Tem crescido muito nas comunidades e escolas católicas a prática de convidar os alunos e professores para o início do ano letivo para uma pequena celebração em que um ministro, geralmente padre, possa conferir uma bênção às mochilas e seus portadores. Que sentidos carrega essa prática religiosa? Como inserir esse momento na vivência da fé ao longo do ano?
Faço parte de uma geração que cresceu “pedindo a bênção” todas as noites ao pai e à mãe, que “pedia bênção” ao avô, avó, tio ou tia toda vez que os encontrava. Hoje ainda guardamos uma vaga lembrança dessa prática dizendo aos nossos filhos toda vez que saem de casa: “vai com Deus”. Ou “fica com Deus” quando os deixamos sozinhos.
A experiência das bênçãos é muito presente em toda a Bíblia e chega ao grau mais elevado sendo vista como “graça” e também “ação de graças”. Na Bíblia, a bênção é um dom que atinge a vida e seu mistério e não se refere a um bem específico e nem pode ser retirado. A bênção não se relaciona ao “ter”, mas ao “ser’, pois não depende da ação do homem. Ele depende exclusivamente do dom criador e vivificador de Deus.
Desse sentido bíblico, podemos refletir sobre a bênção das mochilas dizendo que esse ato não deveria significar uma força do alto para se tirar notas boas. A bênção não é um ato mágico. Na bênção das mochilas buscamos o dom da proteção divina para nossa vida em toda a sua extensão. Deveria servir para nos fazer crescer em sabedoria e fé.
A bênção na Bíblia sempre indica um encontro do homem com Deus selando uma união ou uma reconciliação. Portanto, ela indica um compromisso do homem, uma aliança, diante da enorme generosidade de Deus. Através dela expressamos nossa generosidade com todos os que estão à nossa volta, assim como Deus é infinitamente generoso. Ela traz abundância, não de bens materiais, mas de paz e de vida, de fecundidade florescendo e frutificando no mundo.
Novamente nossa reflexão prática diante desse sentido. Celebrar uma bênção das mochilas no início do ano letivo e desaparecer da frente de Deus o resto do ano não condiz com o sentido profundo desse ato. Ele deveria nos comprometer numa aliança com Deus e num compromisso de fecundar o mundo à nossa volta com paz e solidariedade. A bênção sempre deve fazer brotar a vida.
Desta forma, um “ser” bendito ou abençoado neste mundo se torna uma “revelação” de Deus. A bênção de Deus ao povo hebreu faz desse mesmo povo um lugar de encontro e uma fonte de irradiação. A descendência de Abraão é abençoada infinitamente mostrando que é escolhida por Deus. Toda vez que se rompe essa aliança/bênção torna-se necessária uma retomada de reconciliação.
Por fim, a bênção das mochilas não significa transportar para dentro das escolas uma prática religiosa fazendo do ambiente educativo uma espécie de “igreja”. Ela deve servir para inserir nossas crianças e jovens na comunidade eclesial. Nas celebrações nas igrejas e comunidades quase não vemos nossas crianças e jovens. Aqueles mesmos que foram no início do ano com as mochilas para uma bênção, onde estão ao longo do ano? Por que não retornam ao encontro com Deus? A bênção é um compromisso, uma aliança e não um ato mágico.
A bênção de Deus em sentido pleno é o Espírito Santo, dom de Deus. Por isso, pedimos os sete dons – Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor de Deus. Os frutos do Espírito na forma de bênção são simbolizados pela água que regenera, pelo nascimento e renovação, pela vida e fecundidade, pela plenitude e paz, pela alegria e a comunhão dos corações. A benção das mochilas deve nos levar à comunhão com Deus e com os irmãos, com os colegas de escola e as pessoas que trabalham nos colégios. Sua eficácia deveria se mostrar na exclamação das pessoas do mundo: “vejam como eles se amam!”
Edebrande Cavalieri

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