A IGREJA A SERVIÇO DA PAZ

10 março, 2022

O fenômeno da guerra é dos mais intrigantes na história da humanidade. Tem várias formas de se compreender, chegando algumas culturas até falar em “guerra justa” ou “guerra santa”. Alguns pensadores consideram a guerra como uma espécie de continuação da vida política através de outros meios. Trata-se de um fenômeno cultural que envolve um ou vários conjuntos da cultura. Tem predominado ao longo da história a dominação cultural de uma nação sobre a outra, e muitas vezes a religião acabou tendo papel determinante. Como avaliar uma guerra?

Alguns princípios são fundamentais para se analisar essa questão. Em primeiro lugar é preciso considerar que sempre que se tirar uma vida humana estamos diante de um erro grave e a Igreja Católica sempre foi muito ciosa nesse princípio. Em segundo lugar toda organização política consolidada como Estado tem o dever de proteger os seus cidadãos e defender a justiça. Portanto, qualquer agressão aos cidadãos que habitam um Estado soberano fere esse princípio. E em terceiro lugar, temos o principio da proteção da vida humana inocente e a defesa dos valores morais, que muitas vezes exige o uso da força e da violência. Muitas vezes a defesa dos valores morais são objeto de muitas interpretações. A quem cabe decidir e avaliar a respeito de um determinado valor?

Esses princípios são o grande suporte do Direito Internacional, tornando-se um parâmetro nas situações de conflito. Desses princípios se infere que a teoria da guerra justa nunca pretende justificar qualquer guerra. Ao contrário, trata-se de prevenir contra toda e qualquer guerra que retira a vida humana. O princípio fundamental que deveria guiar os homens para prevenir sobre a eclosão de qualquer guerra é que a primeira forma de se evitar não é o uso da violência como temos visto ao longo da história passada e presente.

A solução de qualquer conflito passa primeiramente pela adoção do debate, do diálogo, tendo tribunais e órgãos internacionais para a sua condução. Portanto, o uso da violência para resolver qualquer conflito somente deveria acontecer após esgotadas as exigências do debate e do diálogo. A decisão unilateral jamais se enquadraria numa aprovação do uso da violência para a solução do conflito. Então, no caso particular da recente guerra entre Ucrânia e Rússia como foram as negociações, os debates, as propostas para se negociar a paz e evitar o uso da violência?

Desta forma, em poucas linhas podemos concluir que todas as guerras nos parecem que aconteceram sem terem esgotadas as exigências do debate e do diálogo. Logo todas elas são imorais e o uso da força e da violência é empregado de maneira incorreta. Infelizmente, em todos outros momentos dos últimos anos vimos diversas invasões, com uso forte da força bélica, e pouca reação por parte da comunidade internacional.

O que nos move mais ainda nessa questão diz respeito ao papel que a fé cristã desempenha tanto para o caminho da paz como para servir de motivação subjacente à decisão de deflagar o conflito invadindo um determinado território soberano. Portanto, especificamente estamos diante da posição da Igreja Católica conduzida pelo Papa Francisco e das Igrejas Ortodoxas, especialmente a da Rússia. As Igrejas Ortodoxas mais antigas são as de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Porém outras foram surgindo e ao longo do tempo também se consolidaram como Igrejas autocéfalas. Ao todo temos em torno de 15 Igrejas Ortodoxas autocéfalas.

O mundo cristão não pode ficar indiferente à guerra que acontece nesses dias entre a Rússia e a Ucrânia. Muitas vezes ao longo da história, a Igreja Católica pagou muito caro pelo preço do silêncio. Mas agora, mesmo antes do início do conflito, o Papa tem realizado um grande conjunto de ações visando servir à humanidade como uma ponte de paz. Seu esforço não apenas levou em consideração os princípios cristãos, mas o princípio de esgotar antes todos os mecanismos que estão presentes no diálogo e no debate antes do uso da violência.

No último dia 6 de março, na oração do Angelus, o Papa Francisco enfrentou diretamente a posição russa diante do conflito. Como sabemos, o governo russo determinou uma Lei que considera crime passível de 15 anos de reclusão quem se referia aos acontecimentos na Ucrânia como guerra. E o Papa Francisco nessa oração deixou bem clara qual a posição da Igreja dizendo: “Na Ucrânia correm rios de sangue e lágrimas, não se trata apenas de uma operação militar, e sim de uma guerra que semeia morte, destruição e miséria”. E pediu urgentemente que se instaurem “verdadeiros corredores humanitários” para ajudar a população daquele país.

Nessa semana ele enviou dois cardeais – Konrad Krajewski, esmolário pontifício, e Michael Czerny, prefeito interino do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral – para a região em verdadeira missão de apoio, acolhimento, afirmando assim que “a Santa Sé está disposta a fazer tudo, a colocar-se a serviço desta paz”. Por meio dessa missão pontifícia, toda a Igreja e todo o povo cristão devem aproximar-se e dizer que a “guerra é uma loucura!” Essa missão é puramente evangélica, e não tomada de partido de cunho ideológico. “É preciso fazer chegar ajuda às zonas cercadas para dar alívio aos nossos irmãos e irmãs oprimidos pelas bombas e pelo medo”, nos pede o Papa.

