A criação do Leste 3 para caminhar ainda mais juntos

22 abril, 2021

Edebrande Cavalieri

Vários fatores estão me motivando na escrita desse artigo sobre a criação do Regional Leste 3 da CNBB e um deles se refere a uma conversa de uma pessoa com o Padre Edemar Endringer que perguntava a ele: “No que a criação dessa terceira regional nos favorece?” O Padre Edemar respondeu brevemente dizendo que “pouca coisa muda. Na questão pastoral, antes MG e ES tomavam decisões práticas juntas e iguais. E agora cada Estado pode criar uma personalidade pastoral mais apropriada a sua realidade”.

O Papa Francisco nos diz que a Igreja deve atuar com uma “política não apenas para as pessoas, mas com as pessoas, enraizadas nas suas comunidades e nos seus valores”. Quando isso não acontece, as pessoas perdem a “dignidade de agir, de serem protagonistas do próprio destino e da própria história”. Perdem a oportunidade de “expressarem-se com os seus valores e cultura, a sua criatividade e fecundidade”. Trata-se de um caminhar juntos enraizados na realidade concreta e juntando forças com os movimentos populares.

Vamos explicar melhor como se estruturou essa forma de caminhada eclesial. O Concílio Vaticano II revisou o papel dos Bispos e a partir daí as Conferências Episcopais receberam maior autoridade e autonomia no que se refere à liturgia e outras funções pastorais e de ensino.

O Papa Francisco, em sintonia com o Concílio, tem apoiado as conferências episcopais no sentido da descentralização abrindo caminho para que cada região possa ter autonomia pastoral e formativa. As conferências episcopais são a expressão da comunhão dos pastores unidos ao Papa. Uma Assembleia Episcopal se torna a “expressão e a realização maiores do afeto colegial, da comunhão e corresponsabilidade dos Pastores da Igreja.

A CNBB, por uma intuição de Dom Helder Câmara e por objetivo fortalecer a comunhão entre os bispos e propor Diretrizes Pastorais para todo o Brasil, foi criada antes do Concílio, em 1952. No Vaticano recebeu forte apoio do Cardeal que veio a ser o Papa João XXIII. Pelo mundo a fora estava crescendo o desejo de constituição de conferências episcopais e o Concílio Vaticano II assumiu esse novo horizonte eclesial.

O Concílio desenvolveu muito a experiência da colegialidade episcopal. O Papa Francisco nesses oito anos de pontificado está realizando diversas reformas e uma das principais se refere à experiência sinodal de Igreja. Ele nos diz que o Senhor nos pede “caminhar juntos – leigos, pastores, Bispo de Roma”. E como grande timoneiro da Barca de Pedro ele nos diz: “Devemos continuar por esta estrada. O mundo em que vivemos e que somos chamados a amar e servir mesmo nas suas contradições exige da Igreja o reforço das sinergias em todas as áreas da sua missão. O caminho sinodal é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio”.

O primeiro nível da sinodalidade deve acontecer em cada Igreja particular, em cada diocese com suas paróquias e comunidades. É nas pequenas comunidades que se inicia a vida sinodal de caminhar juntos. Depois vem o nível das Províncias Eclesiásticas, em seguida as Regiões Eclesiásticas e as Conferências Episcopais. E por fim, o último nível que é o da Igreja universal. O Papa é assim expressão da colegialidade episcopal dentro de uma Igreja toda sinodal.

Desde o primeiro momento que eu soube que o Sub-Regional Leste 2 seria transformado em um novo Regional como Leste 3 fiquei muito feliz, principalmente pelo modo como a Igreja do Espírito Santo vinha sendo conduzida nos últimos 50 anos. Tive a oportunidade de estar presente em diversas reuniões do Sub-Regional e sempre essa caminhada de Igreja me encantava e encanta até hoje. Como se dá esse caminhar juntos?

A CNBB traça as principais diretrizes da Igreja conforme método consagrado no Concílio Vaticano II – Ver, Julgar, Agir. Depois os 19 regionais passam a concretizar melhor, conforme a própria realidade, essas diretrizes pastorais e cada Diocese assim poderá planejar seu próprio Plano Pastoral. Esse plano está sempre em sintonia com as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora. A partir daí, cada Regional vai concretizando melhor essas Diretrizes.

O Regional Leste 2 era composto pelas dioceses de Minas Gerais (28) e Espírito Santo (4). Conhecendo a história da Igreja no Estado de Minas Gerais podemos assegurar que se trata de uma realidade bem diferente da realidade capixaba. Nasceu daí o caminhar do Sub-Regional, concretizando ainda mais aquelas Diretrizes traçadas pela Conferência Episcopal.

