro, ele nos lança essa questão que nos arrepia de medo: iremos continuar a habitar a terra?

Os noticiários estão repletos de informações a respeito de guerras entre as nações e, no momento, temos 103 Estados envolvidos em conflitos, conforme o Índice Global da Paz. Muitas vezes, são guerras dentro da própria nação com as chamadas guerras civis. Ao mesmo tempo, estamos presenciando o crescimento da escalada nuclear. A corrida armamentista hoje assusta e aterroriza e nos faz temer o fim de nossa existência sobre a terra.

Esse cenário nos parece externo a nós, pois o Brasil, dizemos, vive em paz. Será? Como conviver em paz com o crescimento da violência em todos os lugares? Tivemos até um governo que pensava combater a violência promovendo a venda de armas para os cidadãos “de bem”. Como ter paz no coração e na alma com uma arma na cintura? Esse é o desafio de uma paz social e política.

Ao chegar em nosso íntimo, vemos como os nossos corações não andam em paz. Acordamos agitados! Corremos o dia todo com o coração em ebulição. Fervemos como se houvesse um vulcão dentro de nós. Buscamos nas farmácias o remédio para a paz. Nossa vida parece ser uma luta permanente pela paz nas terapias, nos remédios, nos vícios, nos jogos.

A paz é o grande desejo que agita nossos corações, mas é frequentemente  ameaçada, pisoteada e desprezada. Outras vezes, nos colocamos como indiferentes à paz e ficamos dissimulando nossa busca com outros devaneios, nossas armas psíquicas, nossas fugas.

Santo Agostinho dizia que a paz não era mera ausência de conflitos, mas uma “tranquilidade da ordem”, onde as coisas sejam dispostas de acordo com sua natureza e propósito. Cada pessoa busca a verdadeira paz e a felicidade, e essa é a força que nos move. Buscamos uma paz interior e essa é garantidora de nossa saúde.

Nesse caminho pela interioridade de nossos corações, descobrimos como temos um anseio mais profundo, marcado em nossas existências e que nos liga a uma espiritualidade em forma de fé. Foi nesse caminho que Santo Agostinho chegou após tantas buscas, quedas, conflitos. Então, pode dizer: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti”.

Chegamos assim, no ponto mais profundo de nosso coração, onde encontramos a paz como um dom de Deus. Contudo, ela nos implica como responsabilidade. Na introdução do livro que o Papa acaba de lançar, ele se refere a um fato histórico ocorrido em 1983, quando um funcionário soviético, desobedecendo ordens, evitou uma guerra nuclear com os Estados Unidos. O Papa afirma, de maneira lapidar: “A consciência de um único homem pode valer o mundo inteiro”. Um louco também pode fazer desaparecer a humanidade sobre a face da terra.

O Evangelho de Jesus Cristo é chamado de uma “Boa Nova” da Paz. É ali que podemos encontrar a verdadeira esperança como fim das guerras, do ódio e da violência, a começar com cada um de nós, em nossas casas, com nossos colegas e vizinhos, na luta por justiça.

Já passou da hora de transformarmos tantas mensagens evangélicas faladas e gritadas nos templos religiosos em verdade de vida. Nunca se falou tanto do Evangelho ou da Bíblia como nos dias de hoje, e nunca se viveu tão pouco o dom da Paz que Jesus Cristo nos trouxe. Nos púlpitos das igrejas, pregadores mal-intencionados vociferam mundos polarizados, divididos, alimentadores e destruidores da paz. Alguns chegam a postar fotos com fuzil nas mãos ou fazer arminha com a mão.

O Papa nos convoca para uma luta em prol da paz e ela só poderá acontecer se empunharmos a arma da verdade: “Com a verdade, até mesmo quem faz a guerra afirma estar agindo em nome da paz. Ninguém tem a audácia de declarar que quer a guerra pela guerra”.

Para este ano eleitoral, a luta pela verdade será determinante na construção de um país que possa viver em paz. Quem alimenta o ódio, a divisão, a polarização, não pode ser digno de nosso voto. A nossa fé nos impele para outra direção, a do Evangelho de Jesus Cristo, o Senhor da Paz.

Edebrande Cavalieri

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