Francisco mostra em suas aparições como sofre diante dessa loucura, com o “coração partido”, e nos diz que “Deus está com os pacificadores, não com aqueles que usam a violência”. É preciso que as armas se calem, e voltem a soar os sinos da alegria e da paz nas Igrejas e na sociedade. O uso de expressões fortes marca sua postura e assim não faz nenhuma ressalva para esse conflito denominando de pura “insensatez”.

O Patriarca Kiril da Rússia não pensa igual a Francisco e afirma que a guerra se justifica pelo fato de que “forças externas sombrias e hostis estão buscando dividir nossa pátria histórica comum”, a “terra russa” que compreende a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia. Portanto, vejam como se torna difícil o caminho da paz nesse contexto atual religioso.

O mundo ortodoxo é muito complexo. Mas já temos como certo que a guerra atual terá consequências fortes no cenário religioso especialmente no mundo ortodoxo com 300 milhões de pessoas, dividido em 15 Igrejas autocéfalas. Somente dentro da Ucrânia há três e uma delas é dependente de Moscou. Está se criando um novo sentimento de “casa comum”. Para a historiadora Diana Butler Bass, esse conflito tem muito a ver com religião e o tipo de ortodoxia que moldará a Europa. A imagem de um líder ortodoxo benzendo as armas de guerra mostra um pouco esse sentimento. Nesse sentido, estaríamos diante de uma espécie de cruzada para recapturar a Terra Santa da Ortodoxia russa e derrotar os hereges ocidentalizados que não se ajoelham diante da autoridade espiritual de Moscou. O poder político estaria conduzindo dessa forma uma verdadeira cruzada como nos tempos medievais.

A liderança religiosa presente em Moscou se confronta com a posição do Patriarcado de Constantinopla tendo a frente o Patriarca Bartolomeu I, que é uma grande referência no mundo progressista e pró-ocidente, que aparece sempre como grande parceiro nos movimentos ecumênicos com o Papa Francisco. Enfaticamente esse Patriarca grita que “as armas nunca são a solução” e lança um apelo: “Acreditamos firmemente que não há solução possível para preservar e garantir a paz a não ser o caminho do diálogo, que suprime as condições que levam à violência e à guerra”. E pede que as partes envolvidas na guerra retomem o caminho do diálogo e ponham um fim ao conflito para que o povo ucraniano possa viver em paz.

Isso nos mostra como o cenário atual é complexo e perigoso para o mundo todo e todo esforço de paz deve ser bem-vindo e apoiado. Sabe-se quando uma guerra começa, mas nunca quando irá terminar. Nessa loucura entre Ucrânia e Rússia há questões bem mais profundas do que aquelas explicitadas pelas duas lideranças dos países em conflito. Outra questão religiosa que surgiu nos EUA por volta do ano de 1935, conhecido como Direita Cristã, está influenciando governos e determinando os rumos da política atual.

A figura do Presidente russo está alinhada com essa visão religiosa que surgiu nos EUA, aliando-se nas últimas duas décadas a atores conservadores cristãos ortodoxos semelhantes à Direita norte-americana cristã. Foi a partir da queda da União Soviética em 1990 que alguns acadêmicos, ativistas e empresários russos de fé ortodoxa começaram a importar ideias e estratégias dessa Direita que vai se tornando internacional. Hoje esses valores tradicionais são a espinha dorsal do governo russo.

Em termos estritamente religioso e cristão, o caminho desafiador para a fé nos dias atuais se refere à perspectiva da unidade na diversidade de Igrejas, de ritos e de costumes, sempre no caminho da paz. Nenhuma arma pode ser abençoada, pois ela traz morte, dor, divisão. Essas armas são expressão de uma fé herética. Nenhum Deus que é amor e trinitário seria favorável a esse conflito atual e a nenhum outro conflito que semeia morte e destruição.

O Patriarca Bartolomeu I alerta para uma nova guerra na Europa resultante da escalada da retórica violenta e da militarização das fronteiras. E alerta ainda mais para que se assuma no mundo posturas mais fortes rumo à paz. Para ele, o silêncio e a indiferença não são uma opção. E pede para que todos contribuam ativamente para a resolução pacífica das situações de conflito.

Esse tempo de Quaresma talvez seja o momento cristão mais desafiador que é transformar o jejum e a oração em prol da paz. Então teremos uma Quaresma para a Paz verdadeira que é Cristo, e que se concretiza na história de todos os povos. A morte de Jesus é suficiente. Basta de guerras e de mortes.

Edebrande Cavalieri

Foto capa: Photo by Sergey BOBOK / AFP

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