O primeiro consistório extraordinário do pontificado do Papa Leão XIV, realizado nos dias 7 e 8 de janeiro, reunindo 170 cardeais dos 245 atuais, deixa uma diretriz muito clara do caminhar da Igreja nestes tempos turbulentos. A mensagem central e o exemplo dos cardeais refletindo juntos com o Papadeveria impactar todo o mundo católico. O Papa apresentou quatro temas para os cardeais escolherem dois a serem refletidos de maneira colegiada e sinodal que foram “Missão da Igreja no mundo de hoje” e “Sínodo e Sinodalidade: instrumento e estilo de cooperação”. O foco escolhido pelos cardeais não foi nem a Liturgia e nem o Ministério da Santa Sé, que eram os outros dois temas.
Parece que o olhar para dentro de si vai perdendo força diante dos desafios para uma Igreja como “luz do mundo” e “sal da terra”. Esta é a razão de ser da Igreja: sua missão de levar o Evangelho a todos os povos, levar a Boa Notícia a todas as pessoas. Ao mesmo tempo, vemos o Papa iniciar uma nova série de catequeses retomando o caminho conciliar. Em suas palavras: “O Concílio Ecumênico Vaticano II ajudou-nos a abrir-nos ao mundo e a abraçarmos as mudanças e os desafios da era moderna, mediante o diálogo e corresponsabilidade”.
Ao término do primeiro consistório o Papa manifestava sua alegria e satisfação pela experiência de uma “profunda harmonia” e de uma “sinodalidade não técnica, mas afetiva, em continuidade com o Concílio, fundamento da conversão e renovação de toda a Igreja”. Esta é a mensagem mais profunda e clara deixada pelo Consistório. Foi tão forte e marcante que já se marcou o segundo consistório extraordinário para os dias 27 e 28 de junho deste ano.
Concluindo os trabalhos destes dias de reunião, não foi apresentado nenhum documento final. O objetivo apresentado logo no início era aprender um estilo – colegial e sinodal – para “trabalhar juntos” e “criar algo novo”. Por este motivo o Papa convida os cardeais: “trabalhemos juntos, discernamos juntos e busquemos o que o Espírito nos pede”.
Algumas questões ecoaram bem fortemente entre os presentes quando o Papa lhes perguntou: “Há vida na nossa Igreja? Há espaço para o que nasce: Amamos e proclamamos um Deus que nos coloca num caminho novo”? E alerta para que a Igreja não se feche em si e caia na tentação de que tudo está feito, terminado e basta fazer o que sempre se fez.
O caminho colegial e sinodal é o que Deus espera da Igreja nestes novos tempos. O Papa Leão XIV conclui esse momento de pontificado dizendo aos cardeais: “Como é belo estarmos juntos na barca”! Mesmo que tenhamos dúvidas pelo caminho, mesmo que haja algo que nos assuste e nem saibamos para onde ir e onde vamos chegar, “se depositarmos a nossa confiança no Senhor, em sua presença, podemos fazer muito”.
O cardeal Timothy Radcliffe, por solicitação do Papa, fez uma breve meditação dizendo que “se a barca de Pedro estiver cheia de discípulos em conflito, em desavença, não seremos de qualquer utilidade para o Santo Padre”. É preciso viver em amor e paz, mesmo “quando discordamos, pois Deus está verdadeiramente presente”.
Este caminho percorrido pelos cardeais junto com o Papa Leão XIV deveria servir de modelo para toda a Igreja. Em cada Diocese, Paróquia ou Comunidade, as palavras – “trabalhemos juntos”, “discernamos juntos” e “busquemos o que o Espírito nos pede” – deveriam ecoar fortemente tornando-se uma prática pastoral missionária de uma Igreja “Luz do Mundo”. Fora desta barca, que é a barca de Pedro confiada por Jesus, só haverá canoas furadas que em pouco tempo afundarão nas águas dos mares revoltos.
Edebrande Cavalieri

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