A guerra não te incomoda?

25 fevereiro, 2022

Os céus da Ucrânia amanheceram em cores de sangue, muita fumaça, muita destruição, muitas mortes, cheirando a pólvora. Quantos irão morrer? Quem sabe?! Logo que percorri as redes sociais e fiz uma postagem em prol da paz dizendo que nada justificaria aquele cenário tão sombrio e ameaçador. E uma pessoa me lançou na cara uma “bofetada” sob a forma de um comentário dizendo que se tratava de uma “guerra justa”. Então pensei: se esse rapaz fosse muçulmano chamaria de “guerra santa”, provavelmente.

Logo vieram-me à mente as palavras de um pastor evangélico que era antissemita, ligado ao nazismo e depois passou a combater firmemente o nazismo organizando uma ofensiva religiosa de crítica e combate ao nazismo, custando-lhe a prisão por vários anos sendo libertado pelas forças aliadas da prisão de Hitler. As palavras desse pastor são muito significativas nesse momento. Muitas pessoas já ouviram ou leram esse pensamento, mas vale a pena trazer à memória. Assim ele diz:

“Primeiro vieram buscar os comunistas, e eu não disse nada por não ser comunista. Depois vieram buscar os socialistas, e eu não disse nada por não ser socialista. Então vieram buscar os sindicalistas, e eu não disse nada por não ser sindicalista. Em seguida vieram buscar os judeus, e eu não disse nada por não ser judeu. Também vieram buscar os católicos, e eu não disse nada por não ser católico. Então vieram me buscar, e não havia ninguém para me defender” (Pastor Martin Niemöller da Igreja Evangélica Unida da Alemanha -1892-1984).

Qualquer um desses grupos que o pastor se referiu poderia defender que determinada guerra teria sido uma “guerra justa”. Essa doutrina defendida por Santo Agostinho descreve em que condições determinada guerra é uma ação moralmente aceitável. O problema é a identificação das condições. Quem as define? Qualquer um dos lados de uma guerra irá defender suas teses de guerra justa. Hitler também assim defendia, e dizia que os alemães precisavam de espaço vital para se desenvolverem.

Essa doutrina de Hitler estava apoiada na tese de que toda “raça ou povo com dotes civilizacionais superiores precisaria de um vasto espaço física para o seu pleno desenvolvimento. A conquista desse espaço vital dependia da subjugação de povos ou raças inferiores, ocupantes de territórios indignos deles”. Assim, para Hitler o avanço de seus exércitos ocupando ou invadindo territórios estaria plenamente justificado e seria uma guerra justa, moralmente aceitável.

Essa mesma doutrina da “guerra justa” foi usada na justificativa das Cruzadas Medievais. Muitos pensadores medievais e alguns modernos desenvolveram mais essa temática, que não me cabe aqui discutir ou debater. Seria muito bom se olhássemos a origem primeira desse conceito. Então chegaríamos ao Império Romano (bellum justum) que dizia que os romanos somente entrariam numa guerra justa contra uma nação estrangeira caso ela não tivesse atendido, no prazo de trinta dias, a um pedido de satisfação por eventuais danos sofridos ou temidos. Não havia nenhum fundamento moral que justificava a guerra declarada pelos romanos contra as nações estrangeiras. Muitas vezes, com o cristianismo, a guerra era defendida como justa porque os outros eram pagãos.

Não quero aqui aumentar essa discussão trazendo o conceito de “guerra santa”, que se parece bastante com as ações empreendidas pelos Cruzados medievais. Em pleno século XXI talvez devêssemos defender que nenhuma guerra é justa ou santa, pois levam à morte tantos inocentes e sofrimento imensurável. O caminho da humanidade não pode ser outro senão o da paz.

A Igreja Católica conduzida pelo Papa Francisco está sendo convocada para um dia de jejum e oração no próximo dois de março, pois a paz de todos está ameaçada. É preciso interromper as ações dos governantes que causam mais sofrimento às populações, destruindo os poucos momentos de convivência pacífica. O direito internacional deve prevalecer como norma para a construção da paz. E o Papa convoca os “que tem responsabilidade política para fazer um sério exame de consciência diante de Deus, que é o Deus da paz e não da guerra, e que quer que sejamos irmãos e não inimigos. Mais uma vez, a paz de todos está ameaçada por interesses da parte”.

Diante desse cenário catastrófico o Papa conclama todos os crentes dizendo que “Jesus nos ensinou que à insistência diabólica, à diabólica insensatez da violência se responde com as armas de Deus: com a oração e o jejum. Convido a todos a fazerem no próximo dia 2 de março, quarta-feira de cinzas, um dia de jejum pela paz”. Esse é o jejum agradável a Deus. Assim iniciaremos de maneira cristã a quaresma. Um católico que defende as armas como solução está caminhando na insensatez diabólica.

Se o mundo todo, toda a opinião pública, se colocar contra esse conflito boicotando de várias formas aqueles países que estão envolvidos, com certeza a trégua haverá, o diálogo acontecerá, e a paz brilhará nos céus da Ucrânia. Chega de balas e bombas iluminando os céus. A pessoa que não se incomoda com a guerra não caminha na paz, não trilha os caminhos da fé. A paz é filha da justiça e do direito. A guerra é filha dos interesses particulares, da sede de dominação, do ódio no coração. Se não fizermos nada agora, mais tarde será tarde demais. Provavelmente estaremos sozinhos para sermos devorados pelas forças da pólvora e nosso sangue cobrirá por fim o chão onde foram abatidos nossos irmãos. É preciso dar um basta ao mundo da loucura da guerra.

Edebrande Cavalieri

Foto capa: EBC – Agência Brasil
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