Para compreendermos melhor o papel e o sentido da criação do Regional Leste 3, vamos mostrar algumas ações que prenunciavam desde o início esse caminho sinodal. Nesses anos de existência, o Sub-Regional Leste 2 foi desenvolvendo diversas ações práticas de vivência colegial dos quatro bispos com reuniões periódicas. Muitas decisões e encaminhamentos são dados em conjunto.

Uma ação fundamental foi a criação em 1985 do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória (IFTAV) onde todos os seminaristas passaram a frequentar em termos de formação intelectual com três anos de filosofia e quatro anos de teologia. Temos assim um caminhar formativo em conjunto, com professores das quatro dioceses que regularmente se reúnem entre si e com os reitores dos quatro seminários diocesanos. Esse caminhar junto na formação do clero permitiu que nossos vocacionados não se afastassem de suas realidades diocesanas e mantivessem os vínculos de afeto e comunhão nos quatros presbitérios. Isso fez com que se planejasse também uma formação permanente para o clero do Sub-Regional, com encontros para estudos de temas mais desafiadores do momento, trazendo especialistas de várias partes do Brasil.

Para o conjunto do povo capixaba a Festa da Penha representou sempre esse movimento de caminhar juntos no Sub-Regional. Assim o planejamento e a organização sempre contemplam as quatro dioceses, sem desconsiderar as áreas pastorais da Arquidiocese e as demais forças vivas da Igreja. A Festa da Penha em seu conjunto é expressão forte desse caminho coletivo.

Outro marco nesse processo é o enfrentamento conjunto das quatro dioceses de problemas que afetam o Estado inteiro. Temos assim a Carta assinada pelos quatros bispos do Espírito Santo em solidariedade às famílias vítimas da Covid-19 de 14 de junho de2020, cobrando atitudes todos em teremos de solidariedade e compromisso sanitário. Por ocasião de eleições, o Sub-Regional lança carta de orientações como ocorreu em 2020 com “orientações importantes para o discernimento do voto consciente, fruto do compromisso batismal”.

Muitas vezes, o alcance de uma determinada questão pode tocar em outras dioceses próximas e o chamado para a caminhada conjunta se faz presente. Foi o que aconteceu com a assinatura de uma Carta do Bispos da Bacia do Rio Doce em 2017, com o rompimento das barragens da Samarco em Mariana.

Ao longo dos anos as quatro Dioceses do Espírito Santo foram organizando encontros, congressos, formações, etc. Assim podemos lembrar dos Encontros de CEBs, dos Congressos da Renovação Carismática, dos encontros de Catequese, dos Encontros dos Seminaristas (ESES). Alguns tinham objetivos de cunho espiritual e outros visavam mais a presença da Igreja nas lutas do povo: luta pela moradia, pela saúde, pelos transportes. Quando dom Dario Campos foi escolhido como Arcebispo de Vitória, o Papa Francisco lhe fez uma solicitação para que seguisse o exemplo de São Francisco de Assis, sendo “solícito com os pobres mais abandonados”.

Com a criação do Regional Leste 3 há muitas expectativas para ampliação da caminhada conjunta do povo de Deus presente no Espírito Santo. Na história da Igreja antiga era muito comum a reunião das dioceses de uma determinada região na forma de um sínodo regional. Com a realização do Sínodo da Amazônia se fortalece essa caminhada de Igreja partindo de uma realidade mais específica, um olhar regional, a escuta das pessoas de uma determinada região. O Papa Francisco nos diz que “uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuda recíproca, onde cada um tem algo a aprender”.

Dessa forma, o Regional Leste 3 da CNBB não é uma divisão burocrática, mas o reforço na caminhada sinodal da Igreja do Espírito Santo, fazendo com que cada Diocese, cada Paróquia, cada comunidade, caminhem lado a lado. Compartilhar as esperanças e servir de amparo nas dores. Servir de força para enfrentar os desafios que os tempos atuais apresentam. A Igreja apostólica foi o exemplo mais concreto de como os doze caminharam juntos, sofreram juntos, mesmo estando cada um num canto da terra. Foi a força do caminhar juntos que fortaleceu a fé ao ponto de testemunhar com a própria vida. Que o Espírito de Deus ilumine o povo de Deus presente no Regional Leste 3 para que sirva de exemplo para o mundo no afeto e no amor, na escuta recíproca e no amparo na caminhada. De modo especial, desejamos que o Espírito de Deus fortalece os quatro bispos no remar da Barca de Pedro.

 